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Resumen de ponencia
Vivências e desafios da docência em sociologia: Marielle Franco e o espaço dos sentimentos docentes

*Camila Santos Pereira



Este trabalho visa relatar as experiências vividas durante a disciplina de Estágio de Docência em Ciências Sociais I do curso de graduação em Ciências Sociais - Licenciatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O foco principal é apresentar os dilemas e questionamentos experienciados a partir da atividade: Marielle Franco e o que a sociologia tem haver com isso? E também analisar as relações do cotidiano escolar que ultrapassam os conteúdos da disciplina de sociologia da perspectiva docente. Essa atividade foi desenvolvida no Colégio de Aplicação da UFRGS em uma turma do primeiro ano do ensino médio no primeiro semestre de 2018. Logo após o assassinato de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro, aconteceram marchas em todo Brasil e em diversos países ao redor do mundo reivindicando por justiça. Esse momento de grande repercussão também foi expresso dentro dos muros da escola. Na primeira semana depois do acontecido, um estudante chamou a atenção para esse fato e com isso foi planejada a atividade. A proposta era articular a trajetória política e pessoal de Marielle com os conceitos estruturantes de sociologia de Émile Durkheim, principalmente sobre fato social. Por se tratar do primeiro contato da turma com a sociologia, a construção da disciplina como ciência e aplicação no cotidiano foram apresentadas. Com a silhueta de Marielle Franco dividida em categorias sociológicas como: sexualidade, raça, gênero, violência e empoderamento foi dialogado com a turma as implicações desses conceitos na sociedade brasileira, enquanto aos poucos sua imagem era formada no quadro.
Esse exercício exigiu muito mais do que a pesquisa histórico-cultural desses termos, pois como mulher negra cisgênero e não heterossexual, estudante de ciências sociais senti o impacto desse ocorrido de forma muito próxima. Seu assassinato foi uma tentativa de calar seus ideais democráticos, seu combate às desigualdades raciais, de gênero, sociais, à violência policial e a discriminação com LGBTT’s. Marielle Franco representava milhares de pessoas que sobrevivem com essas assimetrias sociais. Com isso fiquei com a pergunta: como lidar com esse tema tão sensível e ainda emocionante para mim? Essa questão é pouco discutida em espaços de diálogos sobre educação. Em um país como o Brasil, marcado historicamente pelas desigualdades sociais, é necessário perceber o quanto a identidade docente é mais complexa do que os perfis universais eurocêntricos apresentados e perpetuados por normas sociais e acadêmicas.
A proposta de trabalhar a história de Marielle causou uma movimentação de diversos sentimentos. A escola deve ser o lugar em que educadores e educadoras não apresentam emoções? A discussão sobre corpo e docência é apresentada em diversos textos por Bell Hooks, intelectual da educação, relações de gênero e raciais. A autora apresenta a negligência da percepção corporal pelas/os profissionais de educação desde suas formações. A partir de sua leitura, surge também questionamentos sobre o espaço das emoções nesse local e como a identidade docente muitas vezes através da promessa de objetividade acaba por silenciar uma certa humanização da docência. Será que esse espaço pode existir? Essa pergunta continua sem uma resposta exata, por isso refletir sobre o corpo e as emoções presentes ao trabalhar com estudantes também perpassa as discussões contemporâneas das ciências sociais acerca do lugar de fala. A autora Djamila Ribeiro descreve a importância de marcar e visibilizar as histórias daquelas e daqueles que foram e ainda são silenciadas/os e têm suas falas e produções furtados. Nesse processo de visibilidade as estruturas mudam. Com isso, é importante salientar o peso de ocupar esse lugar, principalmente como professora.
Mesmo com todos esses questionamentos pessoais, a aula expositiva gerou uma conversa muito produtiva, pois as/os estudantes participaram com questões e exemplos de seu cotidiano. E a partir dessas inquietações se sobressaiu o objetivo de compartilhar e ocupar esse espaço como resistência e ferramenta de mudança social.




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* Santos Pereira
Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS. Porto Alegre, Brasil