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Resumen de ponencia
As escrevivências das trajetórias escolares das juventudes negras

*Ana Paula Braz Maletta
*Cirlene Sousa
*Liliane Souza E Silva



O presente trabalho tece uma reflexão sobre o processo de escrevivências das juventudes negras no que tange suas trajetórias escolares na educação básica brasileira. Tais juventudes escrevem cartas narrando vivências escolares racializadas desde suas infâncias escolarizadas. Este estudo pretende contribuir para o processo de conscientização crítico-formativo dos sujeitos envolvidos nessas trajetórias. Mais especificamente: dar vozes as juventudes negras da educação básica brasileira; analisar como a escrita juvenil negra traz memórias racializadas desde suas infâncias; educar nossas docências para a escuta das juventudes negras e produzir materiais para formação de professores no tema da diversidade racial. A partir das obras de Conceição Evaristo (2006, 2007), podemos definir as escrevivências como projetos de escritas de si cuja pretensão é dar visibilidade à narrativa de diversos excluídos sociais, como os moradores das favelas, moradores de rua, de¬sempregados, alcoólatras, prostitutas, etc. Em geral, os personagens das obras de Conceição Evaristo exemplificam, no plano da ficção, um universo marginal que a sociedade tenta ocultar. Sua proposta de escrevivências apresenta-se como uma possibilidade de (re)construir a vida através de percursos e leituras de si com um cunho biográfico. Este projeto de escrita de si reflete aquilo que o personagem que escreve é, aquilo que vive, pensa, por que ou quem luta. Diferente de outras escritas, a escrevivência não tem a intenção de ser neutra, pois se utiliza conscientemente de palavras trabalhadas, escolhidas e escritas para incomodar, mexer e transformar. São exatamente os relatos de histórias de vida, os desafios diários, o cotidiano nas favelas, os afetos perdidos, as discriminações de gênero e raciais, a pobreza, o corpo violado que se misturam nesta escrita, caracterizando assim, as escrevivências. Não podem ser classificadas como ficções, pois os textos surgem das vivências do autor. Outro aspecto relevante contido na escrevivência é a consciência de um eu coletivo. De acordo com a sua criadora, Conceição Evaristo, as escrevivências apresentam tanto um viés biográfico, quanto um viés memorialístico, pois são “a escrita de um corpo, de uma condição, de uma experiência negra no Brasil” (Evaristo, 2007, p. 20). Ainda segundo a autora, para além da escrita de si, as escrevivências seriam também importantes instrumentos de conscientização, afirmação de si e denúncia social. Assim, a opção metodológica desse trabalho pretende ainda fortalecer as perspectivas epistêmicas decoloniais ao explicitar nas cartas a exclusão e o silenciamento de sujeitos e saberes negados pelas epistemologias eurocentradas. A necessidade de desconstrução do chamado pensamento abissal, que quando inscrito na educação, cria inferiorização preconceituosa de parte de nossas(os) jovens negros(as). Para Boaventura Sousa Santos (2007), o pensamento abissal é um sistema de linhas, que promovem distinções visíveis e invisíveis entre os seres humanos, seus processos identitários e suas histórias. A divisão dessas linhas é tão forte que um de seus lados desaparece como realidade e torna-se inexistente (Santos, 2007). Portanto, faz-se urgente a configuração de um pensamento pós-abissal na escola que atue na desconstrução desses pensamentos pedagógicos abissais sobre as juventudes negras. Inspirados pelos debates de Boaventura Santos (2007) e Miguel Arroyo (2014), consideramos que essa desconstrução só é possível se tomarmos consciência das diferenças e das diversidades juvenis escolarizadas. Somente pelo reconhecimento singular dessas(es) estudantes é que se dará chance a eles de saber-se, reconhecer-se como sujeitos de direitos. Portanto, as escrevivências juvenis são, por um lado, notadas como formas de denúncia de possíveis práticas discriminatórias e racistas na escola. Por outro lado, são inscritas como produções que possam contribuir para o direito das juventudes negras pesquisadas saber-se, sujeitos de direito. E, consequentemente, entender os processos de violências e inferiorização a que foram e são submetidas. Como destaca Miguel Arroyo (2014), os jovens invisibilizados na sociedade brasileira têm direito a saber-se vítimas de históricos processos de segregação para que seus saberes, leituras de mundo e de si sejam reconhecidas em nossas concepções pedagógicas escolares.




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* Braz Maletta
Universidade do Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte, Brasil

* Sousa
Universidade do Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte, Brasil

* Souza E Silva
Universidade do Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte, Brasil