INTRODUÇÃO:
Os resultados aqui apresentados estão relacionados a uma pesquisa social realizada durante o ano de 2017 para ser entregue em forma de monografia, para a conclusão de curso de Licenciatura em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Goiás. De lá só ficam muitos agradecimentos não só da academia, mais da festa incrível que é A Folia de Santos Reis na cidade de Inhumas, em Goiás. Aqui está o mínimo que poderia ser apresentado para tal, destaca-se ler o trabalho completo caso o interesse seja maior.
O primeiro fator social marcante de manifestações da cultura popular tradicional que estão esparramadas pelo Brasil é o do desenvolvimento, estruturação e história construídos oralmente, ou seja, passados de um tempo ao outro pelas falas, pelas histórias contadas, por um mestre ou capitão dizendo como é e como faz e com participantes aprendizes ouvindo tudo para poder aprender o que ali está.
O norte desse trabalho, procurar refletir sobre as relações materiais e simbólicas contidas nas manifestações da cultura popular tradicional no Brasil, mais especificamente a Cia de Santos Reis de Inhumas, enfatizando não apenas a manifestação, mas também a ocorrência dos processos educativos não formais que contribuem para a permanência da tradição. Sobre isso, procurei estabelecer um diálogo com autores que tratam das possibilidades e contribuições da educação não formal. Dentre eles, destaco Pierre Bourdie para o qual a educação não é um objeto como qualquer outro, mas constitui-se em temática central pelo exame da qual são revelados não somente os mecanismos do conhecimento social, ou seja, as formas que fazem com que os agentes se reconheçam e conheçam suas instituições e sistemas de instituições, seus mercados e produções simbólicas (arte, ciência, religião etc.), senão também os mecanismos de poder (BOURDIEU, 1991, p. 117.
A CIDADE E A FESTA:
Inhumas se localiza na região central do estado de Goiás, a cerca de 40 km da capital do estado, Goiânia. O município tem ar e graça interioranos, com a população ainda bem ligada ao campo mesmo com uma maior, crescente e rápida urbanização da cidade. Ao andar pela cidade já notamos que a população tem seus espaços, suas “roças”, de milho, feijão, mandioca, mantendo assim alguns afazeres de zonas rurais.
Uma colonização do tamanho que foi a descoberta das Américas não perpassa somente pelo ato de invadir, povoar e segregar, mas vai muito, além disso. E uma das instituições que foi além é a Igreja Católica por meio da ação de padres muito reconhecidos aqui, como o padre José de Anchieta e o padre Antônio Vieira. Entretanto, tal colonização não se apresentava só como uma imposição, pois o objetivo era realizar uma mediação entre as crenças do cristianismo, no caso o responsável por colonizar, e as crenças tidas como práticas animistas advindas da África e já existentes nas Américas, nesse caso os colonizados. Essa nova estrutura incentivou “uma mediação entre as crenças dos tupis e o ideário cristão” (VIANA; RIOS, pg. 36, 2015).
Antes de tudo, e antes de nada, a Folia de Santos Reis é uma jornada. Essa jornada é entendida tanto pelos foliões como para os autores que tratam do assunto, em algumas perspectivas teóricas diferentes mais que se complementam, como a própria viagem dos Santos Reis, saindo do Oriente a fim de visitar o menino Deus que ia nascer em Belém, sendo guiados pela estrela guia. Com uma perspectiva envolvendo história, ritual e relações de trabalho, Carlos Rodrigues Brandão nos traz uma abordagem em que a folia é “um grupo precatório de cantores e instrumentistas, seguidos de acompanhantes e viajores rituais, entre casas de moradores rituais, entre casas de moradores rurais” (BRANDÃO, 2002, p. 347). O que pode se alterar esta em relação a só se fazer folias em zonas rurais, devido ao grande número de grupos nas cidades. Cascudo chega a ser mais “direto” e diz que, em geral, a “Folia é bando precatório que pede esmolas para”, nesse caso, “a festa dos Santos Reis Magos” (CASCUDO, 2001, p. 242).
DO TRABALHO DE CAMPO AOS RESULTADOS:
O Trabalho de Campo que foi realizado dentro do período de dois de Outubro a dezoito de Novembro do ano de 2017. Neste período pude participar, observar e pesquisar três momentos de Folia de Reis distintos, em datas diferentes no período destacado à cima.
A primeira delas foi uma Folia de Reis de voto. Como já foi tratado aqui, esse tipo de festa é feita a partir de uma promessa realizada geralmente pelo festeiro da própria folia. Que ao realiza - lá cumpri os seus votos com o Santos Reis, cumprindo o seu compromisso afirmado antes. A segunda também foi uma Folia de Reis em torno de uma promessa. Tal promessa foi feita pelo João, filho de um folião muito também muito famoso na região, seu Zé Chapa, que foi o festeiro dessa festa. A terceira Folia de Reis, diferentemente das outras duas, foi uma de Coroa. Chamada tradicionalmente de “Folia de Reis do Bizoca” na região, por conta de um antigo Bastião apelidado de Bizoca pela turma, que trabalhava constantemente nos giros que essa folia realizava.
A minha relação com as festas e os foliões também se deu de forma muito diferente pela ideia colocada na minha trajetória no começo desse trabalho: “a gente primeiro participa e depois pesquisa”. No segundo dia de giro da primeira folia visita levei o instrumento que toco a cinco anos da minha vida, a Rabeca. Tive formação no mundo erudito da música através do Violino, mas após conhecer os fazeres populares logo me vi pesquisando e tocando o instrumento que hoje não largo por nada. A Rabeca foi um fator novo que lembrava velhos tempos para várias pessoas da folia, entre devotos e foliões. Vale lembrar aqui que não tenho contato com os grupos há pouco tempo. Na verdade pesquiso e participo há cerca de cinco anos, tendo entrado em contato através do professor Sebastião Riôs, também antigo na folião, tendo 12 anos de acompanhamento do grupo, que me apresentou o Luisinho, e a partir daí comecei a acompanhar as folias na região.
Todas as entrevistas foram realizadas no mesmo dia, na cidade de Inhumas e uma no distrito de Caturaí. O grande porta-voz da pesquisa para com os embaixadores entrevistados, foi o Capitão Luisinho, que além de me ajudar com o que já foi dito aqui, me orientou na hora de escolher os embaixadores a serem entrevistados, bem como o dia e a hora de realizar as entrevistas. Ele também nos acompanhou com a ajuda de seu carro nos levando até as casas dos embaixadores. Assim fica cada vez mais nítido a ajuda dele para com esse trabalho. Graças também a fiel ajuda de Jeferson Leite, músico rabequeiro do Ceará que alguns anos reside em Goiânia, tendo passado pela música erudita e hoje dando exclusividade ao seu grupo de forró.
Assim, tal aspecto fica mais que nítido a relação de familiariedade e hereditaridade entre eles. Numa grande maioria eles tiveram apoio de familiares próximos a eles que eram foliões já antigos e assim queriam que os seus parentes mais novos herdassem isso de alguma forma. Assim seguem os exemplos aparentes nas entrevistas, como a do Divino do Juca: “Uai, o meu pai e minha família era tudo de foliões né, tinha o meu tio, o tio Arlindo, o meu avô, seu Epaminondas, então eu sempre girava, batia pandeiro, batia caixa, girava com eles e vestia máscara de folia, já mulecotinho.” (Divino do Juca, entrevista concedida em Novembro de 2017 na cidade de Inhumas).
No aspecto musical existe um avanço na complexidade dos instrumentos, que se repete em quase todos os casos, já que a transmissão se dá de forma diferente para alguns. Eles são iniciados com instrumentos mais básicos, no caso a caixa e o pandeiro. Logo após são instruídos a começar a cantar na chamada requinte, onde estão as vozes mais agudas da folia. Uma criança tem certa facilidade para isso pelo desenvolvimento da sua corda vocal, que naquele momento consegue cantar em faixas agudas. Logo após, na adolescência ele passa a interagir um pouco com a posição de Bastião.
Essa necessidade de manter o festejo através de sua transmissão é associada à ideia e ações para se manter a manifestação durante os anos, além de é claro esses mais novos estarem ajudando os mais velhos no cumprimento de suas responsabilidades e obrigações para com a manifestação. Por isso, para além do pensamento teórico social em volta disso, acontece a realidade de transmissão de saberes nesses espaços, muito antes dos debates acontecerem. Isso os torna dinâmicos e vivos nas relações de suas vidas com a manifestação da cultura popular tradicional que exercem.
PARA CONCLUIR:
O grande resultado aqui é analisar e afirmar o quanto uma manifestação como a Folia de Santos Reis é permeabilizada por momentos educacionais, e o exemplo disso é a própria festa. A festa nesse caso é o ambiente de socialização para a transmissão de saberes relacionados a feitura e realização da manifestação bem como o seu currículo invisível ligado a moral e a ética. Isso foi mais que nítido no trabalho de campo, bem como as entrevistas. Se tratando também de um tipo de religiosidade popular, ela se adentra a questões dualistas entre bem e mal, bom e ruim.O grande esforço para se passar adiante o que sabe mantém a manifestação viva, pulsante, para que possa se dinamizar a partir dos mais novos. Um dos exemplos disso é o Capitão Helinho. Dentre os entrevistados ele é o mais novo, embaixando folias e além disso fazendo o registro contínuo da manifestação através de seu celular que já tem acesso a uma câmera com uma qualidade que dá para fazer esse tipo de coisa.
Para finalizar esse trabalho trago a ideia de que existe uma pequena lacuna nele: a transmissão de saberes em torno de quem realiza toda a logística dessa incrível manifestação. Será muito interessante dar continuidade a esse estudo, para refletir sobre as pessoas que ajudam a realização da festa, cozinhando, decorando e conversando com a rede social de devotos para a realização da festa.