A atual fase do extrativismo mineral assume características novas por suas modalidades tecnológicas, produtivas, de investimento e de comercialização. Na América Latina intensificou-se, durante os últimos anos, a expansão de megaprojetos destinados a controlar a extração e exportação dos recursos naturais sem maior valor agregado. a entrada em uma ordem econômica e político-ideológica sustentada pelo grande aumento dos preços internacionais das matérias-primas e bens de consumo mais exigidos pelos principais países e potências emergentes, que gera vantagens comparativas no crescimento econômico, mas que produz novas assimetrias e desigualdades profundas nas sociedades latino-americanas. Do ponto de vista econômico e social, impulsiona um processo de reprimarização das economias; do ponto de vista da lógica de acumulação, envolve o aprofundamento da dinâmica da despossessão ou expropriação de terras, recursos e territórios e produz novas e perigosas formas de dominação e de dependência, com uma tendência para minar economias regionais a partir da insuficiente diversificação econômica.
Esse “Consenso das Commodities” carrega um fardo não só econômico mas também político-ideológico, que alude à ideia sobre o caráter irrevogável ou convincente da atual dinâmica extrativa, dada a conjunção entre a crescente demanda global por bens primários e os recursos naturais existentes na América Latina. O consenso funcionaria como um horizonte histórico-compreensivo no que diz respeito à produção de alternativas. Como resultado, todo discurso crítico ou oposição radical seria entendido como fundamentalismo ambientalista irracional. Insiste-se assim que o resultado final do extrativismo é positivo e que os impactos sociais e ambientais podem ser controlados ou compensados; reconfiguram-se os discursos sobre o desenvolvimento, em que comunidades locais devem aceitar os sacrifícios para alcançar supostas metas nacionais, e em troca lhes são oferecidas medidas compensatórias, que podem ir desde programas focalizados de assistência social à conversão dos atingidos em sócios/parceiros das empresas.
A dominação territorial dos grandes empreendimentos extrativistas é estruturada em sistemas de repressão entendidos não apenas como produtores de violência, opressão e perseguição, mas também de imposição hegemônica da percepção de uma determinada ordem “naturalizada” que pretende gerar um efeito totalizante e de caráter inamovível. Uma vez estabelecida, por sua constituição dialética, no entanto, observa-se resistência e/ou conformismo dos dominados que se veem extraídos do seu modo de vida e bens. Essa dominação, pois, não se perpetua continuamente em terreno pacífico: dadas as resistências que suscita, as elites dominantes precisam desenvolver ações incessantes no sentido de manter e de ampliar seu controle material e influência simbólica em um permanente jogo de micro avanços e recuos presentes nas relações de poder. Mostra-se assim insustentável qualquer concepção política estática de naturalização e de legitimação social. Os conflitos e a constituição de movimentos sociais organizados vêm a nos mostrar que o horizonte neoextrativista é fortemente contestado e constrangido por meio de lutas locais, nacionais e internacionais e que a “violência da fetichização” não se realiza de forma plena e absoluta.
O avanço expropriatório nos territórios corresponde a um foco de violência estrutural que resvala em conflitos cada vez mais frequentes, intensos, com múltiplos episódios de repressões, assassinatos, perseguições de lideranças, criminalização e judicialização. Observa-se a consagração de um novo regime – de direito e de fato – que implica a atribuição assimétrica de direitos entre populações e corporações, cujos efeitos excedem amplamente as distorções verificáveis no campo das regras formais dos sistemas representativos e republicanos, apontando para uma deterioração institucional da democracia. A profundidade desse processo destrutivo explicita o papel central e decisivo que tem a violência como epicentro generativo, como meio de produção e de legitimação da ordem colonial, sendo uma violência que se institucionaliza em ‘formas de vida modernas’.
Intimamente ligada aos processos sócio-políticos geradores de violência e de opressão, aparece a noção de sofrimento social como experiência ativamente produzida e distribuída no interior da ordem social, resultante do que o poder político, econômico e institucional produz nas pessoas e, reciprocamente, de como estas mesmas formas de poder influenciam as respostas dessas pessoas aos problemas sociais. Pretendemos abordar alguns modos de resistência experimentados pelas comunidades afetadas por grandes empreendimentos extrativistas e realizar um delineamento analítico a partir das falas de representantes desses movimentos a respeito das violências que lhes são impostas. Para tanto, foram analisadas narrativas trazidas por representantes de movimentos e grupos envolvidos em lutas contra grandes empreendimentos extrativos na Amazônia e cerrado brasileiros, além de relatos sobre a atuação e disputas envolvendo brasileira Vale em Moçambique. Com o intuito de adensar a análise dos depoimentos, foram realizadas observações in loco nos estados brasileiros do Maranhão, Minas Gerais e Pará e em Moçambique.
Em geral, as narrativas sobre as resistências ao processo de sofrimento e desestruturação social provocados transitam na ambiguidade de sentidos. Percebe-se uma multiplicidade de formas e linguagens de luta e distintas temporalidades envolvidas, que muitas vezes revelam-se em discursos e jogos de corpos aparentemente velados, o que nos impõe a complexificação do entendimento sobre o que é passividade, aceitação ou contestação. Modos de insubordinação que acionam desde as dimensões culturais e artísticas, capazes de conferir um pouco mais de ludicidade à luta, tornando-a mais palatável às subjetividades nela imersas, às possibilidades de participação institucional-democráticas e até aquelas que expressam situações-limite de risco e exposição dos corpos dispostos a um confronto mais radicalizado.