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Resumen de ponencia
A Hora de dar a negativa

*Patrícia Gonçalves Pereira



Outras facetas nem sempre contadas da nossa história carregam potencialidades encantadas nos caminhos das encruzilhadas, sendo possível a arte da recriação a partir de novas realidades construindo a re-existência. Para Rufino (2016) a saga das populações negro-africanas lançadas nas encruzas da calunga grande é perspectivada pelas potências de Exu. No filosofia ioruba Exu é definido princípio dinâmico das existências (RUFINO, 2016), o que está relacionado a uma essência criativa e criadora. A necessidade de se reinventar do lado de cá do Atlântico, implica em alta habilidade com o desconhecido e estimulo de formas criativas da reestruturação como povos transladados. De acordo com Anjos (2008), a religiosidade afro-brasileira promove o encontro das diferenças, que se dá de forma rizomática, nas cruzas das encruzilhadas permitindo múltiplas possibilidades de caminhos. Para o autor, o sagrado enquanto alteridade é carregado para “dentro” fazendo explodir a unidade do sujeito. Abrindo a proposta para a concretização da alteridade, contestando o pensamento ocidental moderno. Segundo Rufino (2016), o ser no mundo é sempre a possibilidade de uma escrita encruzada com o outro. O corpo também eclode como território da ginga de possibilidades, atento as questões de tempo e espaço, no pensamento Afro-brasileiro as histórias, contextos e decisões não caminham de forma linear. Os corpos das pessoas que cruzaram as rotas transatlânticas, trouxeram elementos territoriais e cosmopolíticos diferenciados para as Américas, que encontraram eco no pensamento Ameríndio, mas não no modelo colonial violador dos corpos/do território. A possibilidade de uma re-existência foi construída a partir de referenciais afrocentrados, como possibilidade de luta pela liberdade a partir da malemolência de gingar e praticar a vadiagem se fortalecendo contra os escravocratas mesmo diante dos olhos destes. A capoeira é uma criação dos escravos contra a dominação branca sua prática se dava no seio da comunidade negra. Ela exprimia uma “visão do mundo” e experiência de vida, de ética e filosofia antagônicas à cultura branca. A capoeira angola reflete essa resistência pela artimanha, pela esperteza e pela negociação específicas dos escravos negros. A capoeira ilustra a reivindicação e a luta direta dos negros na sociedade moderna. A capoeira é precisamente essa arte da pura dinâmica e potência, que esquiva o centro de gravidade, que utiliza códigos para improvisar e se atirar no vazio. Segundo Artaud (1993), supõe o exercício de uma “crueldade”; que força a quebrar os elos e agenciamentos psicológicos ou sociais para “inventar-se um corpo novo”. Um corpo de fuga, no limite do possível e do desequilíbrio, que inverte a crueldade exercida sobre os negros em uma potência virtual de superação do corpo orgânico rumo ao glorioso corpo do negro. Segundo Rufino (2016) a ginga é uma sabedoria de fresta, uma sabedoria de síncope. É o contratempo - movimento que preenche o vazio deixado pela alternância entre a marcação de dois tempos distintos. Princípios de desconfianças e incertezas acompanharam as escolhas, estes são fundamentais no jogo da capoeira, não ter certeza muitas vezes do próximo passo, se deixar orientar pelo ambiente em movimento. O posicionamento no mundo através da visão capoeirista, propõe o saber gingar, compreender os ensinamentos da capoeira para a conquista da liberdade. Estes elementos e ensinamentos fazem parte da Cosmovisão Afro-brasileira. É preciso manter a desconfiança na ginga, é preciso dedicação e atenção para saber a duração do tempo entre os passos. Durante o jogo da capoeira não há vencedores ou perdedores, se o encontro desafiante se dá entre amigos, ou pessoas que compartilham o tempo e o espaço. Ao jogarem contra as ameaças cotidianas da modernidade capitalista os “lutadores” sabem que este é um jogo difícil, é preciso acertar os passos, é necessário saber os tempos certos de agir, é preciso saber a hora de dar a negativa. O que chamamos de Pedagogia da Ginga são métodos que buscam credibilizar as corporeidades como lócus principal de suas ações na medida em que é no território corporal que se vive a colonialidade e é, a partir das potências do corpo, enquanto resiliência e transgressão, que se lança mão de ações decoloniais. A decolonialidade emerge para além de um empreendimento político e epistemológico comprometido com as transformações radicais e a transgressão dos limites mantenedores do poder da modernidade, configurando-se também como um empreendimento que insere o Brasil de forma mais contundente no debate pós-colonial.




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* Gonçalves Pereira
Programa de Pos-Graduaçao em Sociologia. Instituto de Filosofia e Ciencias Humanas. Universidade Federal de Rio Grande do Sul - PPS/UFRGS. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil