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Resumen de ponencia
Experiência fotográfica: conexões entre arte, política e violência de gênero

*Angelica Luersen
*Murilo Cavagnoli



Este texto propõe, a partir do relato e discussão de uma experiência fotográfica, analisar as conexões entre arte e política, considerando as potencialidade da imagem, de sua produção e da experiência estética engendrada em exposições, para a problematização da violência de gênero. As desigualdades de gênero, no Brasil, são atravessadas pela persistência de um modo de subjetivação hegemônico que situa o universo feminino em um lugar de assujeitamento e incapacidade, reiterando como naturais práticas violentas perpetradas contra mulheres e arranjos identitários cristalizados, que impedem transformações. As relações de poder assim corroboradas atravessam o cotidiano de mulheres em distintos lugares sociais. Considerando as contribuições de Deleuze e Guattari acerca da subjetivação como movimento engendrado no entrecruzamento de instituições diversas, de Foucault sobre as relações de poder como capilares e coladas a dispositivos biopoliticos/disciplinares, e a perspectiva de Ranciere na análise das relações entre estética e política, nosso objetivo é apresentar as potencialidades da intervenção fotográfica para a problematização das desigualdades e da violência de gênero.
Considerado a fotografia como arranjo estético entre elementos diversos, que na imagem podem coabitar o mesmo plano de forma heterogênea, a situamos em diálogo com uma compreensão da arte no “regime estético das artes (Ranciere, 2012). No regime estético, próprio a expressão artística do século XX e XXI, encontramos a possibilidade de uma expressão estética que não tenha sua poiesis restrita a techné e as normas das belas artes. A característica da arte no regime estético é justamente sua capacidade de investir na montagem de um plano ficcional, enquanto apresentação de realidades outras, que perturbem os consensos sobre a natureza das relações sociais, das identidades e das capacidades de distintos sujeitos situado sem comunidade. A arte, desta forma, pode no regime estético tocar o político justamente por perturbar o consenso entre as formas de ver e de sentir, situando o expectador, assim como o criador, no livre jogo entre pensamento e sensação, tensionando verdades estabelecidas por um modo naturalizado de partilha do sensível e promovendo desentendimentos.
Metodologicamente, a produção de imagens aqui proposta e sua circulação orienta-se por uma leitura cartográfica da realidade. A cartografia, proposta por Deleuze e Guattari como forma de incursão a uma realidade rizomático, propor que se acompanhem e se produzam processos de subjetivação no curso de uma intervenção/investigação. Cartografar significa, portanto, habitar um território existencial que pode ganhar consistência e visibilidade à medida em que é percorrido. A fotografia, neste caso, é compreendida como um dispositivo de intervenção, que faz ver e falar sobre a realidade que se experimenta enquanto se produzem imagens. Esta abordagem, embasada em uma perspectiva construtivista da realidade, permite tomar a arte como motor de ressignificações, a medida que a experiência em curso permite a emergência de novos olhares, a noções com novas forças de subjetivação, presentes em discursos, práticas e relações até então impossíveis.
Considerando estes princípios, foram convidados fotógrafos distintos a uma incursão a campo voltada a despertar um olhar que transforme o ponto de vista sob o qual é observada a questão da violência contra a mulher, estimulando a não violência e a atitude proativa de todas as pessoas envolvidas. Esse foi o eixo norteador do concurso fotográfico "Violência contra a mulher: um olhar anterior”, promovido pelo Grupo de Apoio à Prevenção à Aids e Defesa dos Direitos Humanos e Sociais (GAPA Chapecó ). Do concurso se originou uma exposição fotográfica com imagens de 11 fotógrafos e fotógrafas de quatro estados brasileiros e do Distrito Federal e teve a curadoria das Jornalistas Angélicas Lüersen e Rachel Kleinubing. Na curadora da exposição visualizou-se a possibilidade de criar um material gráfico impresso para enviar para escolas, entidades e organizações. No verso das fotografias, palavras extraídas dos textos de argumentação dos fotógrafos ajudavam no direcionamento das discussões. Em todas as etapas da proposição, buscou-se sensibilizar o público de que a mudança do quadro se dá no momento exato em que o olhar honesto, isento de julgamento, a tomada de decisão, a atitude, o posicionamento, a confiança e o apoio, são capazes de evitar que se chegue à violência. Além de que, o envolvimento de artistas visuais na produção artística sobre a temática resultou em imagens que instigam a reflexão, sem, no entanto, fazer uma apologia à violência. A exposição percorreu as cidades de Chapecó, Xanxerê e Florianópolis, em diferentes espaços e atingindo um público diversificado.
Intervenções como esta que aqui relatamos, se multiplicadas, podem tensionar o arranjo micropolítica que perpetua práticas naturalizadas de violência, e impede a percepção do feminino em sua multiplicidade. Investir na visibilidade do corpo feminino e de suas marcas sob perspectivas outras, permite a emergência de desentendimentos, que tocam o plano ao mesmo tempo estético e político determinando aos modos de partilha do sensível de uma comunidade situada. Esta incursão à multiplicidade é fundamental, pois a violência não se configura como uma entidade singular, mas sim, em diversas ramificações de comportamentos e constructos que afetam o outro em diversos níveis. Encarando as violências sob essa perspectiva, torna-se mais fácil visualizar suas implicações na vida dos sujeitos, mais especificamente nesse caso, das mulheres.
Há na fotografia um potencial que os textos escritos desconhecem. Isso porque a universalidade de acesso à informação que a imagem possibilita amplia seu alcance e, sobretudo, provoca no observador a interpretação do texto visual. Quando um artista, um fotógrafo ou um amador produz determinada imagem há uma intencionalidade e também um desejo de comunicar algo, por mais simples e direta que seja essa comunicação. O que não se ‘controla’ exatamente é a interpretação, o sentido final da visualidade. Esse ponto, exatamente, apresenta a tônica da fotografia.
O recurso da fotografia como instrumento para produção de uma experiência estetica-política, como vemos nos trabalhos de Titoni (2015) e Maheirie (2015), permite a composição para a expressão dos modos de vida, das relações e da compreensão de si e do mundo. O trabalho estético da fotografia possibilita, ainda, que sejam gerados regimes de visibilidade distintos daqueles acessíveis por meio da palavra, pela apresentação de temporalidades e espaços inéditos. A mediação da imagem e a produção de discursos a partir do fazer fotográfico, portanto, não traça apenas uma representação da realidade anterior a pesquisa, mas permite que o próprio ato de ver e registrar transforme o contexto e seus significados compartilhados. A fotografia, assim, atua como dispositivo de intervenção, permitindo a expressão de recortes singulares da realidade, de forma dialógica.





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* Luersen
Universidade Comunitária da Região de Chapecó - Unochapecó. Chapecó, Brasil

* Cavagnoli
Universidade Comunitária da Região de Chapecó - Unochapecó. Chapecó, Brasil