Há um juvenicídio em curso na América Latina. As altas taxas de mortalidade e desaparecimentos forçados chamam a atenção também pela presença significativa e recorrente de jovens. O Brasil é um dos recordistas mundiais em termos de mortalidade juvenil, especialmente homicídios. A alta taxa de homicídios envolvendo os jovens atrela-se à vulnerabilidade social mas também, e em boa medida, à ação criminosa da Polícia Militar nas periferias das grandes cidades. Surgem então grupos movimentos sociais de enfrentamento dessa situação: Movimento Independente Mães de Maio, Mães em Luto da Zona Leste, Mães de Osasco, entre outros. São mães e familiares de jovens assassinados pelas forças policiais e que lutam por verdade, justiça e reparação, assim como as Madres de la Plaza de Mayo da Argentina durante a ditadura militar nos anos 1970, ou o movimento Padres Y Madres de Ayotzinapa, do México, que reúne familiares dos 43 estudantes desaparecidos em Guerrero em 2014. Estes movimentos sociais articulam-se em perspectiva histórica, estendendo-se entre a ditadura argentina e os períodos democráticos do Brasil e do México; compõe uma cartografia latinoamericana de resistências em rede que ultrapassam as fronteiras do norte, acessando os estadunidenses do Black Lives Matter, movimento que denuncia a violência policial contra os jovens negros americanos; por fim, envolvem uma instigante questão geracional que abarca as madres argentinas e as brasileiras e mexicanas, mas também articula mães e familiares que repentinamente têm suas vidas alteradas por uma tragédia que toma-lhes os filhos e transforma-as em ativistas dos direitos humanos em busca de justiça e reparação. E produzem e divulgam, cotidianamente, muitas imagens.
Imagens e memórias são indissociáveis, ainda mais no contexto da cultura digital. Nas últimas décadas as imagens retomam seu papel nos processos cognitivos e expressivos e, neste contexto, encontram-se no centro das disputas pelos imaginários as práticas políticas. As imagens, associadas às tecnologias digitais de comunicação, tornam-se armas poderosas na construção de memórias e de resistências na chamada “guerra de narrativas” que ocupa nossos cotidianos. Se, por um lado, a grande mídia tradicional ou determinados setores conservadores da sociedade representam estes jovens assassinados ou desaparecidos de forma estigmatizada e preconceituosa (seriam criminosos, suspeitos, etc), de outro lado esses grupos e movimentos produzem representações alternativas como forma de luta política: produzem outras narrativas sobre estes jovens, constroem memórias, revisitam os passados, articulam o presente e projetam outros futuros. Este trabalho busca compreender, por meio das fotografias produzidas e publicadas por estes grupos e movimentos sociais, as políticas de memórias produzidas em suas lutas e disputas pelas narrativas e pela construção de memórias coletivas.
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