Em fevereiro de 2015 completaram-se 70 anos do falecimento de Mário de Andrade (1893-1945), o grande poeta, romancista e polígrafo brasileiro, introdutor - junto com outros artistas e intelectuais - do movimento modernista em nosso país. A efeméride permitiu verificar, a partir das homenagens realizadas, como a notoriedade e importância do autor de "Pauliceia Desvairada" (poemas) e "Macunaíma" (romance) se mantêm em alta, e diria até em movimento ascendente, dentro e fora do ambiente acadêmico.
Mais do que líder de movimento, Mário de Andrade pode ser entendido e estudado a partir da posição central que ocupou na produção do modernismo brasileiro. Um epicentro tanto nos termos da vastidão de temas e áreas culturais em que o poeta se empenhou para estabelecer sua obra artística e intelectual, suplantando os demais modernistas, como também um epicentro no aspecto das relações estabelecidas que surtiram tensões e interdependências variadas – e ambos os casos contribuíram para realçar a influência do poeta e consolidar seu nome para a posteridade.
Uma das razões para esse reconhecimento duradouro diz respeito, de um lado, à constante retomada avaliativa da obra mariodeandradiana, feita tematicamente por inúmeros pesquisadores das ciências humanas, e, de outro, por divulgadores com propensão a ampliar o conhecimento sobre a vida e as principais realizações do poeta, a exemplo de enfoques mais abrangentes do conjunto da obra, disseminados por jornalistas e mesmo por professores acadêmicos. Mário de Andrade vem se mantendo, assim, como um referente destacado em termos de inspiração para artistas, pesquisadores e propositores culturais da arena política no Brasil do século XXI.
Tornar-se referência epicêntrica, no entanto, pode ocasionar um tipo de esquecimento social. O problema que se divisa concerne à naturalização da obra e ação mariodeandradianas, ao modo de um esquema substancialista, de uma canonização que desistoriciza e desrealiza caso se deixe de considerar a própria ação do poeta na guarda de materiais que permitissem "contar a própria história" sob um viés crítico e metodologicamente orientado.
O cuidado com a preservação da memória relativa a Mário de Andrade é o foco deste estudo. Pretende-se discutir o modo pelo qual ocorreu a incorporação do arquivo pessoal de Mário de Andrade ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo, ao final da década de 1960, a partir das ações de Antonio Candido, o renomado sociólogo, crítico e ensaísta brasileiro, à época professor de literatura brasileira na mesma universidade, e que foi o responsável por articular essa incorporação, a qual tem uma história própria.
No IEB, o fundo Mário de Andrade foi organizado de acordo com um arranjo em três seções ou subfundos: arquivo, biblioteca e coleção de artes visuais. Cada seção está organizada em séries. O arquivo concentra os documentos do arquivo pessoal propriamente dito, ou seja, os inúmeros manuscritos das diversas atividades que o poeta exerceu, acumulados durante sua vida. As seções biblioteca e coleção referem-se respectivamente à coleção de livros e à coleção de obras de arte – esta última bastante diversificada, pois inclui arte moderna brasileira, objetos religiosos, arte indígena, entre outros.
Assim narra Antonio Candido o processo de incorporação do arquivo do poeta ao IEB-USP:
"Mário tinha manifestado informalmente à família o desejo de distribuir seu acervo por várias instituições: Biblioteca Municipal [de São Paulo], que hoje leva seu nome, Biblioteca de Araraquara, Pinacoteca, Cúria – o que seria uma pena. A família não deu andamento e ficou tudo na casa onde ele morava, à Rua Lopes Chaves, onde a irmã foi morar. Um dia o irmão dele, Carlos de Morais Andrade, me chamou e disse: ‘Nós estamos numa situação um pouco complicada, porque precisamos dar um destino a tudo isto. Além disso minha irmã está em situação difícil porque o marido morreu e ela precisa de dinheiro. Nós não queremos vender, porque o Mário não queria vender nada, mas queríamos ceder para alguma instituição que desse uma compensação pequena a ela. O que você acha?’ Estavam reunidos Carlos de Morais Andrade, o sobrinho Carlos Augusto de Andrade Camargo e Airton Canjani, casado com a irmã deste. Eu disse: ‘Podemos transformar isto aqui numa Casa de Mário de Andrade ou incorporar à Universidade de São Paulo. Se vocês quiserem transformar isto numa Casa de Mário de Andrade a situação é boa porque, embora eu seja oposição, o atual governador do estado, que é o Roberto de Abreu Sodré, foi meu companheiro de luta política contra o Estado Novo. O secretário do governo é amigo meu, o Arrobas Martins, colega de turma na Faculdade de Direito. Eu sei que eles estão loucos para fazer uma Casa de Mário de Andrade’. Aí eles conversaram, pensaram um pouco, e com grande bom senso disseram: ‘Queremos incorporar à universidade’. Fui falar com José Aderaldo Castello, que pegou fogo, encampou a ideia e promoveu tudo, depois de obter o consentimento da reitoria. Morais Andrade me disse: ‘Não quero um tostão para mim, mas quero uma compensação para minha irmã’ – fixando duzentos não sei o que, mil ou milhões, porque esqueci qual era a moeda. A reitoria achou tão pouco que deu quinhentos, quantia quase simbólica em face da qualidade e quantidade do acervo: uma coleção de quadros que era um museu, esculturas, quatrocentas gravuras, inclusive algumas de Albrecht Dürer, coleção de partituras, coleção de arte popular, coleção de imagens, 15 mil volumes na biblioteca. E mais toda a papelada dele e a correspondência. Uma coisa monumental. Foi a partir daí que se formou no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP) o grande centro de estudos em torno de Mário de Andrade."
A importância da intervenção de Antonio Candido para realçar o nome e consolidar a memória de Mário de Andrade ocorre em dois registro: primeiro, como analista da obra do poeta, por ter sido o principal crítico literário e cultural que o alçou ao reconhecimento duradouro; segundo, e principalmente, como o ator responsável por consolidar esse reconhecimento ao contribuir definitivamente para a preservação do acervo mariodeandradiano no IEB, como se observa pelo relato acima. Um ato que permitiu acesso e estudo ao arquivo pessoal, à correspondência guardada (com mais de oito mil cartas, constituindo uma série expressiva para a reconstrução do modernismo brasileiro), à biblioteca e à coleção monumental, composta por obras artísticas (quadros, esculturas, etc.), livros e partituras, manuscritos de romances e estudos não publicados.
Ao trazer a baila o termo “monumental”, é preciso ressaltar o aspecto grandioso (quantitativo e qualitativo) do acervo em alusão ao conceito de monumento , como entende o historiador Le Goff, cuja intenção de memória, de “imagem de si” (biográfica) e de percepção das relações travadas estavam presentes desde o momento em que poeta iniciou a guarda de sua correspondência. A preservação e institucionalização do acervo, como se destaca das palavras de Antonio Candido, dependem de relações de poder e interesse voltados à construção da memória.
E ao trazer à baila o desejo de Mário de Andrade, explicitado por Antonio Candido, de distribuir seu acervo por diferentes instituições, o que se revela era a preocupação do poeta com o tipo de documentação que cada instituição receberia: à biblioteca os livros; ao museu as obras de arte, e assim por diante. Naquele momento, e com essa forma de guarda, pensava-se que seria mais fácil ambicionar o tratamento técnico específico e adequado ao fundo (no caso, o arquivo pessoal), em termos da metodologia museológica e arquivística necessária, assim como se pensava garantir certa facilidade de acesso aos itens documentais, contribuindo para sua preservação. Mas não foi o que ocorreu. Ao concentrar todos os documentos do fundo Mário de Andrade na mesma instituição, a escolha leva a perceber que, se por um lado ficou violada a forma como o poeta imaginou a sua organização posterior, segundo o depoimento de Antonio Candido, por outro lado, e deve-se frisar este ponto, manteve-se a integridade do acervo tal como acumulado pelo autor no decorrer de suas atividades.
Pretende-se discutir, portanto, as implicações dessa escolha à luz da ciência da informação, como o "princípio da integridade", por exemplo, na concentração do fundo Mário de Andrade em único lugar. Esse é um dos conceitos importantes da preservação arquivística e da contribuição para a construção e preservação da memória.