Esta pesquisa pretende contribuir com a reflexão teórica sobre as temáticas de gênero e raça, a partir da leitura literária das canções de Chico Buarque de Hollanda, visando à identificação da relação entre estudantes/leitores e os temas apresentados, como violência de gênero, machismo, racismo, colonialidade e diversidade sexual. Acreditamos que nas instituições de ensino, presenciamos práticas culturais que reproduzem as desigualdades de gênero e o preconceito de cor, práticas essas que reforçam a discriminação nas relações cotidianas dentro da escola. Todavia, esse mesmo espaço também pode ser capaz de possibilitar uma formação de gênero menos discriminatória e respaldada nos princípios da equidade. Entretanto, o ensino de literatura, a despeito de padecer de devida e necessária atenção em nossas salas de aula, pode oferecer lentes necessárias a enxergar – através do protagonismo da leitura – caminhos a desviar resistências.
Nesse sentido, optamos por um fundamento interdisciplinar com os estudos sobre leitura de Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser (apud LIMA, 1979), Maria da Glória Bordini e Vera Teixeira de Aguiar (1993); os estudos acerca de identidade e gênero de Ari José Sartori (2008), Guacira Lopes Louro (2003), Heleieth I. B. Saffioti (2004), Joan W. Scott (1995), Marília Pinto de Carvalho (2009), Simone Beauvoir (1970), Stuart Hall (1987); as análises agudas de Aníbal Quijano (2001) e Kabengele Munanga (1994) sobre poder, colonialidade e racismo, e as reflexões sobre os usos metafóricos da canção, em artigos de Leyla Perrone Moisés, Alfredo Bosi, Afonso Romano de Sant’Anna, Renaud Barbaras, Adauto Novaes e Fayga Ostrower.
Na realidade do contexto de sala de aula, a literatura tem sido estudada para fins moralizantes, no caso da escola básica, por exemplo, em que a leitura serve geralmente para incutir no aluno as noções estereotipadas e maniqueístas de bem-mal, certo-errado (KLEIMAN & MORAIS, 1999). A fim de apresentar-se como alternativa a essas práticas que se reproduz – ora através das leituras de resumos, ora por meio de esquemas de leituras de obras clássicas, tão convencionais no estudo do texto literário em sala de aula – é que esta pesquisa-ação se propõe a analisar as inter-relações entre a literatura e o leitor no espaço escolar a partir do “Sarau de Chico”. Um evento que ocorre desde 2013, reunindo estudantes e a comunidade escolar em apresentações lítero-musicais – baseadas em relatos de experiência. Esta ação é realizada no âmbito do Núcleo de Estudos de Gênero e Raça (NEGRa Mirella Sena) – uma iniciativa da Escola Técnica Estadual Professor José Luiz de Mendonça, em Gravatá, numa parceria com a Secretaria Executiva de Educação Profissional e a Secretaria da Mulher do Estado de Pernambuco. O Sarau de Chico, como ação pedagógica interdisciplinar, emerge dentre as variadas manifestações artísticas, conta com levantamento bibliográfico e uma pesquisa teórica específica permanente sobre a temática da leitura literária, com enfoque nas representações de gênero e raça. Tem como elementos de reflexão contínuos o caráter social proposto pelo compositor, em suas canções; identificar e discutir a polissemia presente em seus textos, sobretudo na construção dos ideais que fundamentam seu ideário artístico, enquanto arte-educador tem sido um dos mais privilegiados propósitos.
Podemos considerar que a música ocupa lugar privilegiado na história brasileira, à medida que atinge todas as camadas pela sua incomensurável contribuição à história do cancioneiro brasileiro, representando bem, com a sua poesia, um ponto de mediação entre diferentes classes sociais, culturas e etnias (NAPOLITANO, 2002, p.7). A música – geralmente – traduz os dilemas das nações, podendo ser considerada um veículo para os sonhos ou pesadelos da sociedade, como ocorre em A história de Lily Braun, que descreve a feminista alemã Amalie von Kretschmande; ou como nos versos heptassílabos metrificados e rimados que disseca o caráter de uma sociedade disposta a tudo, inclusive a hostilizar uma travesti, conforme representação na Ópera do Malandro em Geni e o Zepelim; Feijoada Completa, em que o eu-lírico apresenta seu viés machista e patriarcal; Olhos nos olhos, que fala da emancipação do feminino; O meu guri, que descreve a maternidade em um contexto de violência e vulnerabilidade social. Em As Caravanas, seu álbum mais recente, Tua Cantiga e Blues pra Bia nos convidam a refletir sobre padrões culturais e heteronormatividade.
Contudo, o Sarau do Chico, não tem intenção de restringir o conteúdo da disciplina de Literatura a canções populares, mas a de estabelecer mais efetivamente o letramento literário, como prática social que é, comunicando-se numa perspectiva dialógica em que se realize a promoção do entendimento da obra literária como meio de representação das contradições sociais e de transgressão das convenções, em particular naquilo que tange ao gênero, seguindo a teorização dos pesquisadores – anteriormente citados – acerca de gênero, diversidade e desigualdades na educação. Nesse sentido, a análise do caráter social proposto pelo compositor se dá por meio de oficinas que culminam em apresentações lítero-musicais (Sarau de Chico), de se discutem a polissemia presente nos textos, são realizadas rodas de leitura e diálogo à luz da pesquisa do pano de fundo histórico em que cada obra foi concebida, assim como sobre os constituintes estilísticos das canções A história de Lily Braun, Mil perdões, Mulheres de Atenas, Geni e o Zepelim, Feijoada Completa, Olhos nos olhos, O meu amor, Folhetim, Tua Cantiga, Blues pra Bia, O que será (Á flor da pele), O meu guri, Teresinha, Ana de Amsterdã, Com açúcar e com afeto, As Caravanas e Atrás da porta.
Ratificamos, pois, que a nossa proposta com esta pesquisa tem sido a de aprofundar a análise a respeito da natureza dessa relação autor/texto-leitor. Para tanto, centralizamos a investigação sobre um corpus restrito: a recepção à produção poética buarqueana, com enfoque no estudo de gênero, junto a estudantes do ensino médio, da Escola Técnica Estadual Professor José Luiz de Mendonça (Gravatá – PE), através do Núcleo de Estudos de Gênero e Raça (NEGRa), com apresentações musicais e rodas de leitura (CABRAL; MENDONÇA; XAVIER; JOSÉ, 2015).