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Resumen de ponencia
Sociabilidade violenta, violência doméstica e clinica do testemunho

*Cynthia Mesquita
*Monica Rolo



Demandas de intervenção em situações de violência doméstica ou familiar são frequentes na emergência e ambulatório do Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro (CPRJ) , embora o mesmo não disponha de serviço especifico nem pessoal qualificado para o atendimento desse tipo de demanda. Colocado numa posição de uma espécie de juiz, o profissional de saúde dificilmente resiste a entrar numa espécie de julgamento de verificação de quem teria iniciado o ato violento, quem estaria com a razão, qual o histórico da vitima e do agressor, etc. Deve lidar com situações que alcançam o limite dos crimes de parricídio, filicídio, crimes entre irmãos, sobrinhos e tios, dentre outros, e que provocam grande rejeição e dificuldade nos atendimentos por tocarem no ideal de família.
É sob o signo dessa violência que se desenrola há anos o atendimento de Josefa, mãe do anjo, que logo seria renomeado bicho, e cuja característica principal, em suas palavras, é ser aquele que”nem pro trafico deu”. Sua impulsividade e egoismo, segundo ela, constituem um obstáculo nas repetidas tentativas de obter um lugar no mundo fora da família.
Com uma esperança ainda depositada no ideal da autoridade paterna - “a culpa é do pai, nunca forte o suficiente” - pergunta-se como a coisa chegou a esse ponto. É bem de força que se trata o tempo todo neste caso, agora que ele é adulto e manda nos pais idosos, chegando até a ameaçar expulsá-los de casa. Ela quer dar seu testemunho da violência que sofre em casa. Ele não quer saber de médicos e psicólogos. Diz que o problema é ela.
Na perspectiva do profissional surge a primeira pergunta: quem é essa mãe desse monstro que ataca a própria mãe?
Com histórico pessoal de violência doméstica na infância, Zefa resiste a abandonar-se à violência após tantos anos lutando contra ela, precisa tomar distancia para entender - por que tanto ódio e por que tanto medo? - ou na ordem inversa. Nos obriga a um questionamento: pode haver quebra de simetria nesta infernal lógica especular do “uma vez abusada na infância, abusador na vida adulta”? São úteis as teorias de transmissão geracional em cadeia das relações violentas, seja em versão genética ou em versão cognitiva dos modelo aprendidos?
Com sua queixa, repetida à exaustão, ‘não criei ele assim” parece insistir na pergunta pelas origens do mal e da violência à qual está subordinada mas não submisssa . Busca entender, tomar distancia e encontrar uma saída. Obriga-nos assim a questionar nossa resposta na forma de oferta de tratamentos combinados - medicação e psicoterapia. (Lipovetzky,G &Agrest, M. 2006)
Partindo deste questionamento procedemos primeiro a uma busca do estado das artes na matéria visando ampliar os horizontes de nossa compreensão da violência, tanto do ponto de vista de sua ligação com os afetos - especialmente o ódio e o medo - quanto das modulações de suas representações, assim como sua incidência na sociabilidade atual em nossas cidades. E em seguida selecionamos alguns estudos que descrevem problematizando as respostas dadas a demandas de proteção contra violência em instituições judiciárias – em delegacias de mulheres e juizados de crimes (jecrim) e em uma ONG que no passado, durante algum tempo, abrigou um trabalho de intervenção terapêutica para autores de agressão (ISER) e na atualidade abriga um trabalho de clinica do testemunho voltada para a assistência de vitimas violência do Estado desde que o mesmo foi encerrado pelo Ministério da Justiça.
Um estudo comparativo de maior folego e extensão deverá ser feito no futuro. No momento nos limitamos apenas a um breve levantamento do que unifica estas diversas propostas de intervenção em situações de violência seja ela estatal, domestica, de gênero, raça, ou qualquer outra forma que venha a demandar proteção.
A historia de Josefa é exemplar de várias outras onde o doméstico da violência termina confinado no ambiente privado fechado da familia, revelando a tensão intrínseca ao parentesco nas relações de consanguinidade e afinidade levada ao limite do impasse que não encontra uma saída pela alteridade, abertura ao mundo que contemple relações entre afins. Nesse sentido testemunha uma forma contemporânea de mal-estar na família. (Freud) O que faz com que uma família acabe fechada sobre si mesma apesar de ter seguido o roteiro de formação ideal de família? Essa tensão necessária e universal observada nas relações de parentesco encontraria modalidades especificas de expressão em um ambiente de sociabilidade violenta?
Por outro lado a pergunta pelas origens mascara o fracasso do dispositivo medicalizado obrigando a um questionamento sobre o ambiente ideal apto para promover uma alternativa real de abertura para a alteridade do mundo público em contraposição ao fechamento do espaço doméstico privado.
Assim chegamos à necessidade de abordar os vários estudos que tratam do tema da violencia em dimensões distintas, seja focalizando seus sentidos e sua gramática em perspectiva filosófica e psicanalítica ( Safatle, In: Novaes, 2014), passando pela antropologia das emoções (Koury,2005; Rezende, 2010) até chegar na nova dimensão trazida para este debate com a noção de sociabilidade violenta (Machado da Silva, 2004).
Para questionar a propriedade e as limitações dos tratamentos combinados como resposta a demandas de intervenção em casos de violência doméstica (e que poderiam ser categorizados como oriundos desta sociabilidade violenta) inventariamos alguns trabalhos na interface antropologia e justiça, que descrevem a tradição de tratamentos de demandas de proteção contra violência em delegacias de mulheres e juizados de pequenas causas. Além destes e em confluência com eles, pesquisamos também alguns estudos e relatórios da nova clinica do testemunho, que são dispositivos criados no âmbito do Ministerio da Justiça e da Secretaria de Direitos Humanos para o tratamento de pessoas vitimas de violência do estado.
A partir destes levantamentos poderemos, por analogia, aproximar algumas questões levantadas na clinica do testemunho, para fazer uma reflexão que aponte caminhos de intervenção em situações de violência doméstica sem cair na simplificação, na individualização e culpabilização das vitimas, mas também sem prejuízo do reconhecimento de responsabilidade subjetiva , e da formação de vontades e condutas autônomas. Servirão também para iniciar uma reflexão sobre o tipo de ambiente (entendido em sentido amplo e ecológico) ou dispositivo facilitador da retirada da violência do âmbito privado, sua publicização e vizibilização, sua operatividade e suas insuficiências assim como as condições de sua montagem.




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* Mesquita
Centro de Psiquiatria do Estado do Rio de Janeiro - CPRJ. Rio de Janeiro, Brasil

* Rolo
Centro de Psiquiatria do Estado do Rio de Janeiro - CPRJ. Rio de Janeiro, Brasil