Com o intuito de contribuir com as análises sobre o atual momento político brasileiro, particularmente sobre a ruptura política ocorrida no governo federal no segundo semestre de 2016, objetiva-se com o presente trabalho argumentar que dentre os elementos basilares desse processo de ruptura política e de modelo econômico de desenvolvimento territorial a questão energética se mostra como um dos mais relevantes. Ainda de modo mais específico, busca-se discutir como o setor de petróleo e gás natural ganha ainda maior centralidade dentro da questão energética brasileira e das visões de economia política hegemônicas (neodesenvolvimentias e neoliberais) a partir das descobertas das grandes reservas do Pré-sal. Além desse reconhecimento empírico, a questão energética se apresenta como foco da análise sobre o atual momento político brasileiro também pelo entendimento de que a energia, enquanto recurso territorial, está no centro dos debates políticos e científico-acadêmico com relação aos modelos de desenvolvimento econômico e territorial. De igual modo, é possível dizer que uma longa bibliografia dá suporte à afirmação de que dentre as diversas formas de expressão concreta da energia, o petróleo (e conjuntamente o gás natural) certamente é o recurso que possui maior relevância em ambos os campos citados, polarizando praticamente todas as análises sobre esse tema, principalmente a partir da década 1970, com as conhecidas “crises do petróleo”. Apesar de nunca ter deixado de ser um tema central, procura-se defender que a questão energética, em especial o petróleo, tem sua centralidade reforçada no território brasileiro a partir de dois grandes conjuntos de eventos geográficos profundamente indissociáveis, porém, fortemente contraditórios. O primeiro, de ordem global, está relacionado às transformações geopolíticas em torno da questão energética e que aqui nomeamos de “transição energética”, a partir de um alargamento da carga semântica imputada atualmente a esse termo, indo além da noção de técnica de matriz energética ao agregar o espaço geográfico como elemento central da análise. Apesar de uma coerência interna, tais eventos participam de dois movimentos que são entre si contraditórios, sendo que o primeiro se dirige à busca de novas fontes energéticas, particularmente aquelas com baixos níveis de carbono; e o segundo, está relacionado às novas descobertas de reservas de petróleo e gás natural, seja aquelas localizadas em locais que exigem altos gastos e o uso de técnicas mais modernas de exploração, como é o caso do Pré-sal brasileiro, ou aquelas chamadas reservas não-convencionais, tendo como principal exemplo shale gas explorado nos Estados Unidos. O segundo conjunto de eventos aqui elencados, por sua vez, está mais diretamente relacionado à formação socioespacial brasileira. Esse possui como principais marcos a descoberta e início da exploração dos grandes reservatórios do Pré-sal, assim como o estabelecimento de um novo regime exploratório para essa área e, por fim, a instauração de um novo governo federal erigido de um processo de ruptura no Poder, que tomamos aqui como um Golpe de Estado. Tal como o primeiro conjunto de eventos, esse também é marcado por dois movimentos, sendo o primeiro a tentativa de se interiorizar o controle sobre os recursos energéticos (próprio do modelo estruturalista de desenvolvimento econômico de origem cepalina), e o segundo a busca por uma competitividade internacional com base na abundância desses recursos (mais próximo das leituras neoliberais), em especial o petróleo do Pré-sal. Com isso, argumenta-se que a questão energética, em especial do setor de petróleo e gás natural após a descoberta do Pré-sal, e as rupturas políticas e de modelo de desenvolvimento só podem ser compreendidas na sua totalidade se analisadas a partir desses dois conjuntos de eventos. Pois entende-se aqui que enquanto o modelo neodesenvolvimentista toma os recursos do Pré-sal como uma singular abertura de possibilidade para o alavancamento de políticas públicas a partir das divisas deles provenientes; a visão neoliberal toma o contexto de transição energética para fontes de baixo carbono como argumento para a rápida exploração desses recursos, de forma mais rápida e competitiva. Tais visões antagônicas de política econômica e de modelo de desenvolvimento são disputadas desde as descobertas da formulação do marco regulatório da Partilha de Produção (elaborado após a descoberta do Pré-sal), no entanto, as disputas e contradições vão se aprofundando e acabam por eclodir precisamente no impedimento do segundo governo de Dilma Rousseff, em 2016. Isso fica patente não exatamente durante o processo jurídico-parlamentar, mas precisamente nas primeiras políticas implementadas pelo governo estabelecido por Michel Temer. Dentre as principais pode ser citado: mudança profunda do marco regulatório de Partilha da Produção a partir a retirada da Petrobras como operadora única do Pré-sal; as propostas de alteração dos níveis de conteúdo local para os equipamentos e serviços utilizados nas atividades de exploração e produção em águas ultraprofundas; drástico aprofundamento do processo de privatização da Petrobras, com base na política de desinvestimento guiada pelo novo presidente da empresa.