Este artigo tem por objetivo apresentar reflexão sociológica acerca dos processos iniciais da formação intelectual e política de Clóvis Moura e da importância deste período para a caracterização de um dos mais refinados e originais exemplos de pensamento social constituídos no Brasil. Uma produção intelectual inovadora e não dogmática, que através de seu caráter marxista e antirracista, acabaria por ser influência decisiva para a formulação e concepção dos modernos e contemporâneos movimentos negros brasileiros.Clóvis Steiger de Assis Moura, foi pensador orgânico e de práxis, dono de uma obra com características ideológicas humanistas, de viés socialista, e princípios éticos libertários, que acabaram por torna-lá enquanto única no universo intelectual brasileiro. Uma obra que refletia perfeitamente as intenções de seu autor. Intelectual que tinha como único compromisso utilizar sua produção, enquanto ferramenta de transformação social para os socialmente excluídos e marginalizados da sociedade brasileira. Nesse aspecto, Moura optará em relatar, resgatar, valorizar e problematizar a história das populações negras no Brasil, enquanto seu objeto de estudo principal. Em certo sentido, construiu para si, sua própria persona científica, sua própria figura intelectual, a partir do momento em que não se viu representado – e nem aos seus – de maneira a contento sobe as lentes avaliativas e interpretativas da intelectualidade brasileira. Buscando assim fazer valer, manifestar as suas interpretações acerca do mundo a sua volta. A constituição de sua sociologia histórica, política e contestatória, de viés marxista dialético não ortodoxa, em que define o período escravocrata como definidor e caracterizador das iniquidades sociais brasileiras. Objetivando a partir desta, sua – própria - conceituação teórica, para desenvolver sua interpretação e problematização sociológica, para assim buscar entender a nossa incompletude enquanto nação, em que cidadania e direitos sociais se fazem enquanto privilégios das elites dominantes. Além de enfatizar o negro enquanto ator social ativo, constituinte, construtor de sua própria história e destino, ao mesmo tempo que se faz enquanto dinamizador sócio – histórico da sociedade brasileira. Mas não no sentido estritamente cultural, como na obra de Gilberto Freyre, mas enquanto elemento dinamizador e político de caráter socialmente revolucionário, transformador da realidade histórica e social da sociedade brasileira, atuando diretamente através das revoltas escravas, da constituição e resistência dos quilombos, ou sendo agentes significativos na constituição e ação política do movimento abolicionista. Dessa forma se constituindo enquanto agentes ativos de sua própria história e da sociedade brasileira, influenciando para o enfraquecimento e agonizar ao “status quo” do regime monárquico, para assim acabar em contribuir a instauração do modelo republicano em terras brasilis. Clóvis Moura insere o “elemento negro” aos processos históricos, políticos, sociais e culturais da sociedade brasileira, enquanto objeto para se buscar interpretar e problematizar o Brasil, em todas as suas complexidades e contradições. O que, dessa forma, configurou uma concepção intelectual e política ímpar ao nosso universo característico, de então, do pensamento social brasileiro. Constituindo obra pioneira referencial em seu rigor científico e inovação metodológica e conceitual.Desse modo realizando, contraponto as concepções intelectuais acadêmicas – tanto as de recorte conservador, quanto as de viés progressista – respectivamente, negavam a importância histórica e política das populações negras, ou as situavam enquanto submissas aos processos políticos e econômicos das elites nacionais. Na concepção mouriana, o negro se faz enquanto elemento altivo e construtor de sua própria história e autonomia cidadã, mesmo quando condicionado por sua condição de escravo. Que acaba por limitar, mas não impedir a ocorrência da sua própria busca em se fazer soberano em relação a sua humanidade. Para assim questionar, a estrutura - social - racista e discriminatória brasileira, visando dar xeque em seu racismo, e as iniquidades sociais oriundas deste, que acabam por afetar cotidianamente a vida das populações afro-brasileiras.