O presente trabalho tem como objetivo analisar as imaginações geográficas associadas à teoria do desenvolvimento. Adotada por países latino-americanos, a teoria do desenvolvimento foi difundida em diversos países da região pela Cepal, consolidando assim a sua principal ideia-força: a de que o desenvolvimento destes países obedeceria, então, a critérios e/ou estágios diferenciados dentro de um espectro ou processo histórico já pré-determinado, visando a superação do subdesenvolvimento.
O imaginário associado ao desenvolvimentismo tem destaque quando naturalizamos a elaboração e difusão da teoria do desenvolvimento em detrimento das diferentes nações presentes no território. O processo de (des)ativação de territorialidades, a disputa retórica por parte dos sujeitos e suas ações práticas e discursivas – confrontadoras da lógica capitalista – são desdobramentos do processo contraditório do desenvolvimento. Representam, portanto, uma visão contra-hegemonica sobre o entendimento do lugar, visando articulações em diferentes escalas a partir dos processos de resistência, forjados pela lógica territorial.
A acumulação capitalista parece entrar em uma nova fase a partir da década de 1970, justamente no período onde o processo de industrialização ganha fôlego e começa a se expandir para um conjunto de territórios do espaço brasileiro. É neste momento que se constituem as bases, sob a atuação política dos governos militares, de uma transnacionalização da economia brasileira. Na esteira deste processo, três dimensões importantes destes acontecimentos encontram-se conectadas; a primeira refere-se à questão da dependência das economias latino-americanas diante do novo processo de acumulação, expropriador ou espoliador; a segunda refere-se aos Grandes Projetos de Investimentos (GPIs), respaldados pela reformulação do caráter regional, onde as “regiões” e seus respectivos territórios são inseridos numa lógica estranha e que parece vir cada vez mais de fora; e por fim, a terceira, mais recente e relacionada à institucionalização de projetos e processos políticos intercontinentais (a exemplo da IIRSA e da UNASUL), onde fica marcada a atuação de grupos e/ou coalizões transnacionais brasileiros que atuam para além das fronteiras políticas do Estado brasileiro visando a aquisição de novos mercados. Na pauta destas dimensões estariam entrelaçadas, então, três grandes escalas de análise dos objetivos políticos brasileiros sob novas concepções; uma relacionada ao desmonte (ou pelo menos o desmonte de suas intenções) de um Estado de Bem Estar Social e, da colocação em seu lugar, de um Estado mínimo; uma relacionada à emergência ou consolidação de importantes grupos privados nacionais (estatais ou não) e, por fim, uma relacionada à reconfiguração do sistema de poder no continente sul-americano, onde o Brasil assume, então, a posição de potência regional capital-imperialista.
Nossa interpretação geopolítica se encaminha, todavia, para uma leitura pós-estruturalista das relações de poder que não estejam restritas as esferas institucionais do Estado, ou seja, uma leitura que abarque as múltiplas geografias do poder, onde se busca a articulação de diferentes escalas e relações existentes nos territórios, sem que se faça a reificação destas mesmas escalas. Em síntese, o que buscamos é o desenvolvimento de um projeto metodológico dedicado ao trabalho de base e que alcance os projetos e anseios dos movimentos sociais nas suas demandas mais urgentes e respaldadas pelos Estados.
Acreditamos que nosso estudo se justifica pela relevância do entendimento do processo (anti)geopolítico em curso na região, tanto no que diz respeito à sua face hegemônica como naquilo que traz à cena novos protagonismos políticos. É de grande importância a compreensão da lógica capitalista em seus novos arranjos espaciais, oriundos do regionalismo aberto e/ou dos novos regionalismos. Ganha destaque em nossos estudos o papel exercido pelos movimentos sociais originados da lógica territorial, revestida, portanto, de novas práticas espaciais.
O mote de nosso trabalho consiste na exploração epistemológica dos três formatos de geopolíticas críticas segundo Ó TUATHAIL (2005), quais sejam; 1) as geopolíticas formais; 2) as geopolíticas práticas e 3) as geopolíticas populares. Nosso intuito é o de trabalhar com as relações do geo-poder, explicitadas pela relação direta entre poder, cultura e território. Acreditamos, portanto, no mundo das ‘imaginações geopolíticas modernas’ (AGNEW 1997) e em seus princípios epistemológicos norteadores.
Ainda neste prisma acima, entendemos que a geografia política contemporânea, envolta de suas revoluções paradigmáticas, nos enseja as possibilidades para ampliarmos os horizontes das interpretações acerca da produção do espaço, que por sua natureza, é política.
As imaginações geopolíticas modernas merecem, inclusive, uma periodização. Destacaríamos, sobretudo, três importantes eras geopolíticas; 1) as geopolíticas civilizacionais; 2) as geopolíticas naturalizadas e 3) as geopolíticas ideológicas. Cada uma destas eras resguarda consigo um arcabouço conceitual e representacional do entendimento geopolítico do mundo. No nosso propósito é o entendimento destas articulações no mundo contemporâneo. O entendimento de como podem os movimentos sociais e suas demandas serem incorporadas nos projetos hegemônicos.