Este resumo apresenta uma breve discussão sobre os movimentos sociais urbanos protagonizados pelos jovens brasileiros no século XXI, mais especificamente entre 2013 e 2016, quando ocorreram ondas de protestos de dimensão nacional no Brasil, no contexto de maior evidência do aprofundamento da crise capitalista e da crise política no cenário nacional, em suas possíveis correlações.
A explosão das ondas de protestos e mobilizações com ampla composição de jovens surpreendeu as sociedades, principalmente, pela retomada sucessiva da juventude às ruas em grande volume e em diversas partes do mundo, em contextos sociopolíticos similares. Suas repercussões no campo ideológico, político e organizativo ainda são pouco compreendidas e estão em processo de análise, afinal, trata-se de um fenômeno recente e complexo que tem reaquecido os estudos sobre movimentos sociais.
Nos referimos aqui, especificamente, à explosão de dois intensos protestos ocorridos em todos os centros urbanos do país, as Jornadas de Junho de 2013 e o movimento de ocupação das escolas de ensino médio, em 2016, a Primavera Secundarista.
Estes movimentos contestatórios, amplamente protagonizados pela juventude, surpreenderam os governos, a sociedade, a mídia e os movimentos sociais, não só pela força e capilaridade de mobilização, como indica Duarte (2016), mas, especialmente, pelo que apresentam como novo ou reinvenção, principalmente quanto às formas de associação e organização política das lutas.
Os movimentos juvenis desses novos e sombrios tempos vêm expressando não só as tensões do sistema político democrático, mas, ainda que de forma incipiente e difusa, vêm explicitando a crise do modelo capitalista de civilização, através do revigoramento da organização de lutas já consolidadas social e politicamente.
Por meio de protestos, marchas e ocupações de espaços públicos, os movimentos massivamente juvenis, através organização política para ação direta, como sugerem pensar Abers, Serafim e Tatagiba (2014), tem como viés difundir os conflitos e as demandas sociais para provocar negociações com o sistema político, a nosso ver, possivelmente, afirmando sua autonomia em relação ao Estado e demais instituições democráticas.
Como ponto de inflexão dessas novas resistências sociais, as formas de organização política têm seguido a tendência de distanciamento das clássicas instituições políticas (partidos políticos e sindicatos), tecendo assim maior articulação com grupos mobilizados em torno de coletivos urbanos, seguindo assim uma tendência global das lutas sociais no contexto da crise estrutural do capital.
A discussão sobre o caráter supostamente inovador dos movimentos sociais contemporâneos também tem seguido tendências de análises que atribuem aos novos recursos da modernidade, especialmente, às novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) conectadas à internet e às redes sociais digitais, a propulsão à reinvenção das formas de luta social no cenário atual, à medida que possibilitaram, de forma jamais vista, o acesso instantâneo à informação, entre notícias, acontecimentos e reprodução de narrativas, o que, para Queiroz e Medeiros (2015, p. 8), “[...] tornou-se um novo paradigma da formação dos referenciais utilizados pelos indivíduos em sua significação do mundo que os cerca”.
Entretanto, nesta reflexão, admite-se que as TICs contribuíram para o revigoramento da organização dos movimentos da juventude urbana, todavia, não como determinantes às possíveis mudanças da sua organização política, mas sim como ferramenta potente, ágil e mundializada de comunicação que colabora para uma ampla difusão de informações, assim como agrega distintos sujeitos e grupos à mobilização social das massas nos protestos e ocupações, o que possibilitou a esses movimentos sociais célere sensibilização popular e capilaridade territorial, mas, não necessariamente.
No caso brasileiro, acreditamos que os movimentos sociais, a partir de 2013, surpreendem a arena política de forma particular, pois o significado dessas manifestações recompõe o elemento da radicalidade da luta política, aspecto contido no contexto dos anos Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT) (2003-2011), como assinalam Abers, Serafim e Tatagina (2014.
Para Tatagiba (2010) e Abers, Serafim e Tatagiba (2014), isso trouxe uma complexa mudança no cenário político do país que reconfigurou a relação entre os movimentos sociais e o sistema político, pois, por um lado, houve uma importante ampliação dos espaços institucionais com relativa influência dos movimentos sociais sobre o poder público, por outro, há um refluxo ou estabilização da participação mais radicalizada, o que, segundo Tatagiba (2010), também colocou em risco a autonomia dos movimentos em relação aos governos petistas.
A ideia da autonomia dos movimentos sociais em relação ao Estado e às instituições democráticas (como os partidos e os sindicatos), de acordo com Tatagiba (2010), ganhou novos contornos a partir dos anos 1980 na América Latina, face às mudanças da dinâmica da interação Estado-sociedade com a democratização e, posteriormente, com a ascensão dos governos supostamente à esquerda, como é o caso do Brasil governado pelo PT. Nos contextos autoritários que os antecedem, o discurso da autonomia indicava a não-relação ou ausência de relação com o Estado e a polarização entre autonomia e institucionalização da participação. Já nos contextos democráticos, a relação dos movimentos sociais com os atores políticos sofre alterações e exige um posicionamento de análise menos determinista.
Em linhas gerais, Sousa (2011) indica que os traços da participação política dos jovens no século XXI possuem inclinação autonomista que gravitam entre influências anarquistas e socialistas. Sob essa perspectiva, ainda pouco delineada entre os movimentos juvenis, os jovens seguem em defesa da democracia direta, ao apostarem na ação direta como prática e no assembleísmo como instrumento de representação e negociação para o funcionamento das organizações não hierarquizadas (SOUSA, 2011).
A partir deste período, nos governos sucessores a Lula, se configurou um cenário político menos permeável à negociação e às demandas populares (TATAGIBA, 2010; ABERS, SERAFIM; TATAGIBA, 2014) que, associado à ampliação das desigualdades sociais, no contexto de acirramento da crise capitalista, foi provocativo à rebeldia e à resistência social dos jovens brasileiros.
Esta circunstância, em sua complexidade, correspondeu ao reordenamento econômico, político e cultural do mundo globalizado com dimensões estruturais que redimensionaram a vida social. Neste cenário, a ofensiva do capital ao trabalho e os agravos sociais oriundos desse processo são agudos e ameaçam a vida social e os jovens, se comparados aos adultos, compõem o segmento populacional mais atingido pela crise (BRAGA, 2017).
Entretanto, essa realidade ameaçadora ao futuro das novas gerações não ocorreu sem resistência desses sujeitos, como buscamos assinalar neste ensaio.