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Resumen de ponencia
Parteiras, Doulas e Obstetras: formas de parir no Mato Grosso

*Nelissa Peralta



O Brasil passa por uma epidemia grave e que deixou de ser silenciosa recentemente – a epidemia de cesáreas. Na rede privada no Brasil, as taxas atingem 87% dos partos e representam riscos de mortalidade maternal aumentados, riscos para os bebês por conta da ausência de mecanismos fisiológicos de adaptação ao nascimento, altas taxas de prematuridade e distúrbios respiratórios. O perfil socioeconômico das mulheres que realizam cesáreas é de maior escolaridade, maiores rendimentos, e maioria de cor branca - parece apontar que, dada a chance de escolha, as próprias mulheres optam pela realização das cesáreas e portanto elas seriam as responsáveis por uma suposta cultura da cesárea no país, onde predomina uma visão sobre o parto normal como um evento doloroso e arriscado. Além de falaciosa é irresponsável a afirmação de que essa cultura de cesáreas é produto das escolhas das mulheres brasileiras. Longe de ser irracional, o medo é bem justificável e foi construído há décadas. Uma pesquisa recente mostrou que uma entre quatro mulheres declararam ter sofrido violência obstétrica no parto . Portanto, o medo reflete questões reais relacionadas a uma cultura misógina, violenta e discriminatória de gênero, de classe e poder, que se reproduz nas formas de assistência ao parto no Brasil (Behague et al. 2002). Nos hospitais públicos, o parto vaginal ocorre com excesso de intervenções, como a episiotomia de rotina (corte entre vagina e ânus), a indução por oxitocina para acelerar o trabalho de parto, e outras práticas não recomendadas pela comunidade científica internacional. Outros problemas são o tratamento desrespeitoso dado às parturientes, a imprevisibilidade do parto, e a insegurança quanto à disponibilidade de leitos (Behague et al. 2002). O atendimento privado ao parto tem se tornado, portanto, uma opção para as mulheres numa tentativa de minimizar todo esse sofrimento. Para as mulheres que têm condições de optar por atendimento privado, a estratégia parece ser eficaz. Um estudo de 2014 mostra que a fonte de pagamento privado foi associada ao menor relato de violência, mais respeito, mais privacidade, mais clareza nas explicações, mais possibilidade de fazer perguntas e maior participação nas decisões (d’Orsi et al. 2014).
No Brasil parir é um ato social, cultural, político e econômico, e não somente fisiológico, que reflete a sociedade brasileira com suas desigualdades econômicas, de gênero e poder. Este trabalho mostra que o projeto de transformar o parir em um ato médico, masculino e segmentado o associa ao projeto de modernidade/colonialidade– eliminando outros saberes e práticas como das parteiras e benzedeiras nos processos de cuidados com a saúde. Atualmente movimentos sociais reivindicam novas formas de parir e de cuidar do corpo feminino. Identificamos o movimento de humanização do parto com o chamado “giro decolonial”– uma forma de resistência teórica e prática, política e epistemológica, à lógica da modernidade/colonialidade. Algumas das pautas das ativistas que buscavam a humanização do parto foram traduzidas em políticas públicas a nível federal. A Rede Cegonha - programa instituído em 2011 – procurava incentivar o parto normal e prestar assistência à mulher do planejamento familiar ao pós-parto; e incentivar a troca entre saberes de parteiras e médicos obstetras. Na prática isso ocorreu muito pouco. Em Cuiabá, capital do Estado de Mato Grosso, a única sala especializada em parto humanizado localizada no hospital Santa Helena foi fechada em 2014. Em uma maternidade privada de Cuiabá, onde ocorriam cerca de 2.700 partos cesáreas ao ano, após sua participação em projeto federal de incentivo ao parto normal conseguiu realizar em 2015 apenas cerca de 30 partos normais ao mês. Ou seja, apenas 15% dos partos realizados são partos normais. A partir da descrição e comparação de depoimentos de mulheres que tiveram três tipos de partos: cesariana, parto normal assistido por parteira, parto normal em rede privada, procuramos pistas sobre a produção de uma suposta “cultura de cesáreas” no estado campeão de cesáreas no Brasil. A pesquisa mostra que a principal mudança necessária para o atendimento humanizado se refere mais à revisão das práticas relacionadas ao atendimento das gestantes e bebês do que mudanças na infraestrutura de atendimento. Essa epidemia de cesáreas tem sido engendrada principalmente pela história de violência obstétrica na rede pública que sofreram as mulheres, e que situam a dor e o perigo como focos centrais nas narrativas de parto normal, produzindo uma falta de autonomia da mulher em relação ao parto e ao corpo. O estudo do parto como fato social total visa desmistificar a noção de uma “cultura da cesárea” entre as mulheres brasileiras e mostrar as verdadeiras causas sociais dessa epidemia, qual seja a prevalência das mal-práticas obstétricas no país associadas às desigualdades de gênero e poder. A falta de informações e a falta de apoio às parturientes nega às mulheres um direito humano básico que é de sua integridade corporal e do seu bem-estar sexual que é afetado por intervenções desnecessárias. Para deter o projeto de medicalização um caminho é revalorizar as práticas tradicionais e promover a interlocução entre saberes tradicionais e científicos de assistência ao parto. Para isso duas importantes condicionantes devem ser atendidas. Em primeiro lugar, profissionais da saúde devem entender e admitir a importância da atuação de não médicos na assistência ao parto, permitindo uma reconfiguração do currículo e do processo de aprendizagem “obstétrica”. Por outro lado, o ofício das parteiras deve ser revalorizado e reconstruído socialmente, no sentido de reintegra-lo no campo oficial do cuidado com a saúde.




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* Peralta
Faculdade de Ciências Sociais, UFPA UFPA. Belém, Brasil