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Resumen de ponencia
A trajetória da Teoria Crítica da Raça: história, conceitos e reflexões para pensar o Brasil

*Gianmarco Loures Ferreira



O artigo aborda a formação do campo científico da Teoria Crítica da Raça - TCR, discutindo sua origem, em uma dupla perspectiva, sua trajetória ideológica e social. A seguir, passa-se a detalhar seus temas centrais, com o objetivo de identificar suas proximidades com o referencial teórico brasileiro sobre relações raciais e o possível uso das metodologias e conceitos propostos no contexto nacional. Este trabalho conclui abordando duas possibilidades: a de expansão do uso da TCR para pensar a realidade brasileira, de forma a contribuir para uma análise aprofundada do racismo; e a de reconstrução de uma genealogia mais ampla de uma teoria crítica da raça dentro das ciências jurídicas tendo em vista as contribuições de intelectuais brasileiros.
Os autores a serem trabalhados nas conclusões de seus artigos convidam seus leitores e leitoras a buscar ampliar o projeto original da TCR, adotando uma perspectiva interdisciplinar e engajada, visando à mudança da realidade social, principalmente em seu aspecto do humano, para além do indivíduo racializado.
Para que tal objetivo tenha um mínimo de plausibilidade, é necessário compreender como se formou o campo, quais seus fundamentos teóricos e quais as estruturas institucionais envolvidas em seu desenvolvimento. Essa a razão do artigo proceder ao resgate da origem da TCR, buscando apresentá-lo como um movimento que não se resumiu ao saber acadêmico, meramente analítico e estanque. As duas trajetórias trabalhadas, ideológica e social, dão mostras da forma dinâmica e de efeitos concretos da aplicação de seus princípios, ao resgatar as narrativas daquelas pessoas até então objeto de estudo e incorporá-las na produção científica, por meio de contra-narrativas ao pensamento dominante, reprodutor das hierarquias e manutenção da superioridade racial, além dos desafios em enfrentar as estruturas formais de reprodução da supremacia branca, em ambientes supostamente neutros ou progressivamente liberais.
A partir desse entendimento inicial, é que passam a fazer um maior sentido as próprias premissas em que se fundou a TCR e as temáticas objeto de investigação em torno do problema da desigualdade racial e de mecanismos para sua possível superação.
Ainda que formulada e desenvolvida em outro contexto, procurou-se estabelecer aproximações entre a realidade estadunidense e brasileira, tendo como foco a hierarquização racial e o supremacismo branco. Buscou-se, assim, identificar os desafios ao enfrentamento do racismo no Brasil com a possibilidade de aplicação teorética das temáticas desenvolvidas pela TCR, sobretudo como enfrentamento à cegueira racial, com a qual nós brasileiros estamos historicamente acostumados e que se tornou tema constante da arena política estadunidense nos últimos anos.
O que é necessário - e possível, portanto - é não se fazer a mera importação de um modelo, mas, sim, o aporte adaptado e útil para se pensar na realidade nacional. Daí que à medida que o mito da “democracia racial”, embora desgastado, ainda se apresenta frequentemente como eixo de tração dos discursos raciais, a ampla discussão pelos críticos raciais sobre “a cegueira da cor” e o pós-racialismo, na sociedade norte-americana, continuam de grande utilidade para o enfrentamento do racismo no Brasil, em que a transcendência da raça atua como um obstáculo na conquista da efetiva igualdade.
O estudo apresentou, por fim, alguns exemplos de estudos de questões raciais, em que se aplicou preceitos da TCR aos problemas brasileiros, buscando demonstrar a plasticidade dessa corrente de pensamento crítico. Quando se pensa como o racismo atua criando e reproduzindo a injustiça social, é possível perceber uma dimensão global dessa problemática, que não se limita a fronteiras de países “do Sul”. É, ainda, a translocalidade, em que o trânsito não é somente de pessoas, mas também de teorias, que possibilita novos insights para se refletir sobre poder e construção de hierarquias raciais. Ademais, apontou-se para a possibilidade de uma reconstrução da genealogia de teorias críticas da raça no direito a partir de outras temporalidades e espacialidades, rompendo com a lógica Norte-Sul ou centrada em determinadas realidades nacionais.
Evitando-se a cilada do pensamento binário e do excepcionalismo sobre questões raciais e mantendo uma postura intelectual atenta a TCR se apresenta como instrumento valioso para a análise das relações raciais no Brasil de forma bastante promissora.




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* Loures Ferreira
Universidade de Brasília UnB. Brasília, Brasil