Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
O impacto dos processos de racialização sobre as práticas de maternidade de mães imigrantes: aspectos inclusionários e exclusionários

*Claudio Marcelo Garcia De Araujo



O impacto dos processos de racialização sobre as práticas de maternidade de mães imigrantes: aspectos inclusionários e exclusionários

Autor: Claudio Marcelo Garcia de Araujo (estudante de doutorado - departamento de Estudos Urbanos e Regionais - Instituto de Ciências Sociais - Universidade Humboldt de Berlim)

Resumo

Examinamos as práticas de maternidade envolvendo o acesso à saúde e educação para seus filhos no contexto migratório, avaliando em que medida processos de racialização afetam a capacidade de mães imigrantes em conseguir transmitir ou incrementar o capital social de seus filhos. Numa perspectiva interseccional, analisa-se a inter-relação entre o impacto dos processos de racialização sobre as práticas de maternidade e as posições sociais, local de residência (bairro) e identidade racial/étnica dos atores pesquisados. A discussão teórica aqui apresentada serve de fundamento para um estudo de caso de mães brasileiras residentes na cidade de Berlim, Alemanha.
Investigamos as práticas urbanas como de fato constituintes dinâmicas da cidade que compõem uma infraestrutura urbana social (Simone, 2004: 410). A compreensão da infraestrutura social enquanto práticas, encontros fluidos e compromissos duradouros possibilita uma explanação da desigualdade urbana para além de uma análise estrutural e que, ao mesmo tempo, não imputa a responsabilidade sobre algum grupo social em particular (Blokland 2012). As práticas por meio das quais as pessoas criam e asseguram recursos urbanos, acabam, nesse processo, marginalizando outras pessoas, por meio da reprodução de posições e localizações. Olhando por esse viés, é possível perceber a conexão entre a vida cotidiana e as desigualdades duradouras dentro da cidade e, mais especificamente, entre práticas de maternidade e desigualdade.
A noção de práticas que compõe uma infraestrutura social segue uma perspectiva Bourdieusiana de sociologia da prática, na qual estruturas, disposições estruturantes e habitus são construídos por meio de práticas e são dirigidos à funções práticas (Bourdieu 1994). Ao focar nas práticas, evita-se a essencialização dos indivíduos e, permite ver nelas, e não nas intenções dos praticantes, a criação de locais ricos em recursos para alguns, enquanto marginalizando outros e limitando o escopo de suas práticas. A marginalização ocorre quando o acesso aos recursos é impedida por meio da prática de outros. (Savage, Warde and Devine 2005), podendo ser definida como os processos por meio dos quais setores específicos da população urbana são afastados de cenários ricos em recursos, pois os mecanismo e as formas de capital necessárias para fazê-lo funcionar a seu favor estão deixando-os de fora de seu acesso (Tilly 2001).
O termo prática de maternidade aqui utilizado não se refere aos estilos de maternidade ou à avaliação da eficácia de diferentes práticas em relação ao desenvolvimento infantil da criança, mas como constituintes das práticas urbanas que compõem a infraestrutura social local. Práticas de maternidade compreendem, mais especificamente, às estratégias que as mães adotam para transmitir ou incrementar o capital social de seus filhos, especialmente por meio da mobilização de suas redes sociais e da infraestrutura social de que dispõem em seu local de residência. A investigação das práticas de maternidade constitui um importante recurso para a compreensão das desigualdades duradouras urbanas. As práticas de maternidade são intrínsecas à reprodução social de maneira geral e, mais especificamente, à reprodução de processos de marginalização, uma vez que práticas que visam garantir o acesso a recursos frequentemente apresentam aspectos inclusionários a determinados grupos e exclusionários a outros.
As capacidades de mobilização de redes sociais durante o processo migratório, notadamente por meio dos meios de comunicação, afetam profundamente as possibilidades de acesso aos recursos da cidade e de superação dos obstáculos comuns vivenciados enquanto imigrante (Massey & Espinosa 1997; Portes 1995; Tilly 1990; Boyd 1989; Massey et. al. 1987; Dekker e Engbersen 2014; Diminescu 2008; Komito 2011; Madianou e Miller 2013). Em nossos estudos exploratórios, pudemos perceber as dificuldades de mães imigrantes em conseguir acesso a determinados recursos da cidade devido ao acesso reduzido a uma rede de apoio, geralmente com recursos limitados, quando comparadas às redes disponíveis no país de origem. Revisitamos a discussão sobre mobilização de redes migratórias ao inseri-la na perspectiva de uma infraestrutura social, na qual reavaliamos a noção de laços fortes e fracos advindos das análises de redes sociais, preferindo os termos compromisso duradouro e encontros fluidos, pois expressam ideias diferentes. Compromissos duradouros classificam quaisquer associações que durem mais de um momento, como membros de um clube, mesmo que estes não conversem entre si. Já os encontros fluidos diferenciam-se especialmente pelas diferentes expectativas de comportamento social de um encontro casual com um encontro com um conhecido da igreja, por exemplo (Blokland e Nast 2014). Exploramos como mães imigrantes obtém acesso a recursos por interações não facilmente capturadas por estudos de redes sociais, notadamente compromissos duradouros e encontros fluidos na creche ou escola, áreas de lazer infantil, consultórios médicos e por meio de grupos de discussão na internet abordando temas sobre maternidade e imigração.
Os encontros fluidos, os compromissos duradouros e as práticas são parte de um contexto espacial, social e histórico, e o modo como alguém se situa nesse contexto irá afetar a maneira como esta percebe seu direito à cidade enquanto o direito proteger ou elevar seu acesso a determinados recursos. Este cálculo racional, no entanto, é uma escolha que prevalece sobre outras com o apoio de orientações morais sobre merecimento, direitos e pertencimento, permitindo delinear fronteiras entre o bem e o mal e legitimar determinadas inclusões e exclusões (Small, Harding and Lamont 2010). A delimitação de fronteiras afetam as possíveis associações entre mães e outros potenciais mediadores de acesso aos recursos de interesse, bem como a forma como se interagem e trocam informações.
Dentre as diversas dificuldades enfrentadas por imigrantes, investigamos como processos de racialização afetam as práticas de maternidade de mães imigrantes. Refere-se aqui à racialização enquanto processos dinâmicos por meio dos quais quaisquer características pessoais venham a ser essencializadas ou naturalizadas, nas quais categorias fluidas de diferença são fixadas como forma de alteridade (Miles 1989; Omi & Winant 1994). As hierarquias e paradigmas raciais flutuam com o tempo, onde até mesmo a categoria branquitude foi se modificando ainda no século XX (Barrett & Roediger 1997) e quadros de violência de xenofobia vão se alternando. Houve uma mudança discurso na Europa ocidental, por exemplo, no qual o paradigma racista fundado puramente na biologia deu lugar a uma pressuposição de diferença cultural como uma base fixa para a identidade e o senso de pertencimento (Gilroy 1987, Grillo 2003). Os imigrantes são racializados tanto em termos de diferenças culturais invioláveis como em razão de uma suposta relação íntima com a mobilidade, pouco importando as particularidades individuais, que são apagadas pela percepção estruturante da alteridade imigrante e pela construção discursiva dessas diferenças como um problema nacional (Silverstein 2005).
Dessa forma, buscamos compreender de que maneira mães imigrantes lidam com experiências de racialização, especialmente quando estas implicam na redução do acesso a determinados recursos para a criação de seus filhos. Mais especificamente, buscamos compreender a relação entre diferentes experiências de racialização, posição social e identidade racial/étnica de mães imigrantes, bem como as diferentes estratégias utilizadas para contornar ou mitigar os efeitos exclusionários intrínsecos a estes processos. Finalmente, investigamos de que maneira processos de racialização entre mães imigrantes de mesma nacionalidade contribuem para a emergência de práticas inclusionárias e exclusionárias entre elas.




......................

* Garcia De Araujo
Universidade Humboldt de Berlin HU. Berlin, Alemania