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Resumen de ponencia
A praça, a feira e o comum: disputa, mobilização e vínculo no subúrbio do Rio de Janeiro

*Patrícia Veiga Borges



O trabalho é parte de uma investigação doutoral realizada entre 2013 e 2017, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGCOM/UFRJ) e do Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária da mesma instituição (LECC/UFRJ). O estudo buscou compreender o desdobramento de relações estabelecidas na cidade do Rio de Janeiro, especialmente na região conhecida popularmente como subúrbio da Leopoldina, a partir de um contexto específico que, em um mesmo lugar, mesclou a disputa pela manutenção de uma praça e a chegada de uma feira de alimentos orgânicos.

A praça em questão tem o nome de Marechal Maurício Cardoso e está localizada ao norte do município do Rio de Janeiro, entre os bairros de Olaria e Penha, em um território mais amplo demarcado administrativamente como Área de Planejamento 3 – onde há a maior densidade demográfica da zona urbana, a menor área verde por habitante e os mais baixos índices de qualidade do ar (GUIA, 2016). Em 2011, um decreto assinado pelo então prefeito Eduardo Paes alterou a finalidade do uso do espaço, com o propósito de construir uma Unidade de Saúde de Pronto Atendimento (UPA). Vendo a praça ser tomada por obras, os moradores dos arredores decidiram se organizar. Após realizarem um abaixo-assinado com 120 assinaturas e levarem o caso ao Ministério Público, à Câmara Municipal, à mídia e a uma instância de deliberação local conhecida como Fórum Permanente da Grande Leopoldina, construíram uma agenda de ocupações para o espaço.

Nesse bojo, dois coletivos foram formados: Associação de Amigos e Defensores da Praça e Leopoldina Orgânica. Um, composto por senhores e senhoras com idade entre 40 e 90 anos, moradores dos bairros de Olaria e Penha há mais de três décadas. O segundo, reunindo pessoas com idade entre 25 e 60 anos, moradores ou filhos de famílias que habitam os mesmos bairros, envolvidos com movimentos de agricultura urbana e saúde coletiva. Esse segundo grupo sugeriu ao primeiro, no espaço do Fórum da Grande Leopoldina, que uma feira permanente de alimentos orgânicos fosse instalada no local. Na ocasião, por volta de 2012, acabara de ser regulamentado na cidade o Circuito Carioca de Feiras Orgânicas.

Em 31 de maio de 2014, o 12° de 15 pequenos mercados vinculados ao Circuito foi inaugurado na praça. A Feira Orgânica da Leopoldina (que, um ano depois, teve o nome modificado para Feira Orgânica de Olaria) nasceu debaixo de mangueiras, ingazeiras e goiabeiras, com oito bancas contendo hortaliças, legumes, ovos, frutas, raízes e temperos. Conforme diziam os materiais de divulgação da época, feitos pelos dois coletivos, pela primeira vez o local recebia um mercado de alimentos produzidos “sem veneno” e vindos “diretamente do produtor”.

Tal contexto foi ponto de partida para um estudo sobre uma comunidade “gerativa” (PAIVA, 2007, p. 147) e em movimento. Comunidade esta que surgiu na medida em que as pessoas se reuniram, se afetaram, assumiram tarefas coletivas, passaram a conviver umas com as outras e descobriram reivindicações em comum. Seus agentes, ao seu modo inseridos na sociedade, habitam endereços diferentes do Rio de Janeiro, têm trajetórias, profissões e visões de mundo variadas (muito embora pertençam à mesma classe social), não possuem laços de parentesco, poderiam jamais ter se conhecido, mas aproximaram-se por demandas cotidianas (direitos, lazer, território, sobrevivência, saúde, alimentação, acesso a recursos naturais, preocupação com o meio ambiente etc.).

Em quatro anos de pesquisa (sendo um de contextualização e levantamento bibliográfico, dois de trabalho de campo e um de análise de dados), acompanhou-se o desenrolar das relações, realizou-se entrevista com 27 interlocutores (entre comerciantes, consumidores, agricultores, ativistas socioambientais e frequentadores da praça) e traçou-se um mapa narrativo que saiu da Praça Marechal Maurício Cardoso, percorreu os bairros do entorno e alcançou sítios onde são cultivados os alimentos que abastecem “a primeira feira orgânica do subúrbio”. Nesta apresentação, é feita uma breve explanação dessa imersão, elencando as seguintes questões: o que mudou na vida local a partir da disputa pela praça e da constituição na feira? Que temas começaram a circular? É possível apontar resultados para as relações ali estabelecidas?

O estudo seguiu abordagem comunicacional, conforme propõe Muniz Sodré, buscando a “superação das barreiras disciplinares” (2013, p.70) e a compreensão do social por meio de uma postura “abdutiva, errática e inventiva” (2014, p.p. 289). Isso fez com que, em termos práticos, o trabalho fosse orientado pela etnografia, assumida como uma possibilidade de partilha de universos e visões de mundo (MAGNANI, 2009, p. 135) ou, no limite entre o inteligível e o sensível, entrega aos afetos e envolvimento corpóreo – para além da observação participante – com o grupo estudado (FAVRET-SAADA, 2005, p.p. 155 - 161).

A metodologia escolhida teve como propósito captar, em campo, o que seriam vinculações ou possibilidades dela. Para tanto, definiu-se como vínculo o resultado de relações não somente baseadas em uma interlocução dialógica, mas também na possibilidade de “ocupação de um ‘outro’ lugar e formação de valor por movimentação sensível” (SODRÉ, 2014, p.p. 300 – 301). Os temas discutidos em praça pública ou nas trocas entre feirantes e sua clientela, os conflitos estabelecidos entre os coletivos, as mudanças pontuais de opinião e comportamento narradas pelos interlocutores, bem como as trajetórias de cada ser após a realização das entrevistas, foram termômetros (indicadores) para possíveis respostas às questões lançadas acima.

Permeou este estudo a tentativa de identificar, nas relações estudadas, a presença do comum como conceito e objeto de estudo da Comunicação. No primeiro sentido, o termo remente ao “impróprio”, resultado de uma disposição constitutiva do ser humano em partilhar diferenças; algo não necessariamente positivo, mas que sinaliza para uma “falta” a ser suprida (ESPOSITO, 2003, p.p. 21 a 31). Elemento esse percebido nas relações não somente como um “estar junto”, mas como um aglutinador de diferenças. “O comum é a sintonia sensível de singularidades, capaz de produzir uma similitude harmonizadora do diverso” (SODRÉ, 2006, p. 69). Já o segundo sentido é aproximado da esfera do questionamento, podendo ser localizado na interface de processos comunicativos e comunicacionais, ou seja, entre a vinculação e a midiatização (SODRÉ, 2014), entre partilhas intersubjetivas e sensíveis de experiências cotidianas e a “ampliação tecnológica da retórica” (SODRÉ, 2007, p. 18).

Na feira e na praça, o comum foi apreendido a partir de quatro temas: a) orgânicos e direito à alimentação; b) machismo; c) imaginação do campo como o “outro” daquele espaço; d) direito aos territórios vividos e produzidos (LEFÉBVRE, 2002; HARVEY, 2012). Tais recortes foram estabelecidos nas seguintes situações: 1. conversas amplificadas por um “microfone aberto” realizado na praça, sempre aos sábados, muitas vezes pautado por temas que circulavam na mídia e cujos atores envolvidos consideravam ter relação com aquele contexto; 2. em conversas paralelas, relacionadas ou não ao comércio de alimentos; 3. no momento das entrevistas. A compreensão final foi de que as pessoas envolvidas com a feira e a praça cuidam, remexem, nutrem, deixam morrer, retomam e reorganizam não somente a terra, os alimentos ou as relações de troca, mas também suas vinculações e as perspectivas de luta pelo que produzem (de material e simbólico) nos espaços por onde circulam. À conclusão atribuiu-se a metáfora dos “cultivos do comum”.

Referências:

ESPOSITO, Roberto. Communitas: origen y destino de la comunidad. Buenos Aires: Amorrortu, 2003. 1ª. Ed. Trad. Carlos Rodolfo Molinari Marotto.
FAVRET-SAADA, Jeanne. Ser afetado. Cadernos de Campo 13, 2005. p.p. 155 – 161. Tradução de Paula Siqueira. Revisão de Tânia Stolze Lima. Disponível em: Acesso em 04 abr. 2016.FERREIRA, José. Os agentes da construção política do mercado. Iluminuras, Porto Alegre, v. 14, n. 33, p. 87-99, jul./dez. 2013. Disponível em: Acesso em: 07 jan. 2015.
GUIA, Eric Vidal Ferreira da. A Serra da Misericórdia como uma zona de sacrifício do Rio de Janeiro. In: RODRIGUES, R.I. Vida social e política nas favelas: pesquisas de campo no Complexo do Alemão; Rio de Janeiro: Ipea, 2016. 234. p.
HARVEY, David. O direito à cidade. Lutas Sociais, São Paulo, n.29, p.73-89, jul./dez. 2012.
LEFEBVRE, Henri. O direito à cidade. São Paulo: Centauro, 2001. Trad. Rubens Eduardo Frias. 143 p.
MAGNANI, José Guilherme Cantor. Etnografia como prática e experiência. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 15, n. 32, p. 129-156, jul./dez. 2009 Disponível em: Acesso em: 13 jul. 2015.
PAIVA, Raquel. O espírito comum: comunidade, mídia e globalismo. Rio de Janeiro: Mauad, 2003. 2ª. Ed.
______________. Para reinterpretar a comunicação comunitária. In: PAIVA, Raquel (org.). O retorno da comunidade: os novos caminhos do social. Rio de Janeiro: Mauad, 2007.
SODRÉ, Muniz. As estratégias sensíveis: afeto, mídia e política. Petrópolis/RJ: Vozes, 2006.
_____________. Sobre a episteme comunicacional. Revista Matrizes n° 1. Out. 2007. p.p.15-26.
_____________. Um novo sistema de inteligibilidade. Questões Transversais – Revista de Epistemologias da Comunicação. Vol. 1. n° 1, jan./jul. 2013. p.p. 66 a 73.
_____________. A ciência do comum: notas para o método comunicacional. Petrópolis/RJ: Vozes, 2014.




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* Veiga Borges
Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária da Universidade Federal do Rio de Janeiro LECC/UFRJ. Rio de Janeiro, Brasil