Temos hoje um debate visceral nos movimentos feministas sobre a categoria ‘mulher’. Para algumas feministas como Sônia Correa essa categoria não serve mais para a luta contemporânea por ser uma construção cultural, ideológica, filosófica, e como diria Judith Butler, sua base teórica, uma “ficção representacional”. Para outras feministas, como a boliviana Maria Galindo, deveríamos abandonar a categoria de gênero por todas as confusões ideológicas deliberadas do seu uso, e abraçar definitivamente a categoria “mulheres” como sujeito político . Apesar da polêmica, essa pesquisa dialoga com um momento histórico em que o sujeito político mulher/mulheres estava sendo construído. As mulheres, feministas ou não, em sua maior parte, pertencentes a um extrato da elite branca e intelectualizada, estavam em diferentes países promovendo o debate e refletindo sobre sua condição de subalternidade frente aos homens. É no calor da luta pela extensão dos direitos políticos para as mulheres que se tece esse novo sujeito de direito na democracia liberal e oligárquica no Brasil da Primeira República: as mulheres. Não pretendo neste momento tencionar essa categoria, mas entender, narrar os caminhos pelos quais foi se delineando esse sujeito feminino que abriu passagem na recém-democracia brasileira de representação restrita e conservadora. No cenário estão dois estados da federação: o Rio de Janeiro como centro político do país, sede do governo federal e do poder legislativo, e o Rio Grande do Norte, estado que implementou o alistamento feminino e sancionou às mulheres a cidadania política em 1927. Todavia, se o feminismo estava de “vento em polpa” no país, como noticiou um periódico carioca naquele ano, se deve a lentas e vigorosas alianças pessoais e políticas envolvendo homens e mulheres, parte das elites políticas e intelectuais, que por diferentes razões, acreditaram no potencial das mulheres como sujeitos políticos no debate e decisões públicas. Mas, isso não se fez sem dúvidas e tergiversações. A origem, como diz Foucault, é derrisória e irônica . Assim, esta pesquisa tem por objetivo investigar de que maneira a criação da Associação de Eleitoras Norte-rio-grandenses, estado da região nordeste do Brasil, convenceu as mulheres a exercerem seus direitos políticos no momento em que o voto feminino não era obrigatório. Algumas leituras foram indispensáveis para entender o cenário político, social e cultural das primeiras décadas do século XX e o debate em torno da emancipação feminina. Utilizamos como referenciais teóricos para realização desse trabalho três autorxs fundamentais: Joan Scott que fundamenta e introduz a categoria de gênero na história, Luís Felipe Miguel para discussão da política e do feminismo, e Serge Berstein e Rodrigo Patto que discutem a noção de Cultura Política. As mulheres do Rio Grande do Norte conquistaram o direito ao voto e de serem elegíveis para as instâncias legislativas e executivas, em âmbito municipal e estadual, em 1927, quando no restante do Brasil esse direito só passou a ser extensivo às mulheres em 1932. Os resultados parciais indicam que aliança entre a Federação Brasileira para o Progresso Feminino (FBPF), sob a liderança da feminista Bertha Lutz, com setores da elite política potiguar, sobretudo o senador Juvenal Lamartine, foi fundamental para a conquista da cidadania feminina. A FBPF promove, em 1928, a criação da Associação de Eleitoras Norte-rio-grandenses como uma sucursal. A Associação é uma organização de classe, composta por mulheres das elites econômica, política e intelectual, nem todas de tez branca, que entende a emancipação feminina pela via liberal e pacífica. Apesar de advogar princípios liberais, o movimento feminista fissura o sujeito de direito liberal ― homem, branco e alfabetizado ― ao incorporar uma parcela das mulheres na política e na vida pública, bem como questiona a divisão entre as esferas pública e privada. Sobre os labirintos dessa conquista, pululam questões caras à história do feminismo no Brasil e aos embates com a democracia liberal e patriarcal. Embora Bertha Lutz tenha sido exitosa na construção de uma imagem de um feminismo “bem” comportado no Brasil, ao questionar e não se sujeitar aos lugares determinados para seu sexo, rompe com a cultura patriarcal e torna “incendiária” a pauta feminista defendida na Federação.