Do ponto de vista sociológico, em particular aquele formulado no âmbito da
sociologia durkheimiana, a educação é entendia como processo central na construção dos
seres humanos das novas gerações. Afinal, é pela ação educativa que deixamos nossa
condição de animalidade para nos tornarmos propriamente humanos, e essa metamorfose é
sempre operada de forma coletiva, isto é, é uma ação que a sociedade exerce sobre os sujeitos
que dela fazem parte. Ainda para seguir com Durkheim, a educação, sobretudo aquela que tem
lugar no contexto escolar, é o mecanismo pelo qual os principais valores sociais são
transmitidos, passando a fazer parte das consciências individuais – ao menos em parte – e, ao
fazê-lo, ela também recria a si mesma.
Portanto, a compreensão do fenômeno educacional coloca-se como tarefa crucial da
sociologia, na medida em que lançar luz sobre o que ocorre no contexto escolar nos permite
apreender elementos cruciais da vida social. A presente pesquisa insere-se diretamente nesta
tradição. Ainda que a teoria durkheimiana sobre a educação não seja sempre tomada ao pé da
letra, ela constitui o pano de fundo da colocação das questões que norteiam esta investigação,
que tem como tema geral a evasão nas escolas públicas e, mais especificamente, aquela que
tem lugar em uma modalidade particular de ensino, qual seja, a Educação de Jovens e Adultos
(EJA), que é diagnosticada como uma situação de crise.
A evasão nas escolas públicas é um tema abordado a partir de diferentes perspectivas e
é considerado um fenômeno complexo e multicausal, possuindo aspectos socioeconômicos,
psicológicos, culturais, políticos, entre outros. (NERI, 2011; SARAVÍ, 2009; RIBEIRO;
CATELLI; HADDAD, 2015).
Uma parte da “crise” atribuída à escola e aos sistemas de ensino é detectada
justamente em função dos índices de evasão, considerados preocupantes em um contexto no
qual a educação escolar é tida como um direito, diretamente relacionado à capacidade da
população de exercitar a sua cidadania.
No Brasil, uma das saídas encontradas para remediar essa necessidade de estabelecer
as condições da cidadania através da escolarização foi a implantação do então chamado
“ensino supletivo”, em concomitância com a busca gradativa da universalização das
modalidades de ensino ditas “regulares”. (HADDAD, 2002; DI PIERRO; JOIA; RIBEIRO,
2001). As modalidades supletivas se destinariam inicialmente à população analfabeta já adulta
no momento da implantação das redes de ensino públicas, e apresentaram uma grande4
variação no seu nível de institucionalização ao longo da história brasileira, inclusive
enfrentando momentos de completo desmonte do suporte estatal à essas modalidades. Esse foi
o início da implantação das redes públicas de ensino no Brasil, que de lá para cá já passaram
por diversas modificações.
A Educação de Jovens e Adultos (EJA), surge como uma dessas novidades, que se
constrói a partir da problematização da ideia de supletividade do ensino, à luz de novos
paradigmas educacionais desenvolvidos em função de novas finalidades (para a educação
escolar), justificadas pelas mudanças sociais em curso nas sociedades contemporâneas.
(HADDAD, 2002; PAIVA; OLIVEIRA, 2004; DI PIERRO, 2010; FISCHER; GODINHO,
2014).
Outro elemento deste cenário é a proporção de brasileiros de 18 a 24 anos que, em
2015, com menos de 11 anos de estudos completos, não frequentavam nenhuma instituição de
ensino. A média brasileira neste quesito é de 29,5%, subindo para 47,8% no quinto da
população com o rendimento mensal domiciliar per capita mais baixo. (IBGE, 2015). Como
vemos, a evasão não é revertida imediatamente mesmo quando de um retorno desses
estudantes ao sistema de ensino, através da EJA ou por outros caminhos, de modo que seus
efeitos perduram inclusive entre os jovens, mesmo em uma trajetória de universalização do
ensino básico.
Partimos da ideia, a ser apreciada com a pesquisa, de que as taxas de evasão e de persistência nas escolas dependem –
além de outros fatores, que não serão nosso foco central – do conjunto de valores e de práticas
ensejados no contexto escolar, que levam à formação de diferentes tipos de vínculos sociais.
Em relação a isso, nosso papel então seria explicar como as características dos
vínculos estabelecidos por essa moralidade afetam a ação dos indivíduos, e em que
circunstâncias essas crenças se modificam “diante de efeitos desajustados ou de pressões
sociais” (HITLIN, 2015, p. 26).
Considerando, como propõe Weiss (2017), a sociologia da moral e o tema dos vínculos
sociais como necessários ao entendimento da realidade social contemporânea, buscarei
analisar o seguinte problema de pesquisa: como o tipo de vínculo estabelecido na dinâmica
moral específica das escolas afeta a evasão?