Os jornalistas têm sido protagonistas importantes da crise que afeta o Brasil desde 2013. Motivada pela forte desaceleração econômica que elevou o número de desempregados a 13 milhões – efeito tardio da crise financeira internacional de 2008 combinada a uma ampla sorte de equívocos em políticas governamentais –, a crise é também política e social. A mídia jornalística cumpriu papel relevante na formação da opinião pública favorável à deposição da presidente Dilma Rousseff no golpe parlamentar de 2016, estimulando a polarização política e a criação de coalizões nos grupos antilulistas. Ao endossar medidas judiciais controversas, apoiar manifestações antipetistas e corroborar decisões parlamentares claramente casuísticas, quando não francamente corruptas, a mídia jornalística foi decisiva para o impeachment e suas consequências sociopolíticas e econômicas.
Este artigo analisa as variações na autoidentificação ideológica dos jornalistas brasileiros entre 2012 e 2017, período marcado tanto pela crise quanto por transformações estruturais do ofício sobre a categoria, ambos os fatores intensificando demissões e precarização do trabalho no setor. O Brasil tinha em 2012 cerca de 145 mil jornalistas, dos quais em torno de 60 mil trabalhavam em mídias; os demais, ocupavam funções jornalísticas fora da mídia (em empresas, governos, organizações sociais ou no ensino), estavam desempregados ou trabalhavam fora da profissão (MICK; LIMA, 2013).
O objeto de análise são as respostas a um survey sobre trajetórias de jornalistas de 2012 a 2017, respondido neste último ano por 1.233 profissionais que, cinco anos antes, haviam participado de pesquisa de perfil da categoria. A equipe que realizou a enquete “Perfil do Jornalista Brasileiro” em 2012 obteve e-mails de 4.215 respondentes, os quais foram convidados para responder novo questionário, desta vez sobre suas trajetórias profissionais no período. A enquete obteve a participação de 29% dos convidados. O instrumento permite observar reconfigurações de carreira impostas pelo cenário de crise, levando em conta as variações sociodemográficas (de gênero, faixa etária, identidade étnica, escolaridade ou local de residência). A metodologia é semelhante à adotada por Beam, Weaver e Brownlee (2009), embora as questões tenham outros temas e objetivos.
Desse conjunto, são descritas e analisadas comparativamente as respostas de 517 jornalistas que atuavam em mídia em 2012, especificamente nas questões relativas a avaliações políticas e à autoidentificação ideológica.
Os dados indicam fortes variações na autoidentificação. Os grupos que se identificam à direita (centro-direita, direita e extrema-direita) e ao centro continuaram com a mesma configuração, mas o bloco que recusava qualquer classificação nessa escala perdeu nove pontos e a autodefinição à esquerda (centro-esquerda, esquerda e extrema esquerda) subiu oito pontos. Em 2012, antes dos protestos de junho do ano seguinte que constituem o marco inicial da crise, o país crescia, a pobreza era gradualmente mitigada, a situação era de pleno emprego, o governo tinha quase 70% de aprovação; numa circunstância assim, recusar classificação ideológica era tão charmoso quanto inócuo.
O resultado é interpretado à luz da bibliografia que discute as relações entre a mídia e o processo de polarização ideológica no Brasil (Azevedo, 2016; Borges, 2018; Singer, 2017; Goldstein, 2015; Lattman-Weltman; Chagas, 2016; 2017). Argumenta-se que, cindidos por uma estrutura profissional dual que condiciona o que podem dizer e o alcance do que dizem, os jornalistas de fato atuaram como protagonistas do golpe parlamentar de 2016, mas em diferentes níveis de responsabilidade. Na elite da profissão, um grupo majoritariamente formado por jornalistas autoidentificados ao centro ou à direita propagandeou a defesa do impeachment. Pequeno grupo no interior da elite profissional resistiu à avalanche do antilulismo, guardando distância crítica em relação ao impeachment e às ações do poder judiciário – mas esse grupo, nesse momento, estava como os antilulistas haviam estado entre 2005 e 2014, em posição contrária ao movimento da opinião pública. Fora da elite profissional, a maior parte da categoria teve pouca voz no processo de impeachment e sofreu com maior intensidade os efeitos da crise. Nesse grupo, deu-se a migração de posições de neutralidade para a esquerda.