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Resumen de ponencia
“LOS HERMANOS Y LA INVASIÓN”: CONSIDERAÇÕES SOBRE UMA PROPOSTA DE PESQUISA SOBRE ARGENTINOS NA CIDADE DE BÚZIOS

*Alexandre Silva



Argentinos e a cidade de Búzios: entre ambos existe uma relação antiga e duradoura. Desde pelo menos os anos 1960 os turistas argentinos frequentam praia brasileiras como turismo de veraneio. Para além do fluxo de turistas, especificamente, precisamos colocar sob perspectiva o “evento histórico” que colocou a cidade de Armação de Búzios no mapa: a visita da atriz francesa Brigitte Bardot, em 1964.

Atriz, sex simbol, ícone de moda, personalidade: Brigitte Bardot era, naquele ano, tudo isso e, por conseguinte, concentrava em si uma carga de fama que movimentava a imprensa e que ditava tendências. E foi este o fenômeno que aconteceu no momento de sua visita a Búzios, até então uma pacata vila de pescadores, e a exibiu ao mundo. Já na segunda vez que voltou à cidade, no Natal do mesmo ano, já havia significativo aumento no fluxo de turistas, com a própria Brigitte notando a maior agitação presente na cidade. Bardot, em seu livro “Iniciales BB”, conta que no Natal de 1964 ficou hospedada em Búzios na casa do argentino Ramon Avellaneda.

Algumas décadas depois, com os anos de Ditadura na Argentina (1966-1973) e o endurecimento de direitos sociais e civis, ocorre um aumento no deslocamento de turistas argentinos para Búzios, sobretudo os mais abastados economicamente. Nos anos de 1977 e 1978, Charly García viveu em Búzios em companhia dos músicos David Lebón, Pedro Aznar e Oscar Moro. Juntos eles formariam a banda Serú Girán e a estadia em Búzios serviu de inspiração para composições e arranjos do que seria o primeiro álbum da banda: “Serú Girán”, gravado em São Paulo e lançado em Buenos Aires em 1978.

Já nos anos 1980, pouco depois, percebemos que os argentinos passam a investir economicamente no turismo em Búzios, adquirindo pousadas e fortalecendo o turismo hoteleiro na cidade, naquele momento pouco explorado em comparação com o potencial turístico da região. Apesar de um decréscimo no fluxo de turistas nos anos 1990 em função da economia fragilizada no governo de Carlos Menem (1989-1999), que implementou uma política de privatizações de empresas públicas, a presença argentina na cidade persistiu.

Como podemos ver, a presença de argentinos na idade pode ser remontada há, pelo menos, 50 anos. Tal presença é marcada não só pelo fluxo de argentinos comuns como também pela presença de proeminentes figuras no cenário musical e político deste país. Tal descoberta nos faz suspeitar de que a presença de argentinos na cidade de Búzios é marcada por processos históricos, sociais e estruturalmente próprios.

Nota-se que, além de turistas, alguns argentinos estabeleceram-se como moradores da cidade, seja em função do trabalho que possuem em pousadas e no comércio da região, seja porque decidiram residir por tempo indeterminado na cidade, tirando “férias por tempo indeterminado”. Ou, também, por um “mix” entre as duas situações sociais: decidem morar por um tempo na cidade e, enquanto isso, trabalham para que possam arcar adequadamente com seus gastos.
Uma outra forma de compreender o fluxo de argentinos á observando as redes sociais, como o “Facebook”, nos quais eles trocam informações sobre a cidade, assim como em blogs de turismo.

Nos contatos que estabeleci com argentinos que passaram pela minha vida e por alguns com quem mantenho laços de amizade, colhi informações que, ainda que desprovidas de metodologia específica à época, auxiliaram a construir um quadro geral de informações a respeito do fluxo de argentinos a Búzios.

Apesar dos frequentes relatos deste fluxo de turistas e moradores argentinos em Búzios em jornais e revistas, destacando o aspecto turístico deste fenômeno, não localizamos obras acadêmicas dedicadas a observar este fenômeno por suas peculiaridades próprias, as quais sejam de caráter histórico, econômico, nem pensando estas relações em rede. Das poucas obras acadêmicas localizadas a respeito de moradores argentinos em Búzios, notei que muitas estão interessadas em aspectos econômicos e turísticos e, em muitos casos, usam o constante fluxo de argentinos em Búzios apenas como exemplo ilustrativo para outras argumentações.

O que pretendemos, afinal, é: 1) compreender como são criadas, estabelecidas e mantidas as redes de contato entre os argentinos, tomando como categorias de análise a separação deles entre turistas e moradores; 2) analisar se tais redes de contato desembocam na criação de uma rede confidencial de relações, e de que forma esta rede se mostra funcional para o estabelecimento de novos turistas e novos moradores e 3) assimilar os processos de manutenção, criação, suspensão e vivência da identidade argentina na cidade de Búzios, levando em conta a relação entre os argentinos, em suas múltiplas categorias, e os brasileiros, num processo de aproximações e contrastes.

BIBLIOGRAFIA

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PEIRANO, Mariza. A favor da etnografia. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1995.
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* Silva
Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense PPGA/UFF. Niterói, Brasil