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Resumen de ponencia
A COCAÍNA E O ÓPIO NA REVISTA VIDA POLICIAL

*Elena Camargo Shizuno



A COCAÍNA E O ÓPIO NA REVISTA VIDA POLICIAL
O objetivo desse trabalho é possibilitar adensar a reflexão sobre o papel e resultado analítico das pesquisas sobre determinadas substâncias psicoativas realizadas a partir de fontes criminais, policiais, midiáticas, literárias, entre outras. O que vem ampliando as pesquisas na área de discussão do tema, cujas interfaces com o mundo do crime, da polícia, do sistema de justiça criminal, do judiciário, das prisões, entre outros lugares de investigação, possibilitam compreender os fluxos, as capilaridades entre os diferentes campos de transversalidade do que socialmente condicionamos, historicamente a chamar, das drogas ilícitas.
Portanto, partir desse referencial, analisamos na revista carioca Vida Policial (1925-1928), nos diversos editoriais e matérias, os seus principais temas de combate a saber. Nesse momento os chamados casos de polícia que figuraram como exemplares para a defesa social: o jogo do bicho, a prostituição, o caftismo, a cocaína e o álcool. Em especial em relação à cocaína, produto na época importante na publicação devido à recente criminalização do tráfico, do criminoso "vendedor de tóxicos" e do incremento do consumo ilegal. Intitulado "pó da illusão", foi consumido em todas as classes sociais, porém destacaremos a questão do tráfico e das representações sobre o tema.
A revista Vida Policial destacou-se como umas das primeiras do gênero na época. Esta mídia foi criada por figuras da elite carioca, pertencentes ao aparato do Estado, e ligadas ao Sistema de Justiça Criminal, o advogado Waldemar Pereira de Figueiredo e pelo capitão da Polícia Militar, Raul Ribeiro, que a direcionaram a um público alfabetizado que se interessava pelas temáticas, seja por sua participação em esferas ligadas ao controle social ou porquê constituem neste novo público ávido pelo sensacionalismo.
Nesse momento havia no Brasil, em especial no Rio de Janeiro, o consumo e o vício, e ao mesmo tempo, o combate ao tráfico e suas implicações com as ações policiais. Nas páginas da revista insinuou-se haver a tolerância ao comércio de cocaína cujo controle estava nas mãos de bicheiros, na cidade do Rio de Janeiro. Esse momento parece ser interessante para perceber quais foram os meios e formas utilizados para lidar com o comércio da cocaína, e do ópio, bem como suas relações com os usuários, ou mais precisamente uma representação típica do consumidor que no caso a revista, instala nos meios de comunicação nacionais.
Com evidências bem assinaladas por diversos autores a cocaína e o ópio, entre outras drogas proibidas, foram associadas a grupos étnico-raciais excluídos no processo de sua criminalização num processo que se instaura a partir dos projetos imperialistas e coloniais nos séculos XIX e XX.
Entretanto, inicialmente, gostaríamos de pontuar a questão da ameaça que representava a presença estrangeira no país. Estes grupos passam por processos de criminalização, principalmente aqueles advindos de países onde seus nacionais eram estigmatizados – seja por questões étnico-raciais, religiosas ou de cunho político. Estas comunidades partilhavam de descritivos mentais e psicológicos negativos, ligados à perversidade, e ao mal nato, por exemplo.
Em específico, analisamos algumas das matérias sobre cocaína e ópio publicadas nesta revista, bem como buscamos compreender quais eram as formas de representação do mundo social construídas sobre a forma de criminalização e a tipificação dos criminosos presentes nesss narrativas. Sobre a cocaína havia o destaque na revista para as matérias policiais onde somente o traficante e o consumidor da ralé eram a pauta, também, descritos e publicadas as suas fotos. Nos textos o discurso era o da criminalização ou/e juntos o da medicalização.
Em relação à cocaína, a publicação de fotografias de traficantes fazia-se presente nas publicações, o chamado “vendedor de tóxicos”, do “pó illusão” vendido em todas as classes da sociedade, que cotidianamente era preso. No decorrer das publicações as matérias denunciaram inclusive o tráfico e suas espúrias ligações com outras instituições ou grupos, como o jogo do bicho, os dancings, a polícia e o judiciário.
Nesse momento o tráfico de cocaína e ópio já mobilizavam as polícias da cidade do Rio de Janeiro e São Paulo. Apreensões de vários tipos foram realizadas e noticiadas na revista. A relação entre a moral e os bons costumes, o uso, os usuários e sua tipologia e as apreensões perfaziam um rol de textos que condensavam em si associações possíveis e que representavam a sociedade do mundo do crime com os mundos da prostituição, das casas de festas, dos usos citado como paradoxal entre as altas classes e a marginalia.
Nesse sentido apostava-se em uma guerra de morte aos typos repugnantes, que disseminam as escondidas, sem despertarem atenção das autoridades, e por tal motivo mesmo, se alastram rápida e silenciosamente. (23/03/1925, p. 17-18. N.11.) Outras matérias versam sobre a associação entre a utilização de cocaína entre prostitutas e outras mulheres que frequentavam os chamados dancings, locais por excelência de outras práticas moralmente condenadas, seja pela indumentária utilizada, pela relação íntima que estabelecia entre os corpos e o uso de múltiplas drogas, do álcool ou da cocaína. Ao mesmo tempo redigiam textos condenatórios a uma problemática muito intensa no período chamada de escravatura branca de mulheres. Alusão a prostituição de estrangeiras brancas, mas bem como as mulheres negras, também citada como do baixo meretrício, sem distinção social.
Nos chamados “antros da cocaína” a substância era chamada de veneno, toxico, vicio da moda, tóxico maldito, pó da ilusão, le divine coco, demônio, ligada a morte e desgraça, poeira da loucura. Taxativos da referência maléfica e danosa ao corpo e alma, mas também da ambiguidade de um mundo de diversão e de mulheres de má reputação.
Nesse momento, a polícia já estava no encalço de comerciantes de cocaína nas principais cidades do país, São Paulo e Rio de Janeiro. Investigações baseadas em denúncias de vendas ilícitas, e apreensões de quantidades variáveis. As reportagens basicamente expõem a foto do acusado, se preso, a quantidade apreendida, local, nome completo e apelido do acusado, nome dos policiais ou do principal encarregado da apreensão, nome da delegacia, foto com o material apreendido. Uma noção de vício e os usos de nomes ou gírias a que se referiam no período parece ter sido utilizada tanto em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Entre as diversas matérias publicadas sobre ópio destacamos as que versavam sobre a sua história, geopolítica, o comércio, o uso e o usuário da droga, cuja ênfase foi a construção de um entrelaçamento de questões deterministas raciais, geográficas, do contexto imperialista de possibilidade uma intencionalidade de envenenamento dos indivíduos de outros lugares fora da China por meio do consumo do tóxico. Intituladas: Os bairros mysteriosos de Pekin: o mysterio do ópio, da delinquência, O opio --- a velha lenda do becco dos Ferreiros, Os vendedores da poeira da loucura. A ação da polícia contra a venda do toxico que, como o ópio asiático degrada a nossa raça, Opio e cocaína: os venenos da morte e da “ilusão”. Ação da policia, O opio. Valor, acção, extração e histórico do maior flagelo da humanidade, A mendicidade: indústria rentosa na China e no oriente.
O descritivo ambíguo de um bairro em uma cidade na China, Pekin, local onde os mistérios do ópio são ‘desvendados” ao leitor. Questão central para expor o vício, a exploração e a delinquência diretamente interligados com fatos que tornaram os chineses reconhecidos de tempos imemoriais. Retratos da tragédia da vida, de um cemitério, do jogo, do abismo, paraíso artificial, absurdo idílico, por onde se passa da sala de jogo, à do ópio. Destaque para o cenário da “casa de antiguidades” com detalhes da religião e arte supostamente típicos, que é o disfarce para a casa de ópio, construída como um lugar exótico, das peças que o compõem, aos personagens, das mulheres que servem chá e preparam os cachimbos, dos ricos chineses “cercados de jovens elegantes e formosas, mas de apparencia triste e fadigada”. (Vida Policial, 22/08/25)
Por outro lado, em outra matéria intitulada O opio, a velha lenda do beco dos Ferreiros: esplendor e miseria do fumo encantado a ideia foi desmentir o uso e venda da droga fora do grupo de chineses moradores do lugar, localizado na cidade do Rio de Janeiro. O referido grupo é considerado pobre, composto de chineses pescadores, também fabricantes de doces de amendoim entre outros objetos e adornos. O tom usado na narrativa foi o da utilização de uma fantasia carioca, exagerada, porém, de com caracterização dos moradores como miseráveis e propensos ao vicio, bem como os mistérios insondáveis de suas mentes (Vida Policial, 03/10/1925). Entretanto, a capa do número da revista que publicou essa matéria foi chamativa, usou do sensacionalismo, do encantamento da casa de ópio.
Os chineses, porém, foram considerados ausentes de compaixão por não alicerçar os mendigos de seu país, aliás viciados em grande parte, e explora-los em uma chamada indústria rendosa em todo o Oriente (Vida Policial, 20/03/1926). Assim toda uma série de representações aparecem nas matérias específicas sobre essa temática, seja na literatura.
Portanto, a medicalização e a patologização do social transformou o papel de alguns tipos sociais em delinquentes e marginais. O mundo do crime e dos criminosos foi, assim, analisado a partir de suas inter-relações com os novos  e modernos, na época  modelos explicativos do social, que tinham como viés teórico a criminologia e a antropologia criminal, de base positivista, que influenciaram o pensamento e a prática de controle social no Brasil, área fundada também pela psiquiatria, sociologia e estatística, pelo serviço de identificação, os exames periciais e a antropometria.




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* Shizuno
Universidade Tecnológica Federal do Paraná UTFPR. Curitiba, Brasil