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Resumen de ponencia
DESOBEDIÊNCIA DOCENTE E ARTE/EDUCAÇÃO DECOLONIAL NA AMÉRICA LATINA

*Eduardo Moura



As inquietações neste trabalho centram-se em discussões teóricas acerca da formação inicial acadêmica docente em Arte na América Latina. Questiono os currículos de formação que privilegiam uma matriz de conhecimentos eurocêntrica/ estadunidense. Encontro no pensamento decolonial de intelectuais latino-americanos, que compõem o Grupo Modernidade/Colonialidade (Aníbal Quijano, Enrique Dussel, Fernando Coronil, Walter Mignolo, Santiago Castro-Gómez, Arturo Escobar, Catherine Walsh, Zulma Palermo), a perspectiva para refletir sobre as realidades sócio-histórico, artístico-cultural e educacional latino-americanas. Relaciono esse pensamento à Arte, à Educação e à formação de Professores/as de Arte de modo a contrapor as grandes narrativas modernistas eurocêntricas pensando o que chamo de ‘desobediência docente’ pela decolonialidade dos processos formativos para a docência em Arte na América Latina como perspectiva para pensar uma Arte/Educação decolonial. Inquieta-me a colonialidade do poder, do saber e do ser na América Latina que, refletida na arte, na educação, nas academias, nos cursos, nos currículos de formação inicial acadêmica docente em arte e nos processos formativos, privilegia uma matriz de conhecimentos eurocêntrica/ estadunidense e deslegitima os saberes, as histórias, a arte e a cultura latino-americanas. Nesse sentido, inquietam-me a uni-versalidade – uma única versão: europeia/ estadunidense – da produção de conhecimentos e as impossibilidades de produção de saberes desde outras histórias, outras culturas, outras artes, excluídas pela visão hegemônica. Assim, inquietam-me as questões epistemológicas acerca da Arte/Educação na América Latina. Pensar uma Arte/Educação decolonial não implica deslegimitar os conhecimentos em arte na perspectiva europeia (diferente de uma perspectiva eurocêntrica), implica, necessariamente, legitimar os saberes em arte de matriz latino-americana. Não se trata de um olhar incauto e desconexo que pensa a arte e os saberes dessa região inseridos na Educação, mas da compreensão desde o lugar de enunciação, América Latina, e pela consciência política, potencializar questionamentos anti-hegemônicos e anti-hierárquicos, em favor do pensar/fazer/ser/sentir decolonial. Encontro no pensamento de Ana Mae Barbosa, desde a década de 1980, inúmeras referências ao que compreendo como ‘Arte/Educação decolonial’, portanto não é nenhuma novidade. A educadora pioneira da Arte/Educação brasileira é pioneira também em pensar esse campo de conhecimentos por um viés anti-colonialista e decolonial. A ideia de ‘Arte/Educação’ contrapõe as anemias teórico/práticas e metodológicas da ‘Educação Artística’ e o termo, em si, passa a apontar uma perspectiva decolonial ou, pelo menos uma “perturbação da consciência colonizada” (BARBOSA, 1998). Pelo pensamento do antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro, em seu livro “América Latina: pátria grande” (1986), sob a égide da problemática “A América Latina existe?”, é que encontro a justificativa para um olhar regionalista latino-americano. O autor justifica, logo no início da obra, que não há dúvida de que sim, existe uma América Latina! E prossegue complementando: “mas é sempre bom aprofundar o significado dessa existência” (RIBEIRO, 1986, p. 11). No pensamento do sociólogo peruano Aníbal Quijano encontro o argumento para o aprofundamento do significado da existência da América Latina, quando aponta que “é tempo de aprendermos a nos libertar do espelho eurocêntrico onde nossa imagem é sempre, necessariamente, distorcida. É tempo, enfim, de deixar de ser o que não somos” (QUIJANO, 2005). A partir dessas formas de pensar, levanto questionamentos acerca dos campos da arte e da educação para pensar uma Arte/Educação decolonial. Um passo antes, aponto questionamentos que se relacionam à formação inicial acadêmica de Professores/as de Arte enveredando por uma discussão teórica sobre a colonialidade nos currículos de formação docente e as (im)possibilidades de decolonialidade dos processos formativos docentes. Na contramão da hegemonia eurocêntrica nas formas de pensar e produzir a formação docente em contextos latino-americanos é que penso uma ‘desobediência docente’ nos processos de formação inicial acadêmica de Professores/as de Arte. Tal proposição implica pensar/produzir a formação docente pelo prisma decolonial, como forma de problematização das hierarquizações que legitimam uma episteme eurocêntrica e deslegitimam a formação com base nos saberes desde as artes e as culturas latino-americanas. Compreendo que somente a partir do (re)pensamento crítico sobre a América Latina, sobre sua história colonial e sobre as heranças legadas pelo racismo, escravismo, violência, patriarcado, machismo, capitalismo e modernidade/colonialidade, desvelados pelas imagens do que realmente somos, é que será possível decolonizar as formas de pensar/ser/fazer/sentir neste território. A desobediência docente de que trato não se limita a conhecer arte latino-americana ou inserir no currículo dos cursos de formação inicial docente em arte componentes curriculares, referências bibliográficas ou conteúdos de arte latino-americana; vai além, reclama uma desobediência docente que só fará sentido se for epistemológica, tal como aponta Walter Mingolo (2008) sobre o que concebe como “desobediência epistemológica”, assim implica “aprender a desaprender para reaprender”. Nessa direção, a desobediência docente demarca e dá contornos à uma produção de conhecimentos em arte, desde a formação inicial acadêmica de professores/as até os processos educativos em arte, quer sejam em espaços formais ou não-formais, que legitimem epistemes anti-hegemônicas, não-eurocêntricas; que criem identificação com a América Latina nas dimensões artísticas, históricas, sociais, culturais; e ampliem o espectro para uma consciência decolonizada. Ainda, a ideia de desobediência docente deve ser pensada como uma edificação cujo alicerce sejam os/as Professores/as de Arte como sujeitos, não exclusivamente, capazes de imprimir as marcas de um projeto decolonizador das formas de pensar arte/ conhecer arte/ fazer arte em que os olhares se voltem às realidades latino-americanas, ao invés de aquiescer a legitimação de uma história única: ocidental-europeia-estadunidense. A desobediência docente precisa partir da decolonialidade intelectual de formadores e formadoras de Professores e Professoras de Arte e impressa nos currículos dos cursos de formação. A decorrência é a possibilidade de uma Arte/Educação decolonial, que passa a refletir as potencialidades do pensamento artístico e das expressões artísticas latino-americanas na produção de consciências cidadãs também decolonizadas.




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* Moura
Faculdade de Educação. Universidade Federal de Minas Gerais - FaE/UFMG. Belo Horizonte- MG, Brasil