A Ciência ocidental moderna pode ter como uma de suas caracterizações a construção de uma noção de conhecimento fortemente associada a um significado essencialista de “verdade”. Esse “essencialismo”, que pressupõe a existência de uma “verdade” ou “realidade” únicas remete ao problema da ansiedade cartesiana sobre a possibilidade de se obter um conhecimento verdadeiro sobre um mundo “real” que existe além da nossa mente. Como componente intrínseco desse processo de formação da Ciência ocidental como fonte do único conhecimento válido e a consequente subjugação de outros saberes, está o contexto de colonizações europeias ao “Sul”.
No presente ensaio, pretende-se, assim, à luz de teorias pós-coloniais e decoloniais, problematizar a construção e demarcação do que é considerado conhecimento legítimo. Partirei do argumento de que há um limite à democratização do conhecimento e de que este foi delimitado logo no início do empreendimento moderno, quando se criou a narrativa de que a única modernidade existente era a europeia. A partir do estabelecimento desse limite toda tentativa de alargá-lo ou transpassá-lo acaba se dando através do diálogo com esse mesmo conhecimento canonizado, trazendo a questão de até que ponto se desafia o cânone a partir de epistemologias “marginalizadas”. Na segunda parte do meu argumento gostaria de trazer ao debate até que ponto esse limite, essa “fronteirização” do conhecimento – a legitimar e canonizar somente saberes ocidentais – não faz com que a resistência e o desafio a essa posição de poder seja uma tarefa ambivalente. Isto é, faz com que no exercício de desafiar haja o desejo ou necessidade de ser incluído nessa produção de conhecimento ao mesmo tempo em que se faz necessário questionar e romper com suas bases ontológicas e epistemológicas. O que nos leva a questionar uma visão essencialista desse conhecimento como se não houvesse tido influências diversas em sua formação, apesar do que a narrativa dominante pretende afirmar.
Trata-se, em outras palavras, de dizer que apesar do discurso de poder que consagra o conhecimento ocidental moderno como único a ser válido e legítimo, ele foi construído a partir de práticas coloniais de apropriação e subjugação de outros saberes, ou seja, através do encontro com – e da dominação de – outras ontologias. E, além disso, não podemos assumir que qualquer coisa permaneça intocada durante o tempo, sem sofrer nenhuma influência. Há sempre o encontro de muitas forças e, nesse caso, saberes que vão compondo o conhecimento que possuímos. Então, talvez seja o caso de descolonizar o discurso sobre a autenticidade do conhecimento essencialista eurocêntrico.
Para sustentar esse argumento, o presente trabalho será dividido em três seções. A primeira se debruçará sobre o processo de construção do conhecimento ocidental como única possibilidade de narrativa científica, ou melhor, como único discurso de verdade possível. Procurarei falar sobre como esse processo teve sua autoridade construída e legitimada a partir do contexto da modernidade/colonialidade, se apropriando de outros saberes para depois marginalizá-los, o que só foi possível através da divisão do mundo a partir de categorias binárias racializadas e genderizadas. Essa categorização do mundo acarretou na legitimação de certos sistemas de representação que têm como espelho o ocidente e o pressuposto da superioridade europeia. Portanto, a legitimação e canonização do conhecimento ocidental parte de um discurso eurocêntrico, geográfica e historicamente localizado, que possui uma relação específica com o conceito de “verdade” significando uma essência a ser acessada, buscada.
A partir das considerações da primeira seção sobre a relação constitutiva entre modernidade e colonialidade como contexto de legitimação do conhecimento ocidental, abordarei na segunda seção as consequências da instauração do conhecimento ocidental moderno como regime de verdade através dos conceitos de colonialidade do poder, do saber e do ser . A segunda seção se propõe a discutir as consequências tanto discursivas quanto materiais da violência epistêmica, tentando, dessa forma, engajar com um decolonialismo crítico que reconhece a indissociabilidade entre discurso e experiências materiais. Procuro falar sobre os processos de subjetivação e incorporação do discurso moderno/colonial de subjugação racial e de gênero e, com isso, considerar o papel da linguagem nesse processo de colonização das mentes e corpos. Ao trazer o papel da linguagem no processo de colonização do conhecimento, desenvolvo a terceira seção, onde busco demonstrar como a academia reflete essa educação colonial. O intuito, com isso, é embasar minha argumentação sobre os limites da democratização do conhecimento já serem definidos pela posição de poder da modernidade ocidental, ao mesmo tempo em que procuro problematizar essa visão essencialista dos critérios eurocêntricos de conhecimento e os desafios a esse limite enquanto caminho para a conclusão.