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Resumen de ponencia
Canção de sucesso e razão neoliberal

*Lucas Jardim



Nenhum outro produto da indústria cultural parece ser hoje tão presente na vida cotidiana quanto a música, e a forma musical hegemônica é a canção de sucesso. A canção de sucesso, mais que uma forma musical ou um produto comercial, constitui um problema social e sociológico: em torno das gravações, situam-se os discursos, as instituições, os espaços, as leis e mecanismos de controle autoral, os rituais característicos da indústria cultural, as formulações que os agentes envolvidos fazem de tudo isso. A canção de sucesso é, portanto, um dispositivo moderno que se radicalizou e se generalizou sob as condições do capitalismo neoliberal.
Buscando apreender características deste tempo histórico, este trabalho visa investigar as transformações sociais das últimas décadas: tomando como hipótese que a canção de sucesso é um objeto privilegiado para se pensar estas mudanças, trata-se de compor um quadro teórico para se pensar sociologicamente esta problemática. Assim, considerando o processo de produção de canções como um processo de produção ideológica, podemos centrar a análise nas condições de produção de uma modalidade cultural específica, na qual já estaria contida a produção de seus respectivos consumidores, entendendo que as mensagens produzidas e veiculadas pelos meios de comunicação podem analisadas enquanto componentes ideológicos de um sistema de produção cultural. A questão de fundo do tratamento histórico do objeto é a maneira como a indústria cultural se renova, mantendo sua estrutura de dominação: amplia seu alcance, altera suas estratégias, seus temas prioritários, suas “preocupações”, contempla demandas que surgem, e segue estabelecendo limites do que é aceitável e do que não deve ser ouvido. O objetivo da análise aqui realizada é buscar diferenciar as estratégias presentes na indústria cultural em seu modelo, por assim dizer, clássico, daquelas que mobilizam os artistas, produtores e consumidores da indústria cultural sob o neoliberalismo.
O problema da música popular, comercial, gravada, nos termos colocados aqui, suscita a hipótese: se, delimitado um período histórico, é possível analisar a forma que a ideologia toma neste período através de produtos específicos que cristalizam na gravação ideias ou experiências de seu tempo; recortando diferentes períodos históricos para a análise, é possível revelar também a forma com que a mudança social pressupõe uma necessidade de modernização da aparência social (ou seja, uma modernização que é, também, ideológica). Dessa maneira, a história da canção de sucesso contém em seu desenvolvimento um elemento estático, isto é, a manutenção de um padrão cultural – a canção de três minutos – que garante uma aparência de continuidade ou imobilidade; por outro lado, possui um elemento dinâmico, implícito na própria obsolescência do produto cultural, que gera diferentes aparências sociais ao longo do tempo. No repertório da música popular, isto pode ser observado, por exemplo, naquelas canções que atravessam o tempo, permanecendo conhecidas e sendo regravadas (com diferentes arranjos e interpretações) em momentos históricos diferentes; ou ainda, e sobretudo, na forma com que algumas narrativas temáticas e padrões musicais são reelaborados em canções diferentes, mas que guardam elementos comuns entre si.
Assim, podemos pensar a canção de sucesso como produto expressivo da contradição entre mudança e permanência: o que faz sucesso, o que tem apelo com o público, a forma como os temas são tratados; estes são elementos que possuem continuidades e rupturas. Com o desenvolvimento da técnica, mudaram também os ritmos mais ouvidos, os gêneros musicais, os segmentos de mercado. A forma como a música circula, por sua vez, cristaliza repertórios, cancioneiros, que também se modificam ao longo do tempo. Em cada período histórico, algumas referências anteriores são reelaboradas e reincorporadas ao repertório, outras são descartadas ou esquecidas. A questão central é: mudando a sociedade, mudam também as formas da sociedade elaborar as representações de si mesma; transforma-se a aparência, a ideologia. Contudo, são conservados elementos ideológicos fundamentais, como na mudança social são conservados traços estruturais da sociedade. Uma análise deste movimento na música popular pode captar nuances deste processo e assim oferecer uma abordagem relevante para o tratamento da questão das formas de subjetividade que são fabricadas sob as condições do capitalismo neoliberal, considerando que compositores e intérpretes imprimem em suas gravações experiências sociais historicamente determinadas.
As mudanças na forma de se comercializar música gravada nas últimas duas décadas não somente incorporaram as tecnologias digitais e terceirizaram os riscos e investimentos iniciais para o artista, mas as transformações nesta estrutura implicaram também transformações musicais e de conteúdo das gravações. Os hits de hoje têm de se vender de uma maneira muito mais competitiva, e por isso a afirmação performática do artista em uma “assinatura sonora” é, mais que nunca, imprescindível para o sucesso no mercado. A distinção que o artista busca deve ser combinada com a familiaridade dos padrões; os hits não possuem tempo para cativar o ouvinte, dado que as modernas formas de audição tendem a ser cada vez mais fragmentadas e velozes. Por isso, há um imperativo de uma “eficácia” musical, isto é, a presença de elementos de composição, de sonoridade, de arranjo e de letra que se apresentem para o ouvinte como estruturas reconhecíveis e identificáveis, e ainda assim, como uma novidade.




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* Jardim
Faculdade de Ciências e Letras-Unesp. Campus de Araraquara. Universidade Estadual Paulista - FCL/CAr. Araraquara, SP , Brasil