Objetivos
O presente trabalho tem como objetivo analisar as práticas e estratégias dos vendedores ambulantes no sistema BRT MOVE de Belo Horizonte, com a intenção de traçar um panorama geral de caráter exploratório sobre as dinâmicas encontradas. Esses indivíduos exercem seu trabalho cotidiano em constante movimento, anunciando seus produtos nas idas e vindas dos ônibus e compondo o cenário no qual os demais passageiros se deslocam em seu dia a dia.
O BRT como sistema de transporte apresenta diversas vantagens para o exercício dessa atividade, como a cobrança de tarifa única para circular dentro do sistema por tempo indeterminado, grande fluxo de passageiros concentrados em um mesmo corredor, e disponibilidade de diferentes linhas com intervalos curtos de espera. Dessa forma, pretende-se investigar como se produz a prática cotidiana desse comércio nas ocasiões de venda dentro dos ônibus do sistema BRT MOVE de Belo Horizonte.
Metodologia
A noção de ocasião social de Goffman (2010) foi utilizada para delimitar a unidade de análise como a ação da venda no ônibus. As ocasiões que acontecem em lugares públicos tem como princípio o encontro entre desconhecidos e o compartilhamento de cenários, que não possuem divisões claras entre palco e bastidores. A partir desse recorte, uma ficha de observação foi construída para ser o instrumento de análise, e sua elaboração foi anterior ao trabalho de campo. A escolha da observação se justifica pelo caráter exploratório da pesquisa, e por limitações institucionais referentes ao contato direto com os vendedores.
A ficha foi dividida em dimensões de observação. A primeira abrange os dados operacionais, que inclui anotações sobre a linha, dia, hora, densidade de passageiros no veículo, sentido e corredor. A segunda dimensão se refere à descrição do vendedor observado, e incorpora as categorias sexo, idade, vestimenta, acessórios, produtos, equipamentos de locomoção, equipamentos de venda e se o vendedor se vincula a alguma instituição ou não. A terceira dimensão se refere às estações onde foram observados vendedores saindo ou entrando nos ônibus, aos horários das entradas e saídas, as portas utilizadas nesses dois momentos, e o tempo de permanência dos vendedores nos ônibus. A quarta dimensão aborda as estratégias que os vendedores utilizam dentro dos ônibus com a finalidade de vender seus produtos. Essa dimensão envolve as estratégias corporais, verbais, visuais, e espaciais.
As observações foram realizadas nos três turnos (manhã, tarde e noite) em dias de semana (úteis) e finais de semana. No total, foram aproximadamente 40 horas de observação em toda a extensão do sistema. Porém, nem todas as observações resultaram em fichas completas, pois nem sempre os vendedores ambulantes eram encontrados. Além disso, as fichas foram preenchidas oralmente através de gravação de áudio por celular, e depois foram transcritas e organizadas para a análise.
Problema, hipóteses e principais resultados
A normatividade do sistema BRT implica em um padrão de funcionamento que conserva características comuns nos diversos lugares onde é implantado. As atividades de comércio ambulante sempre estiveram presentes nas dinâmicas urbanas de Belo Horizonte, e também podem ser encontradas dentro desse sistema de transporte, que foi inaugurado em 2014 na capital mineira. Após um ano dessa implantação, surge o primeiro marco regulatório que aborda exclusivamente o exercício de atividades comerciais dentro dos sistemas de transporte, em específico nas áreas das estações BRT.
A portaria da BHTrans de número 141, de 31 de outubro de 2015, que regulamenta as atividades comerciais, promocionais e de serviços localizadas nas áreas das estações do sistema de transporte coletivo de Belo Horizonte, prevê a abertura de licitações para disponibilização de áreas de comércio fixo no sistema BRT. Porém, essa regulação não incorpora as atividades de venda realizadas em movimento, dentro dos ônibus. Dessa forma, pretende-se compreender: Como se produz a prática cotidiana desse comércio ambulante nas ocasiões de venda dentro dos ônibus?
A hipótese principal que norteia o trabalho é a de que os vendedores são agentes ativos na construção do lugar onde atuam, e desempenham diferentes estratégias em suas trajetórias no interior dos ônibus e das estações. A fixidez e o ordenamento de fluxo das estruturas do sistema de transporte BRT, e dos marcos regulatórios governamentais, não impedem que esses indivíduos tenham autonomia sobre onde vão andar ou tecer suas trajetórias de venda, ou sobre quais fragmentos da estrutura irão selecionar para suas atividades (CERTEAU, 1996).
Como resultados principais observou-se que os fluxos mais intensos de vendedores estão localizados próximos às extremidades dos corredores, e também próximos às estações que apresentam grande quantidade de passageiros. Os vendedores observados circulam mais pelas estações de maior circulação de pessoas, e a área central da cidade é de grande importância para as movimentações de venda dentro do sistema. Além disso, a composição dos equipamentos expressivos é de fundamental importância para os discursos de venda. Em relação ao perfil dos vendedores foram observados muito mais homens que mulheres, e essa diferenciação de sexos refletia os discursos e estratégias utilizados. Os vendedores que representavam instituições possuíam padrões de movimentação, diálogo e de estratégias de venda diferentes dos demais vendedores. Foram também observadas diferentes formas de reinvindicação da atenção dos passageiros, de apresentação do produto a ser vendido, de uso do corpo, e de uso do cenário dos ônibus. Por fim, foi observada forte relação entre os tipos de produtos vendidos e os equipamentos utilizados para transportá-los nas ocasiões de venda.
Relevância dos resultados e principais conclusões
O presente trabalho permitiu traçar um panorama exploratório sobre as práticas dos vendedores ambulantes no BRT MOVE. Os agentes que realizam as vendas nos ônibus e nas estações do sistema possuem um grande conhecimento sobre as dinâmicas de mobilidade que atravessam esse lugar. Suas rotas evidenciam o caráter não aleatório de suas escolhas, frutos da aplicação de suas habilidades de mobilidade.
O comércio no interior dos ônibus não envolve apenas a troca de
produtos, que muitas vezes possuem papel secundário na interação, e se apresenta como
uma ocasião complexa de compartilhamento de valores, histórias de vida e crenças
religiosas. As mobilidades não estão presentes apenas nos deslocamentos dos vendedores, e englobam o movimento dos produtos, dos equipamentos, das ideias, dos discursos e das memórias. A ocasião de venda é atravessada por múltiplas mobilidades articuladas, que são reivindicadas pelos vendedores nas suas práticas diárias.