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Resumen de ponencia
O enfrentamento silenciado e a urgência pela valorização dos saberes tradicionais

*Marivaldo Aparecido De Carvalho
*Mayan Maharishi



O presente trabalho é parte integrante da pesquisa: Narrativas Orais: saberes e fazeres da Arquitetura Vernacular (construções com antigos saberes e materiais locais naturais) em São Gonçalo do Rio das Pedras–MG e entorno, desenvolvida no programa de pós-graduação interdisciplinar em Estudos Rurais PPGER/UFVJM. Realizou-se pesquisas bibliográficas, entrevistas por meio de trabalho de campo e observações etnográficas com base na metodologia de pesquisa participante, houve levantamento dos conhecimentos presentes na oralidade em relação à arquitetura vernácula na comunidade e a maneira como as pessoas se relacionam com suas construções, seus hábitos de construções, seus procedimentos e suas reflexões sobre suas ocupações espaciais e vida.
A arquitetura vernácula possui uma ligação vital com o local, sua base é alicerçada em materiais locais e se orienta também pelas condições locais de clima, espaço e organização social. Utilizam-se diferentes materiais que com tecnologias próprias, são beneficiados e aplicados de maneira manufaturada. O uso de materiais como pedras, madeiras, terra, bambu, fibras, envolvem tecnologias específicas a esses materiais e sobre tudo tecnologias que não necessitavam de energias como a energia elétrica ou o uso de combustíveis fósseis. Em cada local existem seus recursos naturais inerentes ao ambiente e o fazer humano se constitui conforme existe a experimentação e multiplicação desses saberes. Que envolve o dizer (oralidade) e a ação aprendida e recriada.
Evidenciou-se que há uma crise do habitar, em que o afastamento da autonomia construtiva tem sido um dos maiores impactos encontrados. Esse afastamento não se dá apenas pela escolha dos materiais, mas pela impossibilidade de escolher como habitar. Verifica-se as funções ambientais dos espaços rurais na perspectiva da questão da construção como um modo de adaptar os materiais locais e sua relação com o ambiente. Buscou-se a reflexão sobre os processos de transformação social diante das relações estabelecidas frente à globalização.
Algumas questões impulsionaram alterações nas dinâmicas de vida da comunidade, consequentemente em sua arquitetura vernácula, o que não é muito diferente de outras realidades, que Boaventura Souza Santos chama de Sul global. Uma das condições que evidenciou-se como impacto direto à arquitetura vernácula foram as legislações sobre o território, que pressionaram os sujeitos deste território a buscarem outros materiais construtivos, bem como outras atividades econômicas e condições de vida. Sendo assim, intensificou-se também a relação com o dinheiro e com a necessidades externas, que antes não eram necessárias pois tinham os recursos endógenos disponíveis e uma relação interna entre os próprios moradores e região. Passa-se então a ter uma relação de dependência em relação há alguns itens que os moradores tinham o domínio do beneficiamento, sem contar que o universo simbólico e social fica comprometido com estas adaptações. Ao passo dessas regulações legislativas houveram ainda outros pontos que se mostraram evidentes, a intensificação do comércio na comunidade, migração de moradores e moradoras para outras comunidades/cidades, conflitos internos, conflitos entre estado/comunidade. A problemática apresentada por Marx da alienação do homem de si mesmo, alienação da natureza e alienação do trabalho apresenta-se aqui como uma questão viva, sob qual os sujeitos desta comunidade são responsivos. Porém, os sujeitos que neste processo são subjugados, não estão ali apenas como espectadores, eles são parte ativa neste processo e diante de diferentes ameaças resistem, e encontram diferentes maneiras de provocar interações que o mantenha enquanto sujeitos dotados de sua própria cultura.
Verifica-se que os saberes e fazeres em relação às construções vernáculas precisam de atenção, seus processos e métodos, a capacidade de narrar como alertou Walter Benjamim (1994) tem sido diluída, a capacidade de experiência frente a globalização tem sido também diluída e torna-se frente à esses desafios essencial que tentemos utilizar de outros métodos de reprodução para garantir a experiência, a informação, e a continuidade de um saber revelador em termos de resiliência nos tempos atuais.




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* Aparecido De Carvalho
Universidade federal dos vales do jequitinhonha e mucuri UFVJM. Diamantina, Brasil

* Maharishi
Universidade federal dos vales do jequitinhonha e mucuri UFVJM. Diamantina, Brasil