Frente a um contexto de expansão urbana e exclusão social, um tópico preocupante que surge relaciona-se à alimentação. Este trabalho visa analisar quintais urbanos da Comunidade Quilombola Cafundá-Astrogilda, localizada em Vargem Grande – Rio de Janeiro/Brasil, a fim de verificar suas funções socioambientais.
Quintal é um termo muito usado popularmente no Brasil que, de forma mais literal, pode ser definido como “pequena quinta” ou “pequeno terreno, muitas vezes com jardim ou com horta, atrás da casa” (FERREIRA, 2010). De forma mais aprofundada, pode ser caracterizado como um espaço que faz parte da propriedade, localizado no espaço externo à casa, com funções de convívio social, lazer e/ou produção a partir de elementos como jardins, hortas, criações e pomares (VAN HOLTHE, 2002).
A hipótese deste projeto é a de que os quintais executem funções sociais (alimentícias, medicinais, ritualísticas, de encontros e sociabilidade) e ambientais (manejos sustentáveis, culturas sem adição de agrotóxicos, preservação de grande diversidade de espécies), além de contribuírem para o desenvolvimento de saberes, sustentabilidade, segurança
e soberania alimentar da população quilombola Cafundá-Astrogilda. Objetiva-se obter uma lista das espécies cultivadas, seus usos para compreender a importância das espécies vegetais para os usos históricos e cotidianos em comunidades quilombolas; identificar as origens a fim de analisar os fluxos de troca e difusão das espécies manejadas; compreender o papel dos quintais produtivos no contexto da expansão urbana e, por fim, analisar o padrão espacial dos quintais em relação à floresta adjacente e à área urbana edificada.
O Quilombo Cafundá-Astrogilda se localiza na vertente sul do Maciço da Pedra Branca e abriga descendentes de escravos de antigas fazendas ali localizadas, sendo um quilombo já reconhecido pela Fundação Cultural Palmares desde Setembro de 2014. Seus moradores se dividem em nove (9) núcleos familiares que possuem relações territoriais e de parentesco entre si (CÁCERES, 2016). Diferente de alguns outros quilombos, o Cafundá-Astrogilda não se aglomera em um espaço facilmente delimitado, mas se caracteriza por ser espalhado pelo maciço, oferecendo características mais sustentáveis de aproveitamento de recursos, bem como uma possibilidade ampla de conhecimento do local, suas características físico-químicas e biológicas, e trocas entre seus moradores – de mudas, remédios e alimentos retirados da terra. De acordo com Anjos (2001), esta é uma característica comum de remanescentes de quilombos pelo Brasil, onde a forma de distribuição ocorre de maneira estrategicamente esparsa, sem um arruamento definido, muitas vezes também imersos em locais de topografia acidentada e/ou vales florestados.
Através de um enfoque etnobotânico, o presente trabalho visa contextualizar algumas práticas exercidas por estes moradores entendendo que os conhecimentos associados às espécies consistem em saberes associados à identificação e usos mantenedores de sua conservação. Para tanto foram realizadas três entrevistas semi-estruturadas e aplicados questionários socioeconômicos a partir da técnica “Bola de Neve”(Bayley, 1994), onde o informante principal indica novos informantes.
Até o presente foram realizadas visitas a três quintais quilombolas e todos eram da responsabilidade das mulheres. Foram apontadas 155 espécies, de 66 famílias botânicas. A família Liliaceae e Myrtaceae foram as mais citadas, compreendendo espécies ornamentais ritualísticas e alimentícias, respectivamente. Quanto aos usos a categoria alimentícia foi a mais citada (39%), seguida de medicinal (21%), ritualística (8%), ornamental (26%) e utilitária (6%). Esse resultado demonstra que a saúde do corpo e da família tem locus prioritário no espaço extradomiciliar das habitações, demonstrando que as funções socioambientais primordiais dos quintais quilombolas se situam em uma condição multiescalar, desde a escala do corpo à escala da cidade, sendo importantes para a reprodução dos modos de vida da comunidade e para o planejamento acerca de alimentação e soberania alimentar, de saúde e meio ambiente da comunidade e da população geral da cidade.
De acordo com os relatos das entrevistadas os quintais são citados como espaços do encontro, da identidade assim como da reflexão e relaxamento. Percebemos que para estas o quintal tem o poder de influenciar beneficamente na saúde de suas cuidadoras ao contribuir com uma atividade de status terapêutico, onde é possível entrar em contato direto com a terra, com os ritmos da natureza, exercendo foco e cuidados, trazendo bem estar e sanidade mental. Segundo algumas cuidadoras, o quintal foi peça chave para que pudessem se recuperar de quadros de depressão ou de falta de autoestima, ou apenas de promover paz interior em algum momento difícil da vida. Além disso, a plantação e utilização de diversas espécies comestíveis e medicinais promovem o cuidado do corpo de uma forma preventiva ou ao menos natural (SOUZA, 2013). De acordo com as histórias relatadas pelas entrevistadas, as plantas de seus quintais serviram para alimentação e para recuperação de alguma doença ou machucado de alguém da família, tendo papel fundamental principalmente em épocas de menor renda familiar.
Por se tratar de uma escala mais ampla de análise, os efeitos do quintal na escala corpórea estão também inclusos na escala familiar, sendo agregados outros valores, relacionados a uma esfera de encontro, de proteção familiar, de bem estar e diversão. O quintal aqui é representado em sua totalidade, sendo possível verificar que faz parte do terreno da família, se situando ao redor da casa e possuindo seus cultivos sempre próximos e com fácil acesso.
As plantas ritualísticas, com função de proteção, encontram-se sempre ao redor da casa, próximo às entradas e cercas, a fim de filtrar as energias negativas que possam tentar atingir o espaço da família. Os demais cultivos encontram-se espalhados, diversificando-se ao longo do espaço disponível para plantas. Os espaços de encontro são ao longo de todo o quintal, mas concentram-se nas varandas, onde é possível alocar cadeiras e mesas para maior conforto de um encontro prolongado. É nesta escala de análise também onde é possível analisar o empoderamento feminino, pois é junto à família que as mulheres que cuidam destes quintais podem mostrar seus conhecimentos, valores e importâncias.
Frente à comunidade quilombola, as influências dos quintais se ampliam ao possibilitar principalmente a troca de conhecimentos e de espécies. Eles promovem a possibilidade de reprodução de hábitos tradicionais da comunidade, trazendo identidade, pertencimento e fortalecimento identitários.
Os quintais tornam-se parte primordial do debate ao pensar em um diálogo entre a administração do PEPB e os manejos tradicionais e sustentáveis da comunidade, pois permitem diretamente a manutenção de espécies biodiversas (tanto de flora quanto de fauna), além de cuidados com solo, água, ar, caminhos e trilhas. Para os moradores do Quilombo a floresta é o território da existência, da identidade, da memória e, portanto, do sagrado.
Nos quintais e roças quilombolas há a promoção, manutenção e reprodução de conhecimentos acerca de manejo e plantio de espécies que interagem com a biota florestal, formando um tecido de relações de troca de matéria e energia diferentes de outras tipologias de ocupações existentes no PEPB, onde muros e cercas estabelecem uma ruptura com o entorno. Além disso, interagem com a sustentabilidade ao exercer o reaproveitamento e ciclagem de nutrientes e a manutenção de corpos hídricos. Indiretamente, ainda, a presença destes moradores em seus quintais também inibe a entrada de perigos como o narcotráfico e a predação de espécies.
Em escala mais ampla os quintais exercem influência na cidade e abarca todas as comentadas anteriormente, mas se destaca ao representar uma resistência ao caos urbano a partir da manutenção de espaços verdes, de agriculturas familiares e urbanas, de conhecimentos acerca da biodiversidade e funcionamento do sistema e de populações tradicionais com técnicas de conservação in situ de espécies de interesse cultural e social.
É visível, portanto, a importância destes espaços na garantia da segurança e soberania alimentar, bem como na saúde física e mental dos indivíduos da comunidade quilombola Cafundá-Astrogilda. Os benefícios se expandem ao pensar nas escalas de planejamento do PEPB e da cidade, pois têm o papel primordial de difundir um conhecimento que deveria ser intrínseco ao
planejamento, além de poderem promover a presença de uma população que preza pela proteção do ambiente que os cerca e pode promover fiscalização, educação, manutenção de biodiversidade, corpos hídricos e funcionar, também, como uma barreira ao avanço urbano nos limites do parque.
Conclui-se que os resultados obtidos foram satisfatórios para o presente trabalho, entretanto, o fenômeno não se finda nesta análise e é de extrema importância que outros trabalhos sejam elaborados a fim de dar ainda mais respaldo e conservação a este conhecimento tradicional importante para todos.