INTRODUÇÃO
Em tempos de boicotes e restrições a educação pública brasileira, pode-se dizer que a disciplina de Educação Ambiental e Cinema, ministrada para turma de Pós-Graduação do Programa em Ciências Ambientais e Conservação (PPG-CiAC) no Núcleo em Ecologia e Desenvolvimento Ambiental de Macaé, Universidade Federal do Rio de Janeiro (NUPEM/UFRJ), buscou unir os três pilares de sustentação das universidades, ensino-pesquisa-extensão, logo, fortalecendo o elo entre universidade e sociedade. Vivemos um momento de reconstrução do papel social das Universidades e Escolas públicas. Não existe mais lugar para a universidade enclausurada, de costas para as necessidades da sociedade, precisamos de universidades com maior foco na extensão que fomente as reflexões sobre como fazer ciência e o que é científico. Nesse sentido, os valores políticos e socioambientais devem ser priorizados a fim de promover a reflexão sobre os desafios atuais que vivemos em sociedade. A academia e as Escolas devem ter partido e ter como base o inconformismo e a esperança mobilizadora, como dito por Freire (1987), priorizando o diálogo da experiência vivida por educadores e educandos com a ciência. Acredita-se que este é o caminho para conseguirmos mudanças estruturais na sociedade e assim alcançarmos maior qualidade e quantidade educacional. A educação não é o único, mas certamente é um dos meios de atuação pelos quais nos realizamos como seres em sociedade (LOUREIRO, 2004), nesta mesma teia está a educação ambiental que incorpora a perspectiva dos sujeitos sociais permitindo estabelecer uma prática pedagógica contextualizada e crítica, que explicita os problemas socioambientais de nossa sociedade. Como objetivo principal o presente trabalho pretende estimular maior produção de projetos de extensão que envolvam produções audiovisuais e cinema, empregando esses recursos como meio de estabelecer diálogos e reflexão crítica aos envolvidos. Uma vez escolhido o tema, “O que é científico? ”, a turma se dividiu em grupos para encaminhar os processos de filmagem, fotos, roteiro, ilustração e edição. Foi uma excelente oportunidade de experimentar a articulação do conhecimento científico advindo do ensino e da pesquisa com o conhecimento popular dos entrevistados, todos moradores de Macaé/Rio de Janeiro. Logo, a partir da criação e elaboração do curta metragem, foi possível refletir e contribuir para a compreensão dessa temática. Conclui-se que a produção de filmes realizados de maneira participativa e com base na escuta sensível, pode ser uma excelente forma de educação ambiental e construção de conhecimento. Nesse sentido, essa abordagem deve ser vista como uma nova lógica do processo educacional que visa também sensibilizar os estudantes para os cuidados com os saberes produzidos, utilizando o cinema como recurso didático para contribuir à reflexão das questões socioambientais vigentes.
REFERENCIAL TEÓRICO
A “extensão compõe um dos três pilares do sistema universitário mundial, junto a pesquisa e ao ensino. Enquanto o ensino trata da ministração do conhecimento formal ou curricular, a extensão trata da difusão do conhecimento por meios e métodos extraescolares no contato direto dos educadores com os educandos, em seus lares e comunidades” (AQUINO, 2010).
Ainda segundo o autor,
O seu desafio é o de criar estratégias que coloque em prática parcerias, estimulando pesquisas cujo caráter fundamental seja útil a sociedade e agora, também, ao meio ambiente, ameaçado pelo atual modelo de desenvolvimento (AQUINO, 2010, p.24).
Frente a esse cenário, observa-se que as exigências sociais estão vinculadas a uma visão de mundo construída a partir de uma nova concepção de educação alinhada às questões ambientais, capaz de promover a formação de personalidades ambientalmente solidárias, mediante a aproximação da prática pedagógica ao processo de construção do conhecimento (ARAÚJO, 2004).
Para Araújo (2004), a interação ser humano/ambiente/conhecimento está evidenciada nos trabalhos de Freire ao questionar a concepção “bancária” de aquisição do conhecimento e ao propor novas bases para a sua aquisição ou a tomada de consciência, introduzindo a necessidade da dialogicidade no processo educativo formal (ARAÚJO, 2004, FREIRE, 1987).
De acordo com Freire, “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (FREIRE, 1987). “A pedagogia freireana, ao propor uma educação libertadora, traz uma rica contribuição teórica e metodológica para a prática da educação ambiental emancipatória quando procura despertar a consciência do educando por meio da problematização dos temas geradores pertencentes ao seu universo vivido” (LOUREIRO, 2004).
O que reforça pensamentos como os de Walsh e Maldonado-Torres, que nos lembram da importância de colocar no cenário, “uma perspectiva crítica da interculturalidade, que se encontra enlaçada com uma pedagogia e práxis orientadas ao questionamento e criação de condições distintas de sociedade, humanidade, conhecimento e vida, assumindo a perspectiva da decolonialidade” (WALSH, 2013). Acredita-se que o processo decolonial auxilia a práxis da educação ambiental crítica, partindo da compreensão de que a decolonização se trata de um projeto político-epistêmico que propõe formas de questionamento, “visando mudanças radicais nas formas hegemônicas de poder, ser e conhecer” (MALDONADO-TORRES, 2008).
Sendo importante ressaltar que a capacidade de provocar encantamento e de intervir na construção da visão de mundo, demonstra a eficiência do cinema como ferramenta utilizada para fins educativos. Pois o uso do cinema no processo educativo estabelece diálogos entre as imagens cinematográficas e a realidade vivenciada pelos educandos (SALIBA, 2003).
Dessa forma, partindo da premissa que para inserir as questões socioambientais no processo educativo o professor deve orientar o estudante a agir ativamente na sociedade, o cinema pode ser entendido como prática dialética que privilegia a união de diferentes áreas do saber à medida que possibilita o questionamento de valores e práticas sociais.
Nessa perspectiva, segundo Fuentes et. al, 2016, junto com as transformações responsáveis pelo surgimento da questão ambiental, também se inicia um processo histórico do qual emerge a ciência moderna. Para os autores, apesar da compreensão de que em nossa sociedade, ainda exista uma fragmentação dos “saberes científicos”, é na mídia televisiva e no cinema que a população é “informada” sobre as questões ambientais (FUENTES, et. al, 2016).
Em relação a importância da ciência, cabe citar o ponto de vista de Morin (2005), para o autor “a ciência deve reatar com a consciência política e ética. Segundo ele a ciência não é científica, sua realidade é multidimensional. Assim, a ciência é, intrínseca, histórica, sociológica e eticamente, complexa, e tem necessidade não apenas de um pensamento apto a considerar a complexidade do real, mas desse mesmo pensamento para considerar sua própria complexidade e a complexidade das questões que ela levanta para a humanidade” (MORIN, 2005, p. 9).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Entende-se como fundamental o fomento da interação entre as universidades e a sociedade, a vivência durante a construção do filme despertou a vontade de entender melhor quais são as necessidades da comunidade onde o NUPEM/UFRJ se insere, interagindo e transformando a realidade social desta área. E acima de tudo permitindo a transformação dos acadêmicos que devem estar abertos a oportunidade de expandir e ampliar seus conhecimentos para além do que é científico.
Conclui-se que deve ser maior o incentivo à produção de filmes e produções audiovisuais onde seja possível explorar os sentidos, com escuta sensível e percepção da situação real das comunidades de Macaé. De forma que exista aproximação entre as questões socioambientais referentes as comunidades e a UFRJ campus Macaé, como forma de explorar temas com viés da educação ambiental e extensão universitária. Tornando-se uma prática para educadores ambientais preocupados em desenvolver uma consciência e ação crítica sobre a realidade local.
REFERÊNCIAS
AQUINO, M., C. Extensão universitária em educação ambiental: as contribuições das redes sociais. Monografia apresentada à Faculdade de Educação e Comunicação do Centro de Estudos Superiores de Maceió. Maceió/AL, 2010. 56p.
ARAÚJO, M. I. de O. Revista brasileira de educação ambiental / Rede Brasileira de Educação Ambiental. – (nov.2004). – Brasília: Rede Brasileira de Educação Ambiental, 2004. 140 p.
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
FUENTES, N. M. M.; COSTA, R. N.; RUTA, C. Cinema e educação ambiental no Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba: Reflexões e práticas interdisciplinares e transversais. Educação & Sociedade. Campinas, nº. 136, 2016.
LOUREIRO, C.F. B. Revista brasileira de educação ambiental / Rede Brasileira de Educação Ambiental. – (nov.2004). – Brasília: Rede Brasileira de Educação Ambiental, 2004. 140 p.
MALDONADO-TORRES, N. “Sobre la colonialidad del ser: contribuciones al desarrollo de un concepto”, em CASTRO-GÓMEZ, Santiago & GROSFOGUEL, Ramon (coords.) El giro decolonial: reflexiones para uma diversidad epistêmica más allá del capitalismo global. Bogotá: Siglo del Hombre Editores; Universidad Central, Instituto de Estudios Sociales Contemporáneos, Pontificia Universidad Javeriana, Instituto Pensar, 2008.
MORIN, E. Ciência com consciência. Ed. revista e modificada pelo autor - 8 ed. - Rio de Janeiro: Bertrand. Brasil, 2005. 350p.
SALIBA, M. E. F. Cinema contra cinema: o cinema educativo de Canuto Mendes (1922-1931). São Paulo: Annablume; Fapesp, 2003.
WALSH, C. Interculturalidad crítica y (de)colonialidad: ensayos desde Abya Yala. Serie Pensamiento decolonial. Quito: Abya-Yala, 2013.