A análise de corporeidades e circuitos culturais em contextos tardo-globalizados demanda outras formas de compreensão que não aquelas de base essencialista, canônica ou imutável. Essa outra mirada epistemológica aproxima-se, em nossa compreensão, da dinâmica mesma de cenas juvenis contemporâneas, especialmente aquelas protagonizadas por jovens marginalizados, dissidentes e estigmatizados e que, enfrentando a subalternidade da subalternidade, questionam, invertem e subvertem as lógicas normativas de gênero e sexualidade. Essa juventude lança luz a outros modos de re-existência, cuja pluralidade de sentido é viabilizada pela experimentação de corpos em transe e em trânsito, que se apropriam de e politizam/polinizam narrativas midiáticas, experiências do entretenimento e da cultura pop.
Neste plano contextual, encontramos a persona que inspira esta reflexão, a saber, a travesti, artista, performer, bailarina e cantora paulista Linn da Quebrada. Filha de mãe alagoana, crescida nas periferias urbanas de São Paulo, Linn encontrou no horizonte artístico-performático e nas artes do fazer (CERTEAU, 1998) dos becos e ruelas da quebrada, outras possibilidades de existir para além de uma masculinidade hétero-branca-viril, reiterada em sua criação religiosa, passando a se assumir como “bixa, trans, preta e periférica”. Ao romper com os modos de subjetivação impostos pelas Testemunhas de Jeová e com a sujeição social de um cis-tema normativo, vigilante e punitivo, Linn deu ensejo à desconstrução pericial de sua existência e ao seu trânsito intermitente entre o universo do feminino e da mulher. Valendo-se da bastardia (RINCÓN, 2015) e da potência narrativa de combate do funk, matriz cultural do popular-periférico brasileiro, a artista milita pelo direito de ser e estar em um corpo enviadescido – sem culpas nem pudores – e envaidecido em sua manifestação verdadeira:
Enviadescer pra mim é uma atitude, um comportamento, um ato de resistência e tem a ver com o feminino, as marcas do feminino em nossos corpos, e permitir que essas marcas estejam sobre nós e deixar com que elas sejam um ato de empoderamento. Tem a ver com assumir-se e assumir com seu corpo . (LINN DA QUEBRADA, 2017, n.p.).
O empenho de envaidescer a viadagem constitui um dos pilares do artivismo e das políticas de audiovisibilidade (SANTOS; ROCHA, 2018) de Linn da Quebrada. Neste contexto, o corpo travesti e/ou afeminado é concebido em um duplo movimento de ressignificação política: o primeiro projeta e lança luz sobre “corpos que não importam”, vistos como existências “incômodas”, “desviadas”, “demoníacas”, passíveis de eliminação, ou, ainda, condicionadas à servidão sexual-masturbatória, em uma relação perversa entre pornificação x grau de opressão (PRECIADO, 2014). O segundo, por sua vez, reivindica uma compreensão polissêmica sobre as corporeidades juvenis, despojadas de uma definição per si, haja vista o seu caráter constitutivo processual e relacional com a alteridade, que possibilita outros trânsitos e novas experimentações entre o masculino e o feminino.
No tocante ao primeiro movimento, é oportuno trazer ao diálogo alguns dados que explicitam o cenário de risco e indiferença que tangencia estes corpos. Em um estudo realizado pela Associação Europeia TransRespect , o Brasil lidera o ranking mundial de homicídios contra travestis e transexuais, totalizando 1.052 mortes no período de 2008 a 2017. Outro dado aferido pela Associação constatou que das 2.600 mortes ocorridas em todo o mundo neste período, dois terços das pessoas trans assassinadas eram profissionais do sexo.
Endossando essa discussão, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) elaborou o Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais no Brasil em 2017, cujos resultados evidenciaram que a cada 48 horas, uma pessoa trans ou travesti é morta por assassinato no país. A pesquisa ainda apurou que a principal motivação dessa violência não está atrelada ao exercício da sexualidade, mas à identidade de gênero: “É como se os corpos dessas pessoas que desafiam as normas tivessem que ser expurgados da sociedade. E é isso que a sociedade tem feito” (BENEVIDES, 2018, n. p.).
Preciado (2014) localiza uma relação direta entre a pornificação do corpo e o grau de opressão, cujos corpos historicamente colonizados, a saber, as mulheres, as crianças, os negros, os homossexuais, as travestis, as pessoas trans, entre outros, apresentam-se cada vez mais como “objetos de exploração farmacopornográfica máxima” (PRECIADO, 2014, p. 46, tradução nossa). Essa lente analítica ganha relevo sobre os dados supracitados e as expressões artísticas de Linn à medida que entendemos que estes corpos travecos, afeminados que protagonizam as audiovisualidades da artista, resistem e afrontam aos regimes farmacopornográficos.
Linn reflete essa condição de marginalidade e a transforma no mote de inspiração da sua militância e criação artística, denominada como terrorismo de gênero. Em Pajubá, seu recente álbum musical, a artista faz alusão ao extermínio de suas pares em várias músicas, com destaque para a canção Bixa Preta , que no seu refrão reproduz o som de tiros de revólver sobre o corpo enviadescido. Sem hesitar diante das piadas e do terror que acomete as pessoas trans e travestis, Linn manda um papo reto e afirma que a batalha é cotidiana, mas sua artilharia é mais potente que o ódio dos vigilantes de gênero.
Deslocar o feminino desse patamar de submissão e transcender a visão reducionista sobre o corpo travesti configura, para Linn, um ato de resistência, de amor – e, consequentemente, de ressignificação política. Em consonância com estas reflexões, destacamos outro ponto da expressividade corpórea que constitui as políticas de audiovisibilidade de Linn em seu projeto de envaidescer a viadagem, que diz respeito à recusa do binarismo de gênero.
Assim, o que se contempla nesta proposta é uma compreensão polissêmica dos corpos, que não necessariamente refuta a condição biológica de existência, mas garante que a materialidade corpórea não esteja dada, finalizada nos órgãos sexuais, haja vista que os corpos ganham contornos e sentidos a partir de suas experimentações e relações cotidianas com a alteridade. Contribuindo com esse debate, recorremos às acepções de Gomez e Salgado (2012), sobretudo quando explicam que nos processos de constituição identitária e nos agenciamentos políticos juvenis contemporâneos, “el cuerpo no es; por el contrario, se va haciendo.” (GOMES; SALGADO, 2012, p. 117). Nestas condições, o corpo é tomado como um processo de (re-des)construção, que se faz em relação e experimentação direta com as diversas dimensões existenciais que se apresentam a essas juventudes, inclusive no tocante aos sentidos de gênero e de sexualidade.
Nas palavras de Linn, esse devir-corpo lhe possibilita
Transitar em mim mesma. Nas minhas possibilidades e potências. Nas minhas fragilidades para me fazer mais forte. E assim fazer com que outras pessoas também se identifiquem e deste modo redes de apoio e vínculos sejam criados. [...]. Eu sou só uma parte desse movimento. Que é formado por um monte de gente preta, ‘translesbichas’, periféricas, que vem vindo com tudo para invadir e ocupar todos os espaços. Queremos escrever novas possibilidades para nossos corpos, sejam eles como forem. (LINN DA QUEBRADA, 2018, n. p.)
Temos, em Linn, corpos plurais, transitórios, ressignificados, que não querem existir nas sombras ou se esgotar nas estatísticas da violência. Com esta proposição, Linn quer perfurar as lógicas normativas e farmacopornográficas, ocupando e resistindo em espaços ora nunca habitados por travestis, transexuais, lésbicas, homossexuais e tantas outras existências. Essa iniciativa inquiridora é manifestada, sobremaneira, nas rimas e estéticas do “funk lacração” feito por Linn, cuja criação narrativa retrata e performa estes corpos transviados, revelando-se, pois, em uma ação potencialmente contra-laboratorial (PRECIADO, 2014, p. 35), de conflito e recusa explícitos ao projeto patriarcal e machista que opera sobre estes corpos.
Referências Bibliográficas
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. 3 ed. RJ: Editora Vozes, 1998.
PRECIADO, Beatriz. Texto Yonqui: sexo, drogas y biopolíticas. Buenos Aires: Paidós Espacios del Saber, 2014.
DA QUEBRADA, Linn. 2018. Disponível em: . Acesso em: 5 mar. 2018.
DA QUEBRADA, Linn. BIXA PRETA. 2017. (3min31s). Disponível em: . Acesso em: 27 fev. 2018.
EIROA, Camila. Eu gosto mesmo é das bicha [entrevista concedida Camila Eiroa]. TRIP TV. 2016. Disponível em: . Acesso em: 18 jan. 2018.
THOMAZ, Danilo. Reduzida por homicídios, a expectativa de vida de um transexual no Brasil é de apenas 35 anos. Época online. 30 jan. 2018. Disponível em: . Acesso em: 23 fev. 2018.
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE TRAVESTIS E TRANSEXUAIS. Disponível em: . Acesso em: 20 fev. 2018.
BENEVIDES, Bruna. Número de assassinato de travestis e transexuais é o maiorem 10 anos no Brasil [entrevista concedida à Helena Martins para a Agência Brasil]. 25 jan. 2018. Disponível em: . Acesso em: 20 fev. 2018.
ESTAÇÃO PLURAL. Linn da Quebrada no Estação Plural. 21 fev. 2018. Disponível em: . Acesso em: 05 fev. 2018.
ROCHA, Rose de Melo; SANTOS, Thiago Henrique Ribeiro. Remediação com purpurina: bricolagens tecnoestéticas no drag-artivismo de Gloria Groove. Revista Interin, São Paulo: v. 23, n. 1, jan/jun. 2018, p. 20