Como resultado do modelo hegemônico de desenvolvimento, a crise socioambiental tem trazido grandes prejuízos a humanidade como deslocamento territorial devido aos efeitos das mudanças climáticas, ressurgimento de doenças infectocontagiosas, e insegurança alimentar. A luta dos povos pela sua identidade, manutenção de seu território e modo de vida, tem levado a uma grande discussão sobre o modo de produção de alimentos, as terapêuticas em saúde e a diversidade de saberes, ambiente para o fomento de uma nova epistemologia do conhecimento, área que segundo Boaventura, é uma das batalhas políticas mais importantes do século XXI. O sofrimento humano se manifesta tanto no campo como na cidade, e as consequências ambientais se traduzem em problemas de saúde, ficando clara a convergência entre os paradigmas da Agroecologia e da Saúde. O processo de participação popular no campo da saúde no Brasil se iniciou após a ditadura militar, com o processo de democratização que contou com representantes dos partidos de esquerda, apoiados por ONGs, movimentos sociais e diversos atores no campo do meio ambiente e da saúde, permitindo ter na Constituição Brasileira (1988), os compromissos com a Estado democrático de direito, a erradicação da pobreza, a redução das desigualdades sociais e regionais e, portanto, a promoção do bem de todos. Ao apresentar, como fundamento, o direito à saúde e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, ficou clara a ligação direta entre as dimensões sociais e ambientais, num contexto de participação da população. Neste contexto que se deu o processo de criação de um sistema público de saúde, universal e descentralizado (Sistema Único de Saúde/SUS), após a reforma da saúde. Desde então, houve um aumento gradual da participação social no campo da saúde coletiva, ocorrido em sua maior parte nos governos considerados de esquerda, conforme mostram o número, as formas de convocação e a diversidade de temas das conferências nacionais de saúde realizadas neste período. No entanto, o SUS, ainda não incorporou a complexidade e a sociodiversidade que compõem a sociedade brasileira, suas práticas e saberes tradicionais e populares, mesmo tendo sido criadas inúmeras políticas públicas nacionais neste sentido: a de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, de Práticas Integrativas e Complementares, de Promoção da Saúde, de Segurança Alimentar e Nutricional, de Atenção Básica, de Educação Popular em Saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde, e a de Saúde Integral das Populações do Campo e da Floresta. Nestes 30 anos de luta pela participação popular em saúde é possível identificar ganhos, limitações e desafios para o futuro.
A Agroecologia cresceu no Brasil, nos últimos trinta anos, inicialmente a partir do conceito de agricultura de base ecológica, e se agigantou para muito além disto, ligada fortemente as epistemologias do Sul, pensamento crítico e democrático. Tem fortalecido a luta por direitos como a reforma agrária, segurança alimentar, participação social, e outros relacionados com a importância da promoção da saúde e respeito a escolha terapêutico do usuário do SUS/paciente, como a valorização do trabalho das parteiras, benzedeiras, plantas medicinais. Em sua interface com as estratégias do desenvolvimento rural sustentável, busca o desenvolvimento endógeno, e pressupõe a participação popular com reflexão crítica para a transformação da realidade. Desta forma dialoga com o pensamento pedagógico representado pela corrente da Educação Libertadora no Brasil e América Latina (STAMATO, 2017). Portanto, a Agroecologia está muito além de técnicas ou processos de produção, é na verdade um processo inovador onde o paradigma da simplificação sendo substituído pelo paradigma da complexidade onde o autor afirma que as teorias científicas são “biodegradáveis”, se deterioram como os organismos vivos (MORIN, 2008). No Brasil, o uso e conhecimento de plantas medicinais muito rico antes da colonização portuguesa, devido a diversidade étnica dos indígenas e da diversidade biológica deste país imenso, sofreu enormes perdas com o extermínio e aculturação dos diferentes povos, e a devastação dos ambientes naturais. A valorização do conhecimento popular tem espaço no paradigma agroecológico, que vem se consolidando através de sua estreita relação com a nova filosofia da ciência, que deixa a visão neopositivista, tecnicista e superior aos demais tipos de conhecimento que sustentou o paradigma do desenvolvimentismo a todo custo, para dar lugar a uma ciência crítica.
Como experiências práticas da Fiocruz no campo da Agroecologia e Saúde, podemos destacar a trajetória do Projeto Profito (2006), na cidade do Rio de Janeiro fruto da parceria entre três associações de agricultores (Alcri, Agroprata e Agrovargem), teve como objetivo, apoiar a produção agroecológica, beneficiamento e comercialização de plantas medicinais e seus produtos. Instigados pela necessidade explicitada por um dos participantes: “Como ser reconhecido como agricultor pelo governo?”, os envolvidos no projeto seguiram os passos da educação popular de Paulo Freire, repensando as noções de mercado, as relações entre ciências e conhecimentos tradicionais e território. Mas sobretudo, compreenderam a necessidade de atuação em rede, para dar conta da complexidade de questões multissetoriais que enfrentavam. Com base na escuta e construção horizontal do conhecimento produziu uma pesquisa-ação sobre os modos de vida agrícolas, 18 oficinas teórico-práticas no método da Pedagogia da Alternância, que formaram 30 multiplicadores e originaram dinâmicas participativas inovadoras. Os multiplicadores implantaram em suas comunidades, Sistemas Agroflorestais Medicinais, que originaram produtos como sabonetes líquidos, pomadas, e drogas vegetais, comercializados em feiras agroecológicas e orgânicas, acompanhadas pela Rede Carioca de Agricultura Urbana e na Rede Ecológica (movimento social de consumidores conscientes). Apesar das conquistas, o mercado de plantas medicinais como atividade fomentadora de desenvolvimento sustentável, bem como seu acesso amplo aos usuários SUS, ainda não se tornou uma realidade no país. A apresentação da experiência do Profito e os entraves estruturais enfrentados pelo projeto têm como objetivo contribuir para a construção de iniciativas participativas que defendam a uso das plantas medicinais, como pratica potente em políticas públicas. Outro projeto de base popular realizado em parceria com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), foi o “Saúde Popular e Agroecologia”, realizado em 3 municípios do estado da Bahia, a partir da aplicação dos questionários e realização das coletas citadas por estas 180 pessoas, foram levantadas 600 etnoespécies de plantas, e 3000 usos medicinais. Nesta construção coletiva, as comunidades puderam revalorizar e registrar o conhecimento dos sábios guardiões do conhecimento sobre saúde em seus territórios. Todo este conhecimento deve ser revertido para emancipação e luta por direitos nas áreas de ambiente, saúde, educação e formação de políticas públicas nas diferentes esferas da sociedade.
Em 2016 ocorreram mudanças drásticas no cenário político, econômico e social do país, que a partir do “impeachment” da presidente eleita, que gerou um retrocesso histórico que abriu espaço para incertezas e inseguranças. A tomada de poder pelo grupo neoliberal, colocou em risco grandes avanços sociais e democráticos, impensáveis desde o término da ditadura militar. O agronegócio representado no congresso pela grande bancada ruralista, ganhou um enorme espaço no cenário brasileiro, fortalecendo as políticas que dão suporte ao uso indiscriminado de agrotóxicos, destruição de florestas para cultivo de monoculturas transgênicas e voltadas apenas a exportação, etc. O Ministério do Desenvolvimento Agrário, que criou políticas públicas que fortaleceram a agricultura familiar foi extinto, enfraquecendo programas como de Aquisição de alimentos, paralisando o inovador Programa Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, bem como o Programa Nacional da Sociobiodiversidade, entre outros avanços. Neste momento difícil, a necessidade de se organizar, intensificar os processos de formação, empoderamento, autonomia, e trazer a reflexão crítica do coletivo, em um trabalho de inserção em redes, é fundamental para a manutenção mínima dos avanços sociais e sonhos de transformação da realidade. Não é possível negar as distâncias existentes entre os diferentes atores desta imensa teia formada, e em constante tentativa de pasteurização pelo modelo hegemônico do desenvolvimento. Não poderemos ser ingênuos achando que este processo poderá ocorrer sem mediação das diferenças, reconhecimento e busca para diminuir os abismos cognitivos, em prol da equidade e construção de um desenvolvimento realmente sustentável econômica, social e ambientalmente. Como tentar construir a verdadeira cooperação, fundamentada no respeito e na dialética. Não se trata apenas de colocar em prática ferramentas e metodologias participativas, vai muito além disto, está no compromisso com a transformação da realidade e construção de um novo paradigma de desenvolvimento, que seja ambientalmente sustentável, e socialmente justo. Estas experiências, entre tantas outras no Brasil e no mundo, deve nos servir para reflexão da convergência entre “Saúde e Ambiente”, “Agroeocologia e Saúde”, do fortalecimento e importância da união dos diferentes conhecimentos existentes em diferentes culturas do hemisfério norte e sul, para construção de um conceito inovador de “Saúde Global” que atenda às necessidades da humanidade em todo o planeta de modo colaborativo.