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Resumen de ponencia
Palcos brasileiros ecoando decolonialidades: cosmovisões e estéticas outras na música popular brasileira

*Liliane Braga
*Valeria Graziano



A cena musical brasileira tem sido “invadida” por artistas que, a partir de construções identitárias contra-hegemônicas, subvertem a lógica de universal-abstrato imposta pela matriz colonial de poder euro-ocidental-patriarcal-cristã e vêm consolidando estratégias de resistência e descolonização estético-política. Se nas décadas anteriores a música brasileira foi marcada pela presença de movimentos de afirmação identitária racial e de gênero, a chamada Nova Música Popular Brasileira tem sido caracterizada pela presença de artistas que questionam as fronteiras identitárias e desafiam as categorias raciais, sexuais e de gênero hegemônicas, colocando em tensão os sistemas de representação que fixam e naturalizam as diferenças. Ellen Oleria, Liniker, Linn da Quebrada, Johnny Hooker, Luedji Luna, e Assucena Assucena e Raquel Virgínia, da banda As Bahias e a Cozinha Mineira, são alguns nomes que compõem essa nova cena musical.

Posterior às primeiras gravações fonográficas realizadas por sambistas negros nos anos 40, quando dos primeiros passos da indústria fonográfica no país, os anos de 1970 assistiram à emergência de identidades racializadas auto-afirmadas, com artistas pró-ativxs em cenas como Black is beautiful, e de artistas representativxs de feminismos e identidades sexuais ambivalentes, como Dzi Croquettes e Secos e Molhados, grupos formados por homens, não necessariamente racializados, cuja estética corporal, a voz e a postura performática eram indicativas, naquele período, de transgressões sexuais.

Com as mudanças que passam a desmontar tal indústria em fins dos anos 90, ocasionadas com o avanço de tecnologias digitais e da internet, os anos de 2010 assistem à emergência de artistas cuja base advém de públicos fortalecidos em intersecção de sistema de comunicação mediado por grandes empresas capitalistas – entre elas, aplicativos como Spotify e Deezer – e seguidorxs diretos, via redes sociais digitais. Simultaneamente a gosto estético ativado pelo sensorial, tais públicos têm se conformado por afinidade ideológica, já que estes artistas representam as vozes de tantxs sujeitxs historicamente excluídxs, subalternizadxs e exploradxs ao denunciarem, por meio de sua arte, a persistência de sistema patriarcal e racista na sociedade brasileira.

Desse modo, a partir da análise das obras e performances artísticas dessxs sujeitxs que resistem na chamada diferença colonial (MIGNOLO, 2011), este trabalho busca identificar as estratégias político-estéticas que permeiam os processos de construíres identitários de artistas que compõem a atual cena musical brasileira, com vistas a compreender como suas identidades são afirmadas, negociadas, articuladas e posicionadas em torno a disputas simbólicas e de poder. Reflete-se acerca das possiblidades de descolonização do poder que emergem das práticas e discursos desses sujeitxs que, a partir de seus trabalhos artísticos e posicionamentos políticos, representam as mais diversas lutas pelo direito de ser, estar e habitar mundos outros.

Considerando que a divisão racial do trabalho imposta pela matriz colonial do poder às sociedades latino-americanas impactou não apenas relações políticas, econômicas e sociais, mas também construiu novas subjetividades, resultando em processos de identificação marcados por inferiorização, negação e desumanização imposta ao outro indígena e selvagem – ou em processos de construção do não-ser, nas palavras de Fanon (2005) -, entende-se que os (re)construíres identitários dessxs artistas precisam ser analisados a partir da colonialidade do poder como horizonte articulador de categorias hegemônicas tais como raça, gênero e classe e, de maneira mais específica, como construções articuladas à colonialidade do ser (SANTOS, 2010; WALSH, 2008) e à colonialidade cosmogônica (WALSH, 2012b).

Ademais, ao enfocar nas lutas empreendidas por sujeitos historicamente marginalizados e nas disputas e posições em torno a seus (re)construíres e ressignificares identitários, busca-se analisar como tais movimentos artístico-estético-políticos podem contribuir para reflexões teóricas sobre colonialidade do ser e colonialidade de gênero (LUGONES, 2014) em consonância com debates sobre estéticas decoloniais (MIGNOLO, 2014) .

O trabalho baseia-se em pesquisa interdisciplinar, a partir (i) da teoria crítica latino-americana, mais especificamente do pensamento decolonial; (ii) dos Estudos Pós-Coloniais; (iii) dos Estudos Culturais desde/sobre América Latina e, em especial, dos Estudios (Inter)culturales en Clave Decolonial, tal como propõe Catherine Walsh (2012a); e, ainda, (iv) das contribuições dos feminismos decoloniais.

São analisadas, de maneira específica, as obras e performances (i) das compositoras e intérpretes transexuais da banda As Bahias e a Cozinha Mineira, Assucena Assucena e Raquel Virgínia, que ganharam os palcos em 2015, quando a banda lançou o primeiro álbum, Mulher; com canções autorais que revelam o trabalho de desconstrução das fronteiras entre gêneros musicais e artísticos; (ii) da compositora e cantora negra e autodeclarada bissexual Luedji Luna (MOREIRA, 2018), que despontou no cenário musical em 2017 com o lançamento do álbum Um Corpo no Mundo, o qual, a partir de cosmovisões outras, aborda temáticas como a diáspora africana, migrações, racismo e emancipação; e (iii) da atriz, cantora, compositora e ativista negra e transexual Linn da Quebrada, que divulgou em 2016 suas primeiras músicas autorais, incluindo Enviadescer e Bixa Preta e tem como principal referência o funk.

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* Braga
Centro de Estudos Culturais Africanos e da Diáspora (CECAFRO-PUCSP). São Paulo, Brasil

* Graziano
Centro de Estudos Culturais Africanos e da Diáspora (CECAFRO-PUCSP). São Paulo, Brasil