O presente trabalho está em fase de elaboração. O objetivo é pesquisar a participação de militantes juvenis da agrupação política “La Cámpora”, no trabalho de gestão e militância desenvolvido dentro do “Instituto Nacional de Seguridad Social de Jubilados y Pensionados” (INSSJP-PAMI) durante o último período do governo de Cristina Fernández de Kirchner (2011-2015) e a atual gestão de Mauricio Macri (2015-2019).
Os estudos das juventudes relacionados com a participação política e militância juvenil na Argentina tiveram um aumento nos últimos anos. Alguns nichos de pesquisa buscaram compreender os novos processos de revitalização dos espaços das juventudes em diferentes movimentos, partidos políticos e coletivos (Vazquez, Vommaro, Blanco, et al, 2017, Vommaro, 2015). Com isso, a participação de jovens, em espaços urbanos, com agrupações politicas e movimentos sociais é uma das áreas de debate com um maior grau de acumulação nos últimos tempos (Di Leo, Damin, Fuentes, et al, 2016).
A proximidade da militância juvenil com a gestão governamental não foi uma característica própria do universo kirchnerista. Pode-se notar essas práticas em outras agrupações políticos juvenis, como Jovenes PRO, Movimento Evita e o Partido Socialista , tendo importância na futura projeção dentro de áreas estatais para cargos públicos, manifestadas por parte dos militantes (Vazquez, Rocca Rivarola, Cozhacow, 2016).
A seleção da agrupação “La Cámpora” está justificada pela sua ligação com o Estado kirchnerista desde o início da própria agrupação. O estudo justifica-se também pela importância que o movimento tem dentro da representação legislativa nacional, a capacidade de mobilização ainda presente de setores juvenis e não juvenis em diferentes atos, a vinculação com outras organizações politicas e pelo valor que a juventude possui tanto no sentido de uma exaltação das características próprias juvenis como também daquelas recuperadas e ressignificadas pelas lideranças políticas, somado também na vinculação de seus militantes na produção de políticas publicas dentro de diferentes ministérios nacionais (Vommaro e Vazquez, 2012, Vazquez, 2014, Vazquez 2015).
Os trabalhos desenvolvidos dentro de diferentes instituições permitem verificar como o compromisso das juventudes militantes passa por lugares cotidianos - universidade, bairro, unidades básicas - e também no seu trabalho em, no e para o Estado. Esse compromisso remete ao ativismo com responsabilidades no Estado, vinculado com a ideia de construir um Estado diferente, mobilizado em seu trabalho social. Esta concepção de ativismo dentro do Estado se compreende como gestión militante, que pode ser definida como:
Formas de entender la militancia identifican el trabajo en el Estado como parte ineludible de ese compromiso. Para los activistas, el Estado representa un escenario en el que transcurre la militancia (se trabaja y se milita en el Estado) y también es un objeto o móvil de sus acciones (se trabaja y se milita por y para el Estado). (Vázquez, 2013, pág. 12).
Entendemos que as formas habituais de militância partidária são incorporadas em outras formas de manifestação dentro do próprio lugar de trabalho, numa combinação de militância e formação técnica. Desse modo, é dada a possibilidade de “trabajar en território” por meio das políticas públicas que desenham, implementam ou avaliam, e no fortalecimento do próprio órgão estatal no qual participam (Vazquez, 2015 b), notando assim uma combinação entre saberes dos campos militantes, laborais e sociais no desempenho da função publica (Perelmiter, 2016).
Nesse sentido, pesquisou-se as ações desenvolvidas por parte dos membros da Cámpora no seu trabalho dentro das “Unidades de Gestión Local” (UGL) do “Instituto Nacional de Seguridad Social de Jubilados y Pensionados” (INSSJP-PAMI), a maior obra social de aposentados e pensionados da Argentina. Diferentemente de estudos que colocam o foco no labor dentro de organismos com maior proximidade das juventudes - como os exemplos da extinta Sub-Secretaria de Juventude (atual Instituto Nacional de Juventud) ou do Ministério de Educação -, a prioridade dada ao INSSJP-PAMI está relacionada ao objetivo de entender a participação das juventudes com segmentos que, a priori, não despertariam tanta atenção aos jovens (Pinilla, 2004).
Achamos, assim, vacâncias de trabalhos que refletiam sobre políticas públicas, projetos e dispositivos desenhados com participação de militantes para setores da terceira idade. O trabalho dentro INSSJP-PAMI conta com a particularidade de que parte dos militantes da agrupação conta com vários anos dentro do instituto, o que permite notar as modificações dadas no organismo por meio das formas de gestão, seja por meio da priorização de atividades preventivas de caráter esportivo e social complementares às prestações médicas dada aos afiliados durante a gestão kirchnerista, a uma diminuição considerável destas prestações durante o governo do PRO. Desse modo, é possível pesquisar como são dadas as formas de participação, compromissos e responsabilidades de militantes juvenis dentro de gestões estatais de diferentes índoles políticas.
Assim, o objetivo do atual trabalho está focado em compreender como se deu a incorporação dos jovens camporistas dentro da gestão estatal nos períodos delimitados, procurando olhar como a sua incorporação na gestão estatal incide nos discursos e práticas militantes, a fim de entender as modificações a partir/dentro do seu trabalho institucional no INSSJP-PAMI. Para isso, fez-se uso de entrevistas semiestruturadas, analisando o valor pessoal que os militantes atribuem ao trabalho feito dentro dessa instituição em particular, ou seja, como as próprias ações são percebidas por parte dos mesmos. Também se procura compreender como a formação acadêmica desses jovens e os conhecimentos adquiridos junto aos territórios e bairros - mediante sua militância anterior tanto na agrupação como em outros movimentos sociais (num primeiro momento) e atuação já nos órgãos legislativos (num segundo momento) - são aplicados no desempenho de suas funções na gestão pública.
Pensamos, como hipótese de pesquisa, sobre o tipo de compromissos que a coordenação de um trabalho formal apresenta aos jovens integrantes de um instituto público. Há, por um lado, os seus próprios alinhamentos de ação e, por outro lado, o papel que eles desenvolvem como militantes dentro da agrupação. É possível que existam dificuldades na articulação das demandas em relação aos grupos institucionalizados em que eles se inserem, havendo assim, uma modificação das práticas dentro da ação política. Assim, podemos ver que, uma vez dentro da própria dinâmica institucional, estes grupos encontram direcionamentos ou encaminhamentos para certas áreas do governo. Assim, as expectativas iniciais de inovação cedem espaço para as práticas próprias das lógicas de trabalho institucional, deixando algumas margens de ação que possibilitam a produção ou modificação em áreas que os novos contingentes juvenis acham necessários. Nesse sentido, emergem conflitos na articulação dos compromissos militantes dos jovens com as dinâmicas institucionais próprias do projeto político a qual aderiram.
Bibliografía
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