Entre os inúmeros limites e contradições apresentadas pelo agronegócio, destacamos: o aumento da pobreza no campo e na cidade decorrente do êxodo rural e do inchaço dos grandes centros urbanos; os pacotes tecnológicos que “amarram” os pequenos agricultores familiares à lógica mercantil e anulam sua autonomia; a introdução do padrão “agrobiotecnológico” (sementes geneticamente modificadas e novos insumos químicos decorrentes da biotecnologia e dos avanços da genética e química fina, cujos efeitos sociais e ambientais, incluídos aqui a saúde humana são amplamente contestáveis); a mercantilização da agropecuária expressa na monocultura e na produção de commodities; e o tratamento da fome como uma questão descolada do plano político, favorecendo a permanência da estrutura fundiária atual, cujas bases remontam à concentração de terras, oriunda dos tempos coloniais. Esse modelo hegemônico, amparado pelas políticas públicas destinadas ao campo brasileiro, tem arrastado consigo grande parte dos pequenos produtores (que o Estado, ideológica e homogeneamente, denomina de “agricultores familiares”) via o discurso da modernização da agricultura. Diante de tal cenário, a Agroecologia tem se apresentado como uma resposta a esses limites e contradições do agronegócio e das políticas públicas de modernização da agricultura, pois vem se consolidando como alternativa ao padrão agrícola hegemônico ao articular e ampliar a sua luta com bandeiras como a Reforma Agrária e a Soberania Alimentar. Como parte deste cenário, propomos apresentar um panorama dos conflitos e resistências vivenciados pelos camponeses agroecologistas do município de Irati (Paraná/Brasil), assim como relatar a experiência de construção de conhecimento e ações desenvolvidas junto ao Projeto de Extensão Feira Agroecológica (UNICENTRO). Nosso enfoque é refletir sobre essa experiência em extensão universitária que se baseia na metodologia da investigação-ação-participativa e, a partir da agroecologia, nos permite realizar o diálogo de saberes (científicos e populares). Para que, para quem, com quem e como fazemos ciência e exercitamos o tripé pesquisa-ensino-extensão? Desta maneira, a agroecologia, como prática e conhecimento, se apresenta como protagonista da resistência ao avanço do capitalismo no meio rural. E, via a promoção de uma ecologia de saberes que buscamos, diferentes sujeitos envolvidos na agroecologia, resistir também epistemicamente explicitando nossa crítica à racionalidade econômica do paradigma hegemônico de ciência, moderna e ocidental, que hoje, privatizado e orientado para o produtivismo demonstra limites e fragilidades para dar respostas ou encontrar saídas para a crise civilizatória que vivenciamos (Boaventura de Souza Santos apud CARNEIRO et al, 2015, p. 198). O Projeto Feira Agroecológica é um projeto de extensão, cuja iniciativa partiu de uma equipe multidisciplinar de professores da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO) e se encontra no seu sétimo ano de existência (2016)1. O principal objetivo do projeto é a promoção de um espaço onde se promova tanto a comercialização de alimentos agroecológicos (in natura e processados) e produtos artesanais das famílias camponesas, assim como o diálogo e a troca de experiências e saberes entre a universidade e a comunidade. Neste sentido, metodologicamente nos pautamos na integração entre pesquisa, ensino e extensão, articulando instrumentos como o levantamento bibliográfico, documental e pesquisa de campo, com atividades de formação dentro e fora da universidade e envolvendo agricultores, consumidores, alunos, funcionários e professores. Por sua vez, os feirantes participantes do projeto, ao adotarem práticas agroecológicas, definem uma posição que faz frente ao modelo hegemônico de agricultura imposto pelo agronegócio e conduzem uma forma de vida que nos desafia constantemente a repensar a pesquisa e a extensão que realizamos no meio acadêmico – agora com mais espaço para a participação do processo junto a eles. Cabe apontar que a Agroecologia na região Centro-Sul do Paraná passou por um processo de criminalização devido à Operação Agrofantasma, deflagrada no ano de 2013 e que ocasionou na prisão preventiva de agricultores em Irati. Desde então, este grupo de agricultores vem procurando reconstruir a Agroecologia, com a adesão de novos produtores. Tal processo vem se constituindo como desafio para a Associação dos Grupos de Agricultura Ecológica São Francisco de Assis, para os agricultores do Núcleo Monge João Maria (Rede Ecovida de Agroecologia) e para as diversas entidades parceiras (a exemplo do Instituto Equipe de Educadores Populares; de professores do Instituto Federal; do Movimento Aprendizes da Sabedoria; e de alguns projetos e programas de extensão da UNICENTRO) que têm buscado construir uma articulação de apoio e fortalecimento da Agroecologia na região. Assim, por meio da metodologia da investigação-ação-participativa, em um movimento de espiral contínuo, o saber popular e a ação política das bases sociais pautam as intervenções do projeto de extensão “Feira Agroecológica”, que por meio da ecologia de saberes produz um novo conhecimento popular agora restituído sistematicamente e este, por sua vez, nutre e aprofunda o conhecimento científico. Trata-se da produção de uma ciência engajada, em que a teoria deixa de ser elaborada no plano abstrato e contemplativo para se inserir nos moldes do concreto (VASQUEZ, 2007 apud CARNEIRO et al, 2015, p. 208).