Na apresentação aqui proposta, tenho o objetivo de abordar as contribuições que o conceito de ‘desigualdade’ trouxe e continua trazendo para o pensamento crítico nas Relações Internacionais. Em um primeiro momento, isso exige tecer algumas breves considerações acerca de características centrais à ortodoxia teórica da disciplina. Tal ortodoxia, composta especialmente na academia anglo-saxônica, é formada por abordagens (neo) realistas e (neo) liberais que, de maneira geral, compartilham os seguintes elementos: centralidade do Estado (visto de maneira monolítica, como dotado de uma ‘razão’ própria independentemente de suas formações políticas e sociais domésticas) e das relações interestatais em um sistema anárquico, onde considera-se que essas relações ocorrem de maneira não-hierárquica, principalmente devido ao princípio de igualdade soberana, equitativamente aplicado a todos os Estados, a despeito de suas distinções de poder político, econômico e militar.
Assim, esse tipo de abordagem prevaleceu nos estudos da disciplina de Relações Internacionais desde sua fundação, em 1919, até meados da década de 1960, com a consolidação da ordem mundial pós-Segunda Guerra Mundial e início das ‘ondas de descolonização’ em países africanos e asiáticos. A multiplicação de Estados no cenário internacional, em sua maioria países pobres do Sul Global, em nítida condição de disparidade política, social e econômica com relação às grandes potências do Norte, levou à inclusão do tema da ‘desigualdade’ nas preocupações das Relações Internacionais. Identifico aqui o surgimento de uma ‘primeira onda’ de produção acadêmica na disciplina centrada nessa questão, e argumento que nesse momento, priorizaram a questão da ‘desigualdade internacional’, isto é, a desigualdade entre os Estados no sistema internacional.
Para tratar das abordagens dessa ‘primeira onda’, retomo o pensamento de autores tanto das próprias Relações Internacionais quanto de áreas afins – como a Economia e a Economia Política Internacional –, tais como Robert Tucker, Stephen Krasner, Jack Donnelly, Theotonio dos Santos, André Gunder Frank e Kwame N’Krumah. Com base na avaliação de suas contribuições, argumento que tanto as abordagens realistas quanto as liberais e marxistas ao tema da ‘desigualdade internacional’ compartilham de um forte questionamento às noções ortodoxas de Relações Internacionais, descentrando a noção equivocada de ‘igualdade soberana’ e destacando dinâmicas e processos de ‘desigualdades soberanas’ e ‘hierarquias na anarquia’. Sendo assim, representam um primeiro ímpeto de análises críticas tanto a partir das Relações Internacionais quanto à própria disciplina.
Tais abordagens, porém, reforçaram alguns outros elementos centrais à ortodoxia das Relações Internacionais, como a centralidade do Estado-Nação moderno nas análises realizadas. Buscando ir além dessa ‘limitação’, uma série de abordagens – especialmente no campo da economia internacional – surgiram enfatizando o tema das ‘desigualdades globais’. Assim, nessa que aqui chamo de ‘segunda onda’ de abordagens das RI à questão da ‘desigualdade’, busca-se analisar não exatamente a desigualdade entre Estados, mas sim entre grupos e classes da população mundial. Analisando as contribuições de autores como Amartya Sen, Thomas Pogge, Charles Beitz, François Bourguignon e Branko Milanovic, veremos que tal tipo de concepção abre margens para diversas formas de ‘medir’ as desigualdades globais, e distintas prescrições de ‘solução’ para essas desigualdades.
Argumento que, apesar do papel importante em promover um pensamento crítico nas Relações Internacionais que vá para além do marco do Estado-Nação moderno, essas formulações acabam propondo resultados meramente ‘paliativos’, que reforçam e reificam uma economia mundial capitalista e, muitas vezes, retornam acriticamente ao Estado como plataforma para implementar ‘soluções’ às desigualdades globais, ignorando a relação intrínseca entre o Estado-Nação e o sistema capitalista, e como essa relação inerentemente produz muitas dessas desigualdades. Ademais, defendo que as formas de ‘mensuração’ e ‘categorização’ dessas abordagens às desigualdades globais são acentuadamente genéricas, contendo em si a invisibilização e marginalização de diversos tipos de desigualdade, como as de gênero, raça e etnia.
A partir daí, passo para o que chamo de ‘terceira onda’ de abordagens à ‘desigualdade’ nas Relações Internacionais e áreas afins, uma centrada no complexo ‘desigualdade/diferença’. Tratam-se de abordagens que questionam o Estado-Nação, o sistema ‘internacional’ e o pensamento acadêmico ortodoxo sobre a política mundial de maneira geral, enfatizando como essas categorias são compostas por uma determinadas noções de ‘identidade’ e ‘normalidade’, noções que excluem a ‘alteridade’ e ‘diferença’ – todos os ‘Outros’ que não são considerados como parte da normalidade do ‘Self’ – e, portanto, reifica uma série de desigualdades. Nesse sentido, tem especial relevância abordagens críticas de cunho feminista, racial, pós-colonial e decolonial.
Refletindo acerca das contribuições de autores como Carole Pateman, Cynthia Enloe, Charles Mills, W.E.B. Du Bois, Sankaran Krishna, Naeem Inayatullah e David Blaney, Arturo Escobar, Rob Walker, Tanja Aalberts, Aníbal Quijano, Walter Mignolo e Ochy Pichardo, pretendo demonstrar como tais abordagens promovem um descentramento tanto do Estado-Nação quanto do ‘internacional/global’ como categoria, evidenciando que ambos são parte de um sistema de dominação capitalista, racista, etno(euro)cêntrico e patriarcal. Argumento que, ao lançar luz às dimensões de exclusão, invisibilização, extermínio e tentativas de assimilação/normalização da ‘alteridade’ racial, de gênero, sexual, cultural e étnica – das mulheres, negros, povos indígenas etc. – as abordagens de ‘terceira onda’, do complexo ‘desigualdade/diferença’, abrem margens para uma crítica radical nas e às Relações Internacionais e, em última instância, às próprias raízes do pensamento político moderno. Concluo com algumas considerações e convite ao debate conjunto a respeito das possibilidades de resistência, luta política e construção de alternativas potencializadas por esse tipo de reflexão.