Esta pesquisa visa apresentar uma análise sobre a presença de telenovelas brasileiras em Cuba e tem como foco aprofundar conhecimentos sobre os discursos produzidos a partir das representações raciais contidas nestes produtos midiáticos. As telenovelas produzidas pelas principais emissoras do Brasil, desde o ano de 1985, ocupam um lugar de destaque da grade televisiva cubana. Uma das primeiras a ser exibida foi Escrava Isaura, que teve índices de audiência altíssimos e garantiu a permanência das novelas brasileiras na programação da televisão cubana. Ao longo dos quase 35 anos de presença deste produto na Ilha, foram exibidas diferentes histórias, nas quais a população negra não contou com grande diversidade de representação. A maior parte das narrativas mantinham negros e negras em papéis subalternos e à margem da sociedade. De forma contraditória, podemos observar como esse produto midiático não dialoga com o discurso oficial do governo e dos canais cubanos, que foram nacionalizados em 1959, após a vitória da Revolução Cubana. Esse discurso é pautado principalmente na igualdade de direitos e oportunidades. As pesquisas já consagradas sobre a história da revolução e seus bons resultados para as populações da Ilha nos ensinam sobre as agendas defendidas pela constituição nacional e suas prioridades com o foco na equidade. Nessa conformação, não se admite, por exemplo, as propagandas além daquelas do governo na televisão. O discurso oficial do governo enfatiza as conquistas sociais que vieram com a virada ideológica.
Nesse contexto, podemos supor que de algum modo as novelas brasileiras estão presentes e são autorizadas a difundir um modo de vida capitalista, a fomentar o consumo de bens materiais, assim como a reforçar representações racistas. Apesar disso, estas telenovelas permanecem no ar, sendo exibidas no horário nobre, tem uma grande popularidade e, indo além, influenciam nas representações que cubanos estabelecem sobre o Brasil e sobre si enquanto povo.
Não obstante, é possível acreditar que as novelas brasileiras tem contribuído para a manutenção do racismo no país pela grande audiência e por outra parte, encontramos subsídios para aceitar que também tendem a provocar o debate relacionado com os pontos de tensão em Cuba tais como a homofobia, o machismo, a liberdade sexual entre outras percepções da estética. O tema da ausência de representatividade negra nesta produção midiática é, efetivamente, um dos mais atraente dos aspectos já que em Cuba, a população afrodescendente é fundamental na sua dinâmica organizacional, por assim dizer.
Importa observar como a ausência da problematização das relações raciais corrobora com uma mentalidade colonial e racista, que reserva para as populações negras, seja no Brasil ou em Cuba, as posições mais subalternas e para as populações brancas, os lugares de maior privilégio. Dentro deste contexto, no qual o racismo produzido pela indústria televisiva brasileira atravessa as fronteiras nacionais, um dos focos dessa pesquisa é demonstrar a importância de mudanças e a urgência de criação de novas formas de representatividade negra nos meios de comunicação.
A partir deste contexto, pretendemos analisar a presença das telenovelas como um fenômeno produzido e que afeta cubanos e cubanas de diversas raças, gêneros, idades e posições sociais. Sabemos como o país ainda vive uma série de contrastes sociais que foram agravadas com a queda do bloco socialista (década de 1990), que deu origem a crise econômica que perdura até os dias atuais e que colabora com o aumento das desigualdades.
Com isso, a investigação tem como principal objetivo, complexificar, contextualizar e analisar os discursos e significados produzidos por diferentes grupos sociais daquele país sobre as representações construídas socialmente, em especial sobre as rupturas e ao mesmo tempo as contradições impostas por um cenário onde o nacionalismo cubano apresenta disjunções com tais processos de abertura social. Sendo assim, estão imbricados nesta investigação aspectos das relações raciais, de gênero e ainda de hábitos de consumo.