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Resumen de ponencia
“Todo mundo era uma turma só”: memórias cristalizadas da juventude de Florianópolis (1980-1989)

*Carlos Eduardo Pereira De Oliveira



Este presente trabalho se debruça na análise sobre diferentes discursos acerca da juventude urbana de Florianópolis, destacando aspectos como os embates memorialísticos, a construção de uma memória oficial sobre essa camada da população da cidade e as diferentes cristalizações produzidas sobre os anos 1980. Para isso, faz-se necessário compreender o local onde essas disputas se perfazem. Florianópolis é a capital do Estado de Santa Catarina, localizado na região sul do Brasil, sendo uma das cidades com maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do país. Todavia, ela se caracteriza como uma capital menor que as demais, tendo somente 400 mil habitantes, menor, inclusive, do que outras cidades do próprio estado, como Joinville (com mais de um milhão de habitantes) e Blumenau (com mais de 500 mil habitantes). Além disso, Florianópolis nunca foi um grande centro produtivo, agrícola ou industrial, e teve sua economia calcada no comércio e abrigando instituições da administração pública estadual. Entretanto, conseguimos identificar um período de grande desenvolvimento urbano na capital catarinense após os anos 1970. O aumento populacional, em decorrência das migrações e do crescimento da população que residia na cidade, se demonstra como um fator preponderante nessa análise. Houve uma radicalidade nas transformações urbanas e sociais na segunda metade do século XX, com uma ocupação intensa de toda parte insular de Florianópolis, e principalmente após a década de 1970, com a chegada de migrantes, muitas vezes naturais de outras capitais do país, evidenciando que o maior contingente era do meio urbano. Além disso, temos uma complexificação da estrutura econômica da cidade, com o aumento de empregos ligados à área governamental e o aumento de trabalhadores públicos. Assim, podemos perceber que Florianópolis empregava muitas pessoas de áreas que não na indústria, carro-chefe das maiores cidades do Estado, como Joinville e Blumenau. Boa parte desses trabalhadores era migrante, contribuindo para essa mudança.
Nesse contexto, temos disputas sobre as memórias dos jovens florianopolitanos. De um lado, os nativos, uma geração já envelhecida nos anos 1980, de classe média e alta, filhos de personagens públicos da capital catarinense e inseridos nos mais altos círculos sociais, além de estarem presentes nos principais meios de comunicação da cidade. Do outro, os outsiders, colocados como invasores e principais responsáveis pelas mazelas sociais evidenciadas na cidade na década de 1980, filhos de ilustres desconhecidos, trabalhadores, entrando em uma nova dinâmica social, permeada por privilégios que não faziam sentido para esses novos habitantes. Com isso, temos um embate sobre as lembranças oficiais do que seriam as experiências jovens na Florianópolis oitentista. A relação entre nativos e outsiders se colocava de maneira problemática, permeada por conflitos de diferentes naturezas, que produzia fronteiras entre os sujeitos, em uma constante negociação entre os estabelecidos e os forasteiros, os migrantes que chegaram à Florianópolis por razões diversas. Logo, temos, para além dos embates, situações que geram acolhimentos e aproximações, em uma constante negociação entre esses sujeitos. Assim, podemos compreender que essa oposição não se baseava em um binarismo entre nativo/migrante, mas sim através de diversas dinâmicas sociais que permeavam outros tantos agentes envolvidos na cidade. Uma narrativa binária da estrutura demográfica da capital catarinense surgia como uma tentativa de explicação desses conflitos culturais que aconteciam. Desta forma, esse trabalho se debruça nos choques de ideias, costumes e gostos que constituíram a identidade desses indivíduos.
Partindo das experiências juvenis na Florianópolis dos anos 1980, um dos objetivos propostos é jogar luz sobre conflitos geracionais em uma cidade que se urbanizava e crescia exponencialmente. Para isso, utilizo como fontes 10 entrevistas realizadas com sujeitos que estavam inseridos nessa cena juvenil, como músicos, radialistas, jornalistas e frequentadores de bares e boates. Além dos depoimentos, utilizo matérias de periódicos de Santa Catarina, como O Estado e Diário Catarinense, que tratavam dos trânsitos juvenis na capital que se modernizava, podendo analisar diferentes espacialidades e temporalidades.
Como aporte teórico, me aproximo de Paul Ricouer, que aponta para o caráter documental que a memória deve possuir, através de um processo epistemológico que passa pela própria memória declarada, aquela que é colocada como verdade quando evocada pelo indivíduo ou pelo grupo que tal pertence, indo em direção aos arquivos e a documentação dela, até chegar à prova documental, onde entra o processo hermenêutico dessa memória alicerçado com as ferramentas da história. O autor aponta, dessa forma, para o caráter de veracidade adquirido à memória, dado por aquele que a evoca: para esse sujeito, aquilo que ele recorda de certo evento é a verdade, e nada poderá colocar essa lembrança em suspeita. É nesse ponto que entra a operação historiográfica evidenciada por Ricoeur, e a importância de colocar um sentido histórico nas narrativas de diferentes memórias, sempre tendo em vista que ela é uma fonte de análise, base do trabalho do historiador. Maurice Halwbachs também é colocado, ao afirmar que a memória é uma reconstrução do passado, uma ideia do que foi nosso passado, com a ajuda da reconstrução a partir do nosso presente. Assim sendo, ela não é estanque, paralisada no tempo, mas influenciada pelo tempo em que está sendo gestada e em permanente atualização. Entretanto, a memória não é o vazio absoluto, apenas aberto ao presente: ela traz reminiscências do passado, e nunca é apenas um espaço em branco, pois aquilo que chega até nós, no presente, somente faz sentido se reverbera com aquilo que já temos disponível.
Dessa forma, o trabalho tem como principal objetivo analisar esses diferentes discursos sobre a juventude de Florianópolis nos anos 1980, construídos no presente e no passado, compreendendo as tentativas de elaboração de uma memória cristalizada e homogênea sobre essa parcela da população da capital catarinense. As “vozes autorizadas”, colocadas pela imprensa e pelas camadas altas da sociedade, corroboraram para um enquadramento da memória, evidenciando um aspecto único e unilateral sobre os jovens da década de 1980.




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* Pereira De Oliveira
Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC. Florianópolis, Brasil