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Resumen de ponencia
Do socialismo ao comum? Perspectivas emancipatórias e críticas em Negri e Hardt e Laval e Dardot

*Andrea Bárbara Lopes De Azevedo



O fim do regime socialista da URSS no fim dos anos 1980 não assumiu o significado de fracasso de uma forma de governo dada em específicos países do Leste Europeu, senão foi interpretado por ideólogos tanto do comunismo quanto do capitalismo como o fracasso da revolução comunista enquanto proposta prática e teórica. No momento da queda do regime soviético o que se inscreveu na história foi ressaltado como o fracasso dos projetos socialistas e comunistas e anunciado o triunfo capitalista sobre os projetos de revolução, emancipação e utopia. Os ideólogos do capitalismo – e não apenas eles, ressalte-se – atribuíram a razão da queda do Estado comunista a sua base constituidora: o marxismo. Falho, insuficiente, impraticável, insustentável, desumano, antidemocrático e opressor foram algumas das denominações feitas ao governo soviético que foram imputadas à teoria marxista, aos movimentos políticos que o tinham como inspiração. Culpabilizado pela queda do regime soviético e pelo declínio dos projetos revolucionários e emancipatórios, o marxismo acabou por dissociar teoria e prática, instituir-se enquanto uma teoria interpretativa da história, do capitalismo e da luta de classes, fragmentou-se teoricamente em distintas linhas de interpretação e os estudos marxianos e marxistas passaram a ocupar nichos específicos e limitados no campo sociológico.
Juntamente ao fim da experiência histórica socialista, o mundo assistiu ao triunfo do capitalismo que entrou em nova fase de acumulação planetária de capital. Centrado sob o sistema financeiro, o capitalismo tornou-se globalizado e trouxe consigo uma renovação do seu projeto político sob os princípios do neoliberalismo, uma nova reconfiguração do liberalismo clássico. A ausência de um projeto de contraposição societária tal como era o projeto comunista, fez com que essa nova configuração econômica e social fosse naturalizada como o único desenvolvimento e a única forma de sistema possível. O capitalismo foi naturalizado como única via, aquela que não dependeria de escolhas políticas. Essas consequências se deram mesmo no âmbito da teoria social e da sociologia. Anthony Giddens em 1995 em seu livro Política, sociologia e teoria social anunciava que o capitalismo havia se tornado uma “ubiquidade” e que, portanto, não poderia mais se falar em capitalismo. Ainda, dizia que, com a derrota do socialismo, falar em capitalismo teria se tornado tolo segundo o autor, ao que se deveria preferir os termos modernidade ou pós-modernidade. Defendia Giddens nesta mesma linha argumentativa que o próprio Marx deveria ser banido dos estudos sociológicos. Efetivamente, o que se deu foi que os estudos sobre o capitalismo, que foram objetos de investigação de cada um dos sociólogos fundadores do campo da sociologia, foram transferidos para a área de economia e de geografia.
Considerando as incertezas políticas, econômicas e teóricas do final do século XX, a invisibilidade do capitalismo e o arrefecimento do marxismo, duas teorias sociais surgem no início dos anos 2000 e buscam realizar uma teoria social crítica do capitalismo contemporâneo, ir além do marxismo, contudo, considerando-o como uma de suas referências base e apontar perspectivas emancipatórias para o século XXI. São elas: a teoria social produzida na trilogia Império de Antonio Negri e Michael Hardt e a teoria sociológica de Christian Laval e Pierre Dardot apresentadas, majoritariamente, nas obras A nova razão do mundo e Comum.
Enquanto Negri e Hardt, unem Marx e Foucault, afirmando-se marxistas pós-estruturalistas, e buscando formular uma teoria do mundo contemporâneo que compreende o capitalismo globalização e neoliberal como um domínio sem fronteiras do poder dado por dispositivos que denominam “império”; Laval e Dardot buscam resgatar a análise do contemporâneo na teoria sociológica, investigando o neoliberalismo como fase avançada do capitalismo, todavia, centram-se em compreender os poderes subjetivos que o sistema sob esta face implica. Ambas as duplas de autores colocam-se como herdeiras do “Maio de 1968” e das implicações políticas e teóricas deste período, buscando articular a teoria de poder de Michel Foucault para compreender as relações de econômicas e sociais dos capitalistas no século XXI. De forma semelhante, ambas as duplas também traçam projetos políticos emancipatórios que implicam numa ressignificação do que é comum no mundo social, em busca de resgatar as raízes do que seria base do comunismo.
Em face minha pesquisa de doutorado sobre as teorias dessas duplas e a compreensão delas sobre o capitalismo, esta apresentação se centrará em debater três pontos: I. alcance teórico e limites da teoria social de Negri e Hardt e da teoria sociológica de Laval e Dardot; II. proximidades e distanciamentos entre as duas duplas de autores e suas formas de entender as relações capitalistas contemporâneas e seus projetos de emancipação; III. possibilidades dessas teorias de produzirem análises sobre a dominação capitalista e sua emancipação a partir do ponto de vista da periferia deste sistema.




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* Lopes De Azevedo
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas . Pós-Graduação de Filosofia e Ciências Humanas . Universidade Estadual de Campinas - IFCH/UNICAMP. Campinas-SP, Brasil