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Resumen de ponencia
O trabalho musical feminino no Brasil oitocentista

*Patricia Amorim De Paula



Resumo:
A constituição de grupos sociais artísticos brasileiros entre os anos 1830 a 1889 e as condições históricas nas quais se configuraram a formação e trabalho na música, com a participação social de ambos os sexos, compõem um problema eminentemente sociológico, que carece sempre de reflexão. Este trabalho encontra-se no segundo ano de execução e propõe um exame histórico-sociológico da participação feminina no cenário musical do período e sua contribuição para a formação das novas gerações de músicos e musicistas brasileiros a partir do século XIX. Para tanto, fazemos uso de pesquisa documental a partir das seguintes fontes: jornais, biografias, dicionários e enciclopédias de música, obras literárias, cartas, obras de história da música e também do Brasil, entre outros documentos relevantes à temática. O uso de “palavras-chave” na análise sociológica do passado permite-nos dar uma nova ênfase ao vocabulário geral que uma dada sociedade compartilhava, bem como aos modos de vida impressos na cultura e sociedade de um momento histórico distante do nosso. Trata-se de um método de investigação que se inspira nas análises de Raymond Williams sobre o contexto inglês, mas que será reorientado para compreender como os processos sociais e históricos se constituíram no interior da cultura impressa no Brasil do século dezenove. Além disso, autores como Erich Auerbach, Carlo Ginzburg, Raymundo Faoro e Antonio Candido auxiliarão a composição da análise dentro das diferentes dimensões delimitadas para a abordagem do problema, a saber: 1- Palavras-chave; 2- Gênero; 3- Trabalho ou vocação e 4- Estrangeiras e brasileiras. Outros trabalhos foram selecionados a fim de preencher as lacunas acerca da participação feminina na história da música nacional dentro do período citado e também para abordar a temática da imigração de artistas francesas e portuguesas.

Introdução
Na atualidade a participação feminina tanto na formação quanto no trabalho com música é significativa e crescente; já em relação ao seu passado, encontra-se apenas o silêncio, logo, a invisibilidade. Há poucos registros sobre o itinerário profissional de mulheres na música entre os séculos XVIII e XIX; porém, historicamente, elas estão presentes, mas há uma ausência de pesquisa que demonstre a relevância desse grupo social . No campo da música, o que sabemos sobre a trajetória profissional, narrada no vernáculo, acerca de Maria Anna Mozart (1751-1829) ou “Nannerl”, irmã de Wolfgang Mozart, que pela rivalidade estimulada nas lições diárias de piano que o pai dava a eles, acabou sendo silenciada? (ELIAS, 1995, p. 79); o que sabemos sobre Clara Schumann (1819-1896), esposa do compositor Robert Schumann, a qual era compositora e pianista de talento considerável?; ou sobre Lucília Guimarães Villa-Lobos (1866-1966), compositora e professora de música, que foi a primeira esposa do compositor Heitor Villa-Lobos? O rol de musicistas invisíveis não para aí (PAULA, 2016, p. 89) .
Ao se interrogar sobre a história da participação social das musicistas no Brasil oitocentista, é preciso considerar todas e quaisquer pistas, indícios e vestígios que permitam acessá-las. O historiador Carlo Ginzburg, ao construir o paradigma indiciário como meio interpretativo, abre caminhos analíticos para o estudo dos casos nos quais as causas não são reproduzíveis, cabendo apenas ao pesquisador a possibilidade de inferi-las por meio dos efeitos (GINZBURG, 2007, p. 169).
Nesse sentido, analisarei as fontes documentais (jornais, biografias, dicionários e enciclopédias de música, obras literárias, cartas, obras de história da música e também do Brasil, entre outros documentos relevantes à temática) no período de 1830 a 1889. Darei especial atenção ao material impresso de época, pois será nossa forma de encontro com a experiência costumeira, com os modos de vida do grupo social que pretendemos descrever e compreender. Nosso foco será sobre as mulheres musicistas, com e sem lugar na sociedade oitocentista brasileira. Contudo, a perspectiva de gênero será considerada na análise, pois o masculino tem presença constante dentro desse grupo profissional que está inserido na lógica social do patriarcado.
Com o intuito de entender como se deu a presença feminina no cenário musical brasileiro da época, realizei uma pesquisa preliminar no acervo do Jornal do Commercio (RJ) , veículo de informação de grande difusão no século XIX. Neste levantamento, foi considerado o período de 1830 a 1889, e os resultados obtidos apontam para a viabilidade e relevância de estudo sobre o tema.
Sob as palavras-chave “compositora”, “musicista” e “pianista”, partimos para uma pesquisa documental nos jornais oitocentistas do Rio de Janeiro, através da Hemeroteca da Fundação Biblioteca Nacional, e encontramos no acervo do Jornal do Commercio aproximadamente 350 referências a cada década. Aparecem indicações de músicos de ambos os sexos, todavia, a maior presença é de homens músicos estrangeiros. Citaremos apenas os mais célebres a título de ilustração: Arthur Napoleão, Aquiles Arnaud, Ernesto Visconti, Oscar Pfeiffer, Sigismond Thalberg e Archangelo Fiorito. Com o tempo, fomos percebendo que apareciam mais mulheres sob a descrição “professora de piano”, e encontramos aproximadamente 150 referências exclusivamente femininas a cada década, o que nos fez alterar a palavra-chave utilizada. A identificação dessas palavras num veículo de informação de grande difusão no século XIX, no Rio de Janeiro, aponta para a relevância social desses profissionais para a sociedade da época.
No início do século XIX, a música sacra, aos poucos, cede espaço à música profana, e não somente a ópera fez parte do cotidiano de nobres e da burguesia em ascensão, mas também as danças tinham seu lugar nas festas e comemorações da elite colonial, em especial, a polca, a quadrilha, a mazurca e a valsa (ANDRADE, 1987; TINHORÃO, 1990).
A música associou-se ao idioma nacional por meio das canções, como modinhas e lundus , e dessa forma fez parte do cotidiano da elite local nos saraus e encontros realizados em suas residências. Os músicos convidados, geralmente, eram amadores (cantores, violonistas e violistas); nas casas de maior prestígio havia também o piano (ANDRADE, 1987; TINHORÃO, 1990).
O fator que contribuiu para a inserção dos pianistas profissionais e professores de piano no Brasil foi a difusão mundial da polca e do instrumento piano, como expressões indispensáveis para a execução da música de salão de tradição europeia. Cacá Machado (2007, p. 18) faz referência ao modo como as elites coloniais escravagistas se aburguesavam importando pianos como bens de consumo para suas residências. Lembramos que em Ordem e progresso, Gilberto Freyre foi um dos primeiros sociólogos a destacar a importância do piano na estrutura sociocultural do Segundo Reinado, quando reconhece que:

... o vasto piano de cauda que se tornou símbolo de distinção, de gosto e de prestígio social, quer em palacetes aristocráticos de subúrbio, quer em sobrados nobres ou burgueses, distinguindo também, nas casas-grandes de engenhos e fazendas, as casas das famílias aparentemente mais cultas das mais sincera ou rusticamente rurais (FREYRE, 2004, p. 313-314).

Ao enfatizarmos um vocabulário comum à sociedade de época, identificamos também a relação de transferência cultural do romantismo europeu na música nacional da elite colonial. Conforme declarou o compositor Alberto Nepomuceno (1864-1920): “Não tem pátria o povo que não canta em sua língua” - que em suas composições se esforçou para elaborar uma música culta brasileira com inspiração e forma europeia -, a tentativa de consolidar um repertório musical da nação foi frustrada pela necessidade de embranquecer a alta cultura colonial, o que fez com que os modos europeus fossem incorporados à música da época. Assim, os grandes centros culturais e artísticos, como Clube Mozart e Clube Beethoven (no Rio de Janeiro); Clube Haydin e Clube Mendelssohn (em São Paulo), disseminavam uma música essencialmente europeia, como forma de distinguir e de isolar as músicas, as danças e os costumes populares (ANDRADE, 1987; TINHORÃO, 1990).
É desse ambiente histórico e social que irei recuperar alguns registros do fazer artístico feminino no campo da música, valendo-me em alguns momentos de referências literárias do período para aprender e apreender a experiência vivida por essas mulheres no Brasil oitocentista.




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* Amorim De Paula
Faculdade de Educação. Universidad Estadual de Campinas /UNICAMP. Faculdade de Educação. Universidad Estadual de Campinas /UNICAMP - FE/UNICAMP. Campinas, SP, Brasil