Na primeira década deste século, o continente africano voltou a ocupar um lugar de destaque no capitalismo mundial como fornecedora de recursos minerais e fronteira da produção de commodities agrícolas. Esse movimento, puxado pelo desenvolvimento da economia chinesa, fez com que os países africanos experimentassem altas taxas de crescimento no período até a crise iniciada em 2008. Acompanhando a dinâmica internacional e com novas diretrizes na política doméstica, no governo de Lula da Silva (2003-2011) as relações com os países africanos ganharam visibilidade e se refletiram no aumento de número de embaixadas, de viagens presidenciais, da cooperação internacional para o desenvolvimento, da balança comercial e de investimentos brasileiros. Entretanto, a crise política e econômica que vem atingindo o Brasil desde a reeleição da então Presidenta Dilma Rousseff teve como uma das consequências a tomada de medidas conservadoras, que, inclusive, repercutiram na forma como as relações com outros países vinham se firmando no contexto brasileiro. Se ao longo do governo de Lula da Silva havia um claro investimento nas relações com os países do Sul, com especial destaque para os países africanos, o atual governo voltou-se para os países desenvolvidos por entender ser esta a alternativa mais segura para as exportações brasileiras. Isso se traduziu em uma significativa redução do investimento político no fortalecimento de laços com o continente africano, com redução de viagens presidenciais, do arrefecimento dos projetos de cooperação e, consequentemente, da realização de investimentos e comércio. Nos anos de 2015 e 2016, a corrente de comércio do Brasil com países africanos experimentou uma significativa redução, cujos fatores motivadores relacionam conjuntura doméstica e internacional, em especial a queda do preço do petróleo. Ressalte-se que o Brasil mantém relações comerciais bastante instáveis com alguns países – como Moçambique, por exemplo, com o qual apresentou grandes variações na balança comercial. Também é de grande relevância para o esfriamento das relações econômicas com o continente a desestruturação das empresas brasileiras internacionalizadas do setor de infraestrutura, como Odebrecht, OAS, Camargo Correa e outras. As investigações sobre corrupção envolvendo executivos e políticos brasileiros impactaram na credibilidade e finanças dessas empresas, colocando em causa a capacidade de investimento das mesmas em projetos internacionais, realizados sobretudo em território latino-americano e africano. Apesar de os discursos dos chanceleres reconhecerem a importância das relações Sul-Sul, a cooperação internacional para o desenvolvimento - que exerceu protagonismo para o fortalecimento dessas relações ao longo, sobretudo, do governo de Lula da Silva -, passa para o segundo plano e é considerada um mecanismo a ser substituído pela intensificação do intercâmbio econômico e realização de investimentos. A mudança sobre o entendimento da cooperação brasileira a ser prestada - que havia estabelecido suas bases no ideário da solidariedade Sul-Sul - fica evidente pela formalização, em maio de 2017, por parte do governo brasileiro do pedido de entrada na Organização para o Desenvolvimento e Cooperação Econômica – OCDE, instituição responsável por orientar e coordenar a cooperação prestada pelos países desenvolvidos. Ao longo da história das relações entre o Brasil e os países africanos, a aproximação com o continente coincidiu com políticas desenvolvimentistas que buscaram diversificar e incrementar as parcerias comerciais brasileiras. Apesar de um discurso qualificado pela ideia de solidariedade, construído pelo governo de Lula da Silva, esse também foi um dos grandes motivadores da aproximação experimentada na primeira década deste século, acrescido pelo desejo de construção de uma nova arquitetura de poder que levasse em consideração as necessidades dos países do Sul. A aparência de relações orgânicas entre o Brasil e o continente africano, fundamentada pelos laços culturais decorrente da presença de africanos que vieram escravizados para o Brasil, é facilmente problematizada quando se observa a oscilação e fragilidade dessas relações em diversos momentos históricos, sobretudo em momentos de crise.