Este artigo se debruça sobre o movimento de mudança ocorrido durante os anos 2000 na América Latina. A chamada marea rosa, trouxe a vários países a proposta de experiências políticas diferentes das conhecidas pela maioria dos países, com uma guinada à esquerda de forma orgânica. A partir disto, se estabelece um grande esforço, por parte de pesquisadores, em tentar compreender essas novas experiências e explicá-las. Em grande parte utilizando-se das teorias tradicionais de democracia para decifrar estas experiências chamadas de refundadoras.
Ao falar de autonomia e heteronomia estamos trabalhando diretamente com uma relação de dependência intelectual. Nesta situação ocorre o condicionamento da produção de conhecimento de determinada comunidade acadêmica à produção de outras, estabelecendo-se uma relação de sujeição. (ALATAS, 2014). Caracteriza assim o monopólio de determinada comunidade sobre a capacidade de produção e desenvolvimento do conhecimento, relegando outras comunidades a serem reflexo da expansão desta. Isto determina que um esteja condicionado a ser receptor do outro, neste caso receber dos centros, que detêm poder sobre o saber, os métodos e agendas que determinem a produção.
Quando se aborda a heteronomia estabelecida na dinâmica dependência x autonomia no campo científico, estamos abordando a relação estabelecida entre a capacidade de produção de modelos analíticos originais segundo uma agenda de pesquisa própria, por parte da comunidade científica periférica, e as relações de dominação estabelecidas no campo científico, a partir da perspectiva de um sistema acadêmico internacional (BEIGEL, 2009).
Assim, neste trabalho me proponho a utilizar a análise de Gabriel Vitullo sobre democracia na América Latina e de Fabricio Pereira da Silva em seu livro Democracias Errantes de 2015. De forma a observar estas tentativas refundadoras na Venezuela Bolívia e Equador. Utilizando uma abordagem que se funda nas definições contra-hegemonicas da leitura de democracia. Dessa forma podendo se associar a minha crítica sobre a autonomia e heteronomia dentro da academia na América Latina.
Ao utilizar os estudos sobre democracias realizados nos últimos 4 anos pode-se observar uma noção de progresso intrínseca a modernidade, aliado a uma concepção teleológica evolutiva Isso nos leva a questionar quais são os parâmetros utilizados para definir e valoras quais são as melhores democracias. Para definir o que é democracia, e a partir disto, o que seria uma boa democracia, se utiliza apenas um modelo de democracia, e segundo ele são definidos quais os regimes que podem ser considerados democráticos. E a partir disto estabelecer uma escala onde se observam os “melhores” regimes e os “piores”. Essa discussão é necessariamente centrada nas estipulações feitas por países do centro, que não só controlam a agenda de pesquisa acadêmica, mas o monopólio sobre o conhecimento científico. Por conseguinte, as definições das relações, regimes, e formas sociais.
Ao abordar as referentes democracias como experiências refundadoras dentro do debate acadêmico sobre autonomia x heteronomia, me proponho a analisar como essas experiências democráticas se aproximam ou se afastam de uma realização autônoma. Além disso, quais são as respostas de teorização na academia para se compreender os processos que se dão fora do contexto que tenha como base uma noção de democracia clássica. Atualizar as concepções de democracia através do estudo das democracias refundadoras é ampliar as possibilidades de análise dos acontecimentos na América Latina, ao mesmo tempo que pode contribuir à pesquisa acadêmica latino-americana em si.
Sendo assim, procurarei tecer uma análise sobre as críticas e propostas do autor e como podemos enquadrá-la – bem como as experiências instituídas nestes países – como um produto autônomo da América Latina. Focando em uma discussão que tente demostrar a organicidade dessas experiências enquanto democráticas, em contra-ponto ao cânone ocidental da democracia liberal eurocentrada.