Nas últimas décadas o debate da questão racial no Brasil foi além da militância do movimento negro e avançou também no âmbito acadêmico e midiático. A adoção de políticas de ações afirmativas, a criação de estruturas estatais de reparação e o surgimento de novos coletivos de juventude no campo do ativismo negro impactaram a valorização das identidades negras no Brasil e a ampliação do debate na sociedade.
Paralelamente, verificou-se também o aparecimento de canais online independentes, ativistas da questão racial: as mídias negras digitais. Esses veículos estão dando um novo corpo ao papel que a imprensa negra vem desempenhando desde o século XIX no Brasil, produzindo discursos contra-hegemônicos que tentam romper com dois fatores que sempre estiveram acoplados ao racismo no Brasil e que contaram com a contribuição ímpar do jornalismo da mídia massiva: a perpetuação do mito da democracia racial, que toma contornos diferentes a cada época, e o silenciamento das pautas e das vozes negras nos jornais.
Sendo assim, nesta apresentação, recorte de pesquisa de, mestrado em andamento temos como objetivo abordar de que modo as mídias/redes negras digitais atuam como pontos de heterogeneidade e resistência ao discurso do consenso racial brasileiro, construído com ajuda da mídia hegemônica no país, tendo em vista o contexto atual, em que o discurso se configura como uma importante ferramenta na disputa pelo poder no espaço público, Para isso, partimos da análise discursiva de um cenário de disputa de narrativas, em que essas redes se tornam decisivas para promover fissuras na agenda midiática e quebrar o silenciamento imposto às vozes e pautas negras no país. A escolha do tema se justifica pela necessidade de discutir o papel histórico do jornalismo na (re)produção do racismo no Brasil e, numa interseção entre os campos da Antropologia e da Comunicação, compreender como a cultura do fazer jornalístico impacta no pensar o mundo, na organização do real e das vozes autorizadas, e como os procedimentos de elaboração das notícias contribuem para produção do racismo no Brasil através de mecanismos de “selecionar/privilegiar certos dados, eliminar/subalternizar outros” (Morin, 1986. p. 111).
Tomando o fato de que a questão racial pode ser considerada a base dos diversos conflitos sociais que enfrentamos atualmente, e que o racismo é parte de um modo de governar baseado numa política que expõe à morte uma parcela específica da população, no primeiro capítulo buscamos refletir como a mídia compõe esse cenário de necropolítica (MBEMBE, 2006) através dos recursos discursivos do silenciamento e da invisibilização, comprometida com interesses econômicos específicos, e favorecendo para a morte social e simbólica da população negra.
Por isso, sçao de vital importância para nós os conceitos de necropolítica e biopolítica a partir dos pensamentos de Mbembe (2017) e Foucault (2005), à discussão sobre a máscara do silenciamento feita por Kilomba (2016) e aos conceitos de valores-notícia e critérios de noticiabilidade organizados por Traquina (2013). Numa perspectiva dialógica do discurso, tentamos pensar como os discursos de resistência advindos do meio digital afetam os enunciados das produções jornalísticas da mídia tradicional, num movimento de contra-agendamento de pautas. Para tal, entendendo o discurso como uma arma na disputa pelo poder no espaço público, utilizamos como fundamentação teórico-metodológica a análise discursiva de base enunciativa, mobilizando principalmente as contribuições de Bakhtin (2000; 2004) e a noção de linguagem-intervenção de (ROCHA, 2014) em que a linguagem age sob a dupla função de representar e intervir no mundo, sendo, pois, uma importante ferramenta na construção de discursos contra-hegemônicos dentro de um sistema social de desigualdade racial.
Nossas análises focalizam reportagens da mídia massiva que repercutiram temas tratados no interior das redes de negritude, analisando de que modo se constroem os discursos relativos à questão racial nesses textos e como eles estão povoados de enunciados veiculados no ambiente digital, ainda que sob tentativas de invisibilização. Entendemos que a relevância dessa pesquisa está na importância da disputa pela veiculação de conteúdos anti-racistas pela mídia massiva no Brasil, uma vez que o meio digital no país ainda se configura como um lugar de exclusão.