Em tese acerca de uma espécie de “novo regime democrático liberal”, Felipe Demier sugere a formação e desenvolvimento, no Brasil, do que chama de “democracia blindada”. Demier busca refletir sobre a questão da democracia na contemporaneidade, apontando para um “tipo de dominação político-social”.
Acreditamos que a esquerda contemporânea acompanha, dialeticamente, esta nova conformação que assumiria a democracia a que se refere Demier, em especial na experiência brasileira. O próprio autor reconhece, como aspecto importante do que chama de “crise política brasileira” e que guarda relação com o regime democrático blindado, “a fraqueza político-organizativa da classe trabalhadora”. O que pretendemos é contribuir para as reflexões de Demier, apontando para algumas hipóteses que implicarão do debate sobre a própria noção de democracia. Em termos mais diretos, nossa questão gira em torno de quem estaria blindado, se apenas a democracia liberal ou se a própria esquerda, ao abdicar de disputar de maneira conseqüente a construção da democracia socialista, convertendo, em termos gramscianos, conformismo autoritário em conformismo crítico.
Se Demier trata dos diferentes níveis do Estado e Gramsci o entende como parte de uma noção extendida de sociedade civil, há que se discutir o tempo e o espaço da disputa hegemônica. Passa por esta tarefa enfrentar as tensões existentes entre o ato concreto de assunção da estrutura do Estado e suas conseqüências em termos do que se entende por função. Isto passa por subverter leituras sociológicas clássicas que estabelecem uma dicotomia entre consenso e conflito para, através delas, compreendermos onde estaria um possível desvio funcionalista da esquerda.
Em face de teorias como as de Mobilização de Recursos, que distingue movimentos da esfera do consenso e movimentos da esfera do conflito, sugeriremos que o marco valorativo da esquerda aproxima-se do funcionalismo justamente por ela travestir-se de sujeito do conflito, enquanto consente quando o assunto é o campo das possibilidades. Assim, referenciais teóricos como de autores como Durkheim, Merton, Parsons nos ajudam na tarefa: 1. enquanto método científico, de combatê-las a luz da dialética; 2. enquanto consequência ideológica, compreender como pensa e atua a esquerda.
Nossa pesquisa busca articular a hipótese acima e as reflexões gramscianas acerca da disputa de poder. Gramsci sugere o par “domínio” e “direção” para a compreensão do que é o poder, no âmbito do Estado Integral característico do século XX, em que o Aparato Estatal assume seu caráter coercitivo.
As contribuições de Gramsci são oportunas em face da repercussão que ainda possuem as teses que reivindicam a centralidade da força, ou energia, virtualidade, como recurso para a libertação dos homens, em combate à forma. Todo mecanismo, ademais, de mediação, corresponderia a um entrave na força dos indivíduos, esta sim espontânea e, portanto, autônoma e autêntica.
O artigo pretende explorar a hipótese da influência da teoria funcionalista nas práticas da esquerda contra-hegemônica e seus efeitos para a luta política dos trabalhadores. Sugerimos que haveria uma espécie de dinâmica viciada na esquerda que resulta na sua conversão em uma espécie de autômato: um ator que cumpriria um roteiro de ações, conforme um papel, crédulo de possuir uma função na dinâmica orgânica das tensões sociais. Tais reflexões visam auxiliar na compreensão das formas de ação da esquerda, compreendidas por nós como centradas na resistência, em prejuízo aos debates e ações acerca dos desafios da insurgência. Sugerimos, pois, o vínculo entre esta feição funcional que assumiria a esquerda e sua tendência, ainda que denegada, a se abster da tarefa de pensar como, por ventura, administrar o Estado com vistas à sua extinção. Algo que passaria por forjar um projeto nacional diferenciado, enfrentando as zonas opacas do nacionalismo. Neste sentido, nossa pesquisa reforça as teses que apontam para a relação dialética entre burocratização e abdicação do poder, apontando para a necessidade de recuperarmos o caráter endógeno da luta de classes internacional. Em grande medida, acreditamos que tais questões podem contribuir para explicar a atual correlação de forças e real potencial da esquerda brasileira. Aspectos que nos ajudam a entender dimensões mais estruturais e históricas do golpe de 2016, no Brasil, que resultou no reposicionamento do país na nova divisão internacional do trabalho, aprofundando e consolidando sua dependência.