Este artigo é resultado parcial de Estágio Pós-Doutoral no Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais – PEPG em Ciências Sociais (PUC-SP) que investiga medievalismos em práticas juvenis em São Paulo. Considerando sobretudo a conexão memória-consumo, já que a memória pode evocar consumos e, simultaneamente, tornar-se ela mesma consumível, o trabalho tem como objetivo reconhecer como esta conexão assume dimensões afetivas e políticas
O campo do medievalismo é entendido como um interesse pela Idade Média e um tipo de movimento caracterizado pela adoção ou recriação de aspectos particulares do mundo medieval (SELLING, 2004) . Umberto Eco (1984) aponta as similaridades entre a contemporaneidade e a Idade Média, ainda que considere as diferenças e as semelhanças de modo espelhado, denominando nossa época como neomedieval. O autor reconhece, especialmente, na cultura pop, uma avalanche de produções cuja temática remete àquele período, imputando-lhes o termo “neomedievalismo fantástico”. Sem desconhecer a complexidade temática, optamos, no entanto, por nomear as cenas paulistanas como medievalistas, considerando o pressuposto da Escola Semiótica de Tártu-Moscou (LÓTMAN, 1996) de que o pretérito sempre está posto no continuum dos processos semióticos da cultura – o que se explica melhor ao longo do artigo – e porque mobilizamos outro eixo teórico que compreende o próprio passado histórico como invenção (ALBUQUERQUE JUNIOR, 2007) .
O trabalho de Albuquerque Junior (2007) sobre a escrita da história tem mostrado que mesmo o passado histórico é inventado. Chama a atenção para o fato de que os documentos históricos são também formas de enunciação, e, que toda evidência é um tipo de vidência e de dizibilidade social e historicamente localizada. São operações políticas e de sentido que se articulam quando se reconhecem vestígios ou documentos do passado. O autor esclarece que as evidências não são encontradas nos arquivos, mas fabricadas segundo métodos, metodologias e conceitos.
As cenas medievais encenadas pelos jovens paulistanos acenam a este medieval desde sempre inventado, desde sempre construído politicamente no presente. São coletivos de combatentes nomeando-se como clãs, estimulados pelas lendas do Rei Artur, trajando longos tabardos, portando escudos e espadas feitas por eles próprios, desenvolvendo o swordplay, luta com armas feitas à base de canos de PVC recobertos com espuma; encenações de narrativas constituindo um jogo de representação presencial denominado LARP, live action role-playing game, jogo originário do RPG, mas que prima pela interpretação ao vivo, com enredos criados pelos próprios jovens inspirados no medieval; grupos de dança e bandas musicais animando festas temáticas; inaugurações de tavernas como espaços comerciais de entretenimento; feiras e banquetes aos moldes dos mercados do medievo. Eventos que ocorrem em praças, escolas ou grandes espaços destinados ao lazer.
Testemunha-se um medieval inventado que inclui jovens vindos de regiões periféricas de São Paulo protagonizando a História nos espaços urbanos. História teatralizada, a um só tempo ficcional e factual. Assim, o artigo discute a formação das representações das memórias evocadas deste período que podem ser midiáticas, biográficas, histórica, etc, sempre atravessadas pela dimensão afetiva (NUNES, 2001 ; DAMÁSIO, 2003 ). O trabalho verifica também as disputas de sentidos sociais aí implicadas e os modos como o consumo midiático e de materialidades convoca e enquadra a(s) memóri(a)s de um medieval possível.
A investigação se vale de autores das Ciências Humanas e Sociais assim como de pesquisadores voltados às relações entre comunicação, cultura e memória. Espera-se demonstrar que as práticas medievalistas criam protagonismos juvenis ao promoverem uma forma de inscrição social que se faz da construção e reconstrução de textos culturais midiáticos que rememoram um passado imaginado e, com isso, ressignificam os espaços urbanos alcançando dimensões coletivas, isto é, partilhadas e políticas (RANCIÈRE, 2015) .
Referências bibliográficas
ALBUQUERQUE JÚNIOR, D. História: a arte de inventar o passado. Bauru/São Paulo: EDUSC, 2007.
DAMÁSIO, Antonio. Ao encontro de Espinosa: as emoções sociais e a neurologia do sentir. Lisboa: Europa América, 2003.
ECO, U. Viagem na irrealidade cotidiana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1984.
LOTMAN, I. Acerca de la Semiosfera. In: La Semiosfera I. Madri: Ediciones Cátedra, 1996.
NUNES, M. A memória na mídia: a evolução dos memes de afeto. São Paulo: Annablume/FAPESP, 2001.
RANCIÈRE, J. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: editora 34, 2015.SELLING, K. Fantastic neomedievalism: the image of the Middle Ages in popular fantasy. IN: KETTERER, D. (Ed). Flashes of the fantastic, selected essays from the war of the worlds centennial, Nineteenth International Conference on the Fantastic in the Art. London: Praeger, 2004.