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Resumen de ponencia
"LICENA pede licença: presença!”: (des)caminhos da formação de educadoras/es do campo no Brasil

Universidade Federal de Viçosa - UFV (Brasil)

*Alessandra Campos
*Isabela Pasini
*Jaqueline Zeferino



A Licenciatura em Educação do Campo da Universidade Federal de Viçosa, LICENA/UFV, tem por objetivo formar educadoras e educadores do campo com habilitação em Ciências da Natureza com ênfase na Agroecologia, numa perspectiva interdisciplinar, interligando-se às ciências humanas e sociais. Este curso surge como fruto de lutas, em escala regional e nacional, por um projeto de sociedade, de campo e de educação do campo. A Educação do Campo é um fenômeno da realidade brasileira atual, protagonizado pelos movimentos sociais do campo, trabalhadoras e trabalhadores rurais e camponesas/ses, que “visa incidir sobre a política de educação desde os interesses sociais das comunidades camponesas” (CALDART, 2012: 259). Entendido como movimento, como política pública e como prática educativa (MUNARIN, 2008) a Educação do Campo tem como pilares o trabalho, a cultura, o conhecimento e as lutas sociais camponesas, se constituindo como embate (de classe) entre projetos de campo e entre lógicas de agricultura que têm implicações no projeto de país e de sociedade e nas concepções de política pública, de educação e de formação humana (CALDART, 2012: 25). A UFV, localizada na região da Zona da Mata de Minas Gerais - Brasil, é uma instituição de ensino com forte tradição agrária e tem como característica predominante, desde sua origem, a produção do conhecimento e de tecnologias voltadas para os interesses das classes dominantes, mais recentemente associadas ao agronegócio. Trata-se de uma instituição que cumpriu e vem cumprindo um importante papel no processo de modernização conservadora da agricultura (SILVEIRA, 2016 apud FERRARI et. al., 2017). Ao mesmo tempo, há décadas se realiza um movimento de resistência dentro da instituição através do desenvolvimento de programas, projetos e ações de ensino, pesquisa e extensão que visam o fortalecimento da agroecologia, da agricultura familiar e camponesa sob uma lógica científica e pedagógica contra-hegemônicas. Essa contraposição institucional está ligada à construção regional de um campo teórico e prático em torno da Agroecologia e Educação do Campo que, desde a década de 1980, se realiza através da parceria entre estudantes, docentes, técnicos/as, agricultores/as e suas instituições - Sindicatos de Trabalhadores Rurais, Associações e Cooperativas de Agricultores Familiares, Movimentos Sociais do Campo, Escolas Família Agrícola e da parceria com organizações sociais, como o Centro de Tecnologias Alternativas (CTA-ZM). Em 2003, com o início do governo Lula, a conjuntura nacional torna se favorável ao campo agroecológico, possibilitando o desenvolvimento de programas e projetos que fortalecem o movimento da agroecologia na região através de processos participativos e dialógicos, promovendo uma integração entre práticas e saberes populares, tradicionais e científicos, com os grupos e sujeitos envolvidos. “O processo cumulativo de relações entre universidade e essa longa trajetória de interação entre UFV, CTA-ZM e organizações dos agricultores propiciou o desenvolvimento de uma relação profunda, marcada pelo respeito e a confiança mútua, condição fundamental para o compromisso recíproco entre os diversos atores na construção da Agroecologia na região e para a realização de projetos, a exemplo, da criação do Núcleo de Educação do Campo e Agroecologia e do curso de Licenciatura da Educação do Campo LICENA/UFV” (CARDOSO et al., 2001; CARDOSO e FERRARI, 2006). Ao mesmo tempo, o movimento da Educação do Campo se constrói regionalmente em proximidade com o movimento agroecológico, principalmente a partir da década de 1990, através das Escolas Famílias Agrícolas (EFAs) e AMEFA (Associação Mineira das Escola Família Agrícola), de parcerias entre CTA-ZM, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais - FETAEMG, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA, UFV e Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) no desenvolvimento de projetos ligados à Educação do Campo, a partir do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA), primeiro programa ligado à Educação do Campo em âmbito nacional, este último, resultado da luta dos movimentos sociais do campo, sobremaneira o MST (MOLINA, 2017). Assim como os governos Lula e Dilma favoreceram as políticas ligadas à Agroecologia, também possibilitaram conquistas de programas e políticas públicas ligadas à Educação do Campo. Além da ampliação do Pronera, outras conquistas ocorreram, como a implementação do Programa Nacional de Educação do Campo (PRONACAMPO) e do Programa de Apoio à Formação Superior em Licenciatura em Educação do Campo (PROCAMPO). Neste ensejo, docentes da UFV que já vinham de uma trajetória ligada aos movimentos sociais, articulam-se com organizações parceiras e movimentos sociais para elaboração da proposta de um curso de Licenciatura e Educação do Campo. “A proposta surge assim alicerçada em uma parceria histórica com diferentes organizações e movimentos sociais, cujas ações têm sido articuladas no âmbito de diversos programas e projetos institucionais” (FERRARI et al, 2017). O curso se desenvolve através da dinâmica e dos princípios da Pedagogia da Alternância, que possibilita um processo educativo conectado às práticas sociais e realidade das/os educandas/os e de suas comunidades. A alternância pode ser entendida como um processo contínuo de aprendizagem e formação na descontinuidade de atividades e na sucessão integrada de espaços e tempos. Essa formação inclui o espaço escolar e o espaço das comunidades, movimentos e famílias das/os educandas/os, abarcando a experiência prática e a produção de saberes individual e coletivamente (BEGNAMI, 2004 apud CORDEIRO et al, 2011). “Assumindo o trabalho como princípio educativo, a Pedagogia da Alternância permite aos jovens do campo a possibilidade de continuar os estudos e de ter acesso aos conhecimentos científicos e tecnológicos não como algo dado por outrem, mas como conhecimentos conquistados e construídos a partir da problematização de sua realidade, que passa pela pesquisa, pelo olhar distanciado do pesquisador sobre o seu cotidiano” (CORDEIRO et al, 2011, p. 120). No curso a alternância se materializa no tempo escola e no tempo comunidade, sendo este último espaço de acompanhamento das/os educadoras/es da LICENA nos territórios onde vivem as/os educandas/os. A formação é multidisciplinar tendo como pilares: Agroecologia, Trabalho como Princípio Educativo, Alternâncias Educativas e Educação Popular. O curso se estrutura a partir de Eixos Temáticos correspondentes aos quatros anos de formação, a saber: Sujeitos e Territórios; Territórios Educativos; Processos e Práticas Educativas; Ser Educador(a) do Campo. Em cada semestre há um Tema Gerador: Diagnóstico e Autorreconhecimento do Território; Modelos de Desenvolvimento e Experiências Contra Hegemônicas; Socioagrobiodiversidade; Produção de Conhecimento e Qualidade de Vida; Ecologia de Saberes; Agroecologia na Educação do Campo; Formação do Educador(a) do Campo em Ciências da Natureza; Sujeito Educador(a) do Campo. A alternância é um desafio para a UFV. A instituição encontra dificuldade em lidar com o regime de alternância, expressa, por exemplo, em uma necessidade constante de negociações de prazos para abertura do sistema no qual as notas das avaliações são lançadas, e mesmo agendamentos de espaços físicos para as atividades do curso. Outro desafio bastante presente é a compreensão da universidade dos sentidos da educação do campo e das especificidades dos sujeitos educandos/as da Educação do Campo, tanto em termos das suas condições materiais para o desenvolvimento do curso, quando das condições relativas ao pleno desenvolvimento de um curso em nível superior. Finalizada a política de financiamento direto para as licenciaturas em educação do campo, o curso vem passando por momentos delicados no que se refere à sua continuidade. Um grande esforço de negociações políticas vem sendo realizado pelas/os educadoras/es no sentido de garantir a continuidade da LICENA. Esta é uma realidade presente em outras instituições. Compreendendo que as universidades públicas brasileiras constituem um campo fundado na colonialidade do saber, do poder e do ser, e na racialização enquanto um dos mais eficientes instrumentos de dominação social e epistêmica, nelas são produzidas e reproduzidas de modo persistente e sistemático, históricas desigualdades sociais. No Brasil a ampliação do acesso à educação básica não foi acompanhada pela sua popularização, no sentido de considerar e trazer como elemento fundamental para as práticas escolares características e anseios dos sujeitos das camadas populares, do campo. O mesmo se repete quando se trata do acesso ao ensino universitário. Coletivos que estão na base da pirâmide social brasileira, oriundos de famílias com pouca escolarização, marcadas racialmente e com condições limitadas para uma apropriação mais rápida e eficaz da forma de operar da universidade (burocracias, normas, acesso à informação, práticas de leitura e escrita, etc.), as/os educandas/os do campo ingressam, em sua multiplicidade, com muitos dilemas, mas com muita luta, nesse “latifúndio do saber”, como nomeia Arroyo. A construção da Educação do Campo na universidade se coloca como um espaço de muitos desafios e necessários enfrentamentos a uma lógica que hierarquiza, invisibiliza e extermina histórias, saberes, práticas, sujeitos em suas coletividades. Um caminho árduo, construído na lida diária de educadoras/es, educandas/os, comunidades, movimentos, parceiras/os. Repetindo Galeano, no horizonte nossa utopia, que nos faz caminhar.
CALDART, R. Educação do Campo. In: CALDART, Roseli (org.). Dicionário da Educação do Campo. Rio de Janeiro: Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, Expressão Popular, 2012, p. 257-264.
CORDEIRO, Georgina N. K.; REIS, Neila da S.; HAGE, Salomão M. Pedagogia da alternância e seus desafios para assegurar a formação humana.




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* Campos
Universidade Federal de Viçosa - UFV. Viçosa, Brasil

* Pasini
Universidade Federal de Viçosa - UFV. Viçosa, Brasil

* Zeferino
Universidade Federal de Viçosa - UFV. Viçosa, Brasil