Este texto apresenta a noção de uma Antropoética do Corpo em Movimento, enquanto perspectiva em construção, a qual norteia a pesquisa acadêmica de mesmo nome. Nesta investigação, almejo tecer narrativas, por uma Epistemologia dos Saberes do Corpo, que caminhem junto ao movimento de desobediência epistemológica e descolonização do conhecimento, e, em busca de uma legitimação em relação às qualidades e características específicas do campo das artes do corpo em movimento, e de suas demandas, especialmente no que concerne à pesquisa científica. Parto do princípio de que, frequentemente, pesquisas relacionadas aos saberes do corpo e do movimento expressivo, esbarram na inadequação dos instrumentos, referenciais, padrões e paradigmas hegemônicos da ciência moderna.
Tendo a corporeidade e a prática cotidiana – na educação somática e na dança criativa moderna e contemporânea – como território para o desenvolvimento da investigação, assumo o desafio de uma perspectiva e de uma narrativa que incluam, entre outros, a sensibilidade, a percepção, a subjetividade, a cinestesia, o afeto, a intuição e a criatividade – enquanto elementos metodológicos e epistemológicos. Tecendo e entretecendo reflexões sobre a construção do conhecimento na perspectiva dos saberes do corpo e da corporeidade – no universo das artes e práticas do movimento expressivo humano – e com o objetivo de enfatizar o valor desses e de outros saberes, negados e silenciados ao longo de séculos, emerge a urgência de reivindicar o reconhecimento de sua importância fundamental para o desenvolvimento do ser humano, das ciências e das sociedades, dentro de uma perspectiva ecológica (SANTOS, 2009) e trans-moderna (DUSSEL, 2005). Essa investigação pretende exercitar o olhar, as reflexões e práticas colaborativas nesse sentido, especialmente, em relação ao potencial de desenvolvimento das faculdades humanas e, mais especificamente, do que concerne o rumo e a prática das pesquisas acadêmico-científicas na atualidade. Vale destacar que acredito na importância fundamental e no potencial desses saberes – secularmente marginalizados – para o desenvolvimento da humanidade, da educação, da cultura e das ciências e para a construção utópica e desejável de processos de trans-formação do mundo (FREIRE, 2000) e das sociedades, rumo a um planeta sustentável e de práticas ecológicas.
Atualmente, constituímo-nos tanto mais modernamente “civilizados” quanto mais alienados e exilados da natureza e de nossa própria natureza. Falo do corpo colonizado e subalterno, esse corpo fora da sua própria natureza, organicidade, liberdade e potência. Sim, o corpo civilizado – nessas alturas da história humana – é o corpo agonizante, o corpo sobrevivente à colonização, submetido à lógica do capital, alienado de suas raízes, alienado de si, alheio à sua própria natureza. O sujeito-objeto. O corpo fora do corpo. O corpo-sujeito-despedaçado. Nessa investigação quero reencontrar o corpo, o meu corpo e o corpo humano em seu potencial pleno, o que seja a sua própria natureza e corporeidade – enquanto potência de liberdade e de existência – subjetiva, real e coletiva. No diálogo com teorias e práticas que relacionam ciência, arte e educação, no fluxo dos movimentos de descolonização e emancipação do conhecimento e entoando os anseios do sul global, esta investigação visa uma imersão no território existencial dos saberes do corpo em movimento, sensível, consciente e criativo – fundamentalmente através da experiência e da performatividade, na perspectiva da prática como pesquisa (practice as research) e da “pesquisa performativa” (HASEMAN, 2006).
Mergulho nessa investigação menos como uma proposição inter, multi ou transdisciplinar, mas fundamentalmente, como exercício de um radicalismo metodológico e epistemológico no sentido de uma tendência à "indisciplina radical" (Greiner, 2005), em busca de outras perspectivas, novos caminhos e outras lógicas, que não as hegemônicas. Em busca de entretecer uma narrativa original e descolonizante que expresse e ressoe, com acuidade apropriada, o universo dos saberes do corpo em movimento sensível, consciente e criativo. Vivencio, portanto, essa investigação como uma necessidade urgente e emergente, como uma prática política de resistência, como um protesto performativo e, especificamente, como um desafio – utópico – no sentido de contribuir para uma transformação e uma desconstrução radical de paradigmas, no que concerne as pesquisas acadêmicas, especialmente nas artes do corpo em movimento e nas ciências da educação. E, porque não dizer, no que diz respeito à uma perspectiva mais ecológica e humanista das sociedades, incluindo idealmente também, as ciências humanas e as ciências em geral.
Partindo desse lugar utópico e pleno da minha corporeidade (já desde menina revolucionária), como já disse, o território fundamental desta pesquisa é o universo prático dos saberes do corpo em movimento, assim como a construção do conhecimento a partir dessas práticas, desses saberes e do universo da corporeidade e do movimento expressivo. Nesse sentido, é imprescindível assumir e incorporar o desafio da minha própria descolonização, corporal e intelectual, enquanto sujeito pesquisador: - Em busca de manter ao máximo a abertura e nutrir a possibilidade de me permitir arriscar uma prática no sentido de descolonizar os ditos vícios e habitus coloniais do meu corpo e pensamento, docilmente (de)formados e subalternamente colonizados, ao longos dos anos de existência do real da sociedade capitalista, materialista e consumista, em que somos nós objetos do nosso próprio consumo... - Com necessidades, desejos e anseios artificiais, engendrados pela mídia e pela lógica moderna implantada e hegemônica em nossos imaginários... - Em busca de me liberar, minimamente, ao menos dos mais eficazes grilhões colonializantes que incorporamos/incorporei, especialmente depois do retorno à academia.
Questionando como lidar com essa colonização/descolonização da minha corporeidade e existência, busco caminhos para expressar os saberes do corpo em movimento – na construção de uma tese de doutorado – com o desafio da desconstrução dos parâmetros e cânones, das práticas hegemônicas e dos habitus consolidados que, creio, limitam e determinam uma tendência à atrofia das perspectivas e do desenvolvimento das pesquisas acadêmicas, de modo geral, e, também em mim. Para tanto, já era claro, desde o início do processo, a necessidade de caminhar em busca de metodologias e narrativas próprias, que emerjam da vivência corporal e corporificada, tendo, portanto, a prática, a experiência e a performatividade, assim como os encontros, o contato, os afetos, a intuição e a criatividade como estratégias metodológicas, rumo a uma epistemologia tecida no movimento de construção de conhecimento e de saberes do corpo, em movimento sensível e integrado. Caminho e me movimento, portanto, também em busca da linguagem apropriada, da forma narrativa precisa ou imprecisa que me possa abrir a caixa de pandora – cujos males já reinam no planeta – e resgatar a esperança para, senão contribuir com uma virada significativa no meio acadêmico e na sociedade, ao menos ser capaz de expressar os saberes do corpo com a vivacidade, o tom e o teor da vida – próprio a esses saberes.
Escrevo, assim, o presente texto, almejando cultivar reflexões inspiradas na noção de desobediência epistemológica, na ordem do indisciplinar e no desafio da descolonização, que há que passar, claro, antes de tudo, pela descolonização do corpo/imaginário/pensamento do próprio sujeito pesquisador. Um desafio em contínuo movimento de desconstrução e derivas – tendo a própria performatividade durante a investigação como prática indisciplinar e descolonizante e como elemento de resistência – e sempre como uma vivência prático-teórica que se constrói como trabalho co-criativo e inter-relacional, em processo. Atualmente um momento de rastejar e engatinhar no caminho, desse corpo que começa a escrever e se inscrever, no campo acadêmico.