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Resumen de ponencia
Método e Identificação na busca por pensar e repensar a dimensão do projeto: Campos Elíseos em luta e disputa

*Antonio Fabiano Junior
*Jennifer Barros
*Lizete Rubano



Este trabalho é um relato crítico de uma experiência do escritório modelo - Mosaico - da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie. Associada a uma equipe multidisciplinar - constituindo o Fórum Aberto Mundaréu da Luz - essa experiência significou pensar a dimensão do projeto - urbano e de arquitetura - a partir de sua possibilidade emancipatória, na tentativa de criação de subsídios às necessidades humanas por meio de ações urbanas de movimentação (práxis) e comoção (páthos), na busca por um lugar de construção coletiva, para a população moradora do bairro e para a formação profissional dos estudantes, considerando a condição de urgência posta pela disputa de territórios urbanos. Como estudo de caso, Campos Elíseos, bairro central da cidade de São Paulo, área de constantes incursões de grande violência por parte de agentes públicos e do mercado imobiliário.
Diversos grupos e instituições que atuam nos Campos Elíseos constituem o Fórum Aberto Mundaréu da Luz a fim de produzir projeto a partir da observação, escuta e participação efetiva da população local do bairro sobre necessidades e desejos de forma transdisciplinar - multi e interdisciplinar -. Para tanto, foram realizados eventos em espaços públicos existentes na área, levantamentos de campo, reuniões coletivas de organização do Fórum, reuniões para pensar soluções para o destino da área e oficinas para discutir os processos em curso, contando com a atuação de moradores da área, companhias e coletivos culturais, organizações que atuam no campo da saúde mental, laboratórios e escritórios modelo de arquitetura e urbanismo, história social e psicologia de universidades, ONGs com atuação em políticas urbanas e de assistência social, entre outros.
O trabalho busca reflexão crítica e propositiva de elaboração de conteúdos de pesquisa projetual via articulação de parceria academia-comunidade-institutos de pesquisa-poder público como espaço de reflexão e suporte ao desenvolvimento do projeto em cenário mutante e complexo. Procura-se, dessa forma, ir de encontro à superação da simulação do exercício para o aprendizado de arquitetura como maneira de circunscrever uma realidade factível para o projeto acadêmico. É um projeto real, não apenas por ser possível, mas porque, como produção do conhecimento para sociedade, baliza o debate social visando a ação real no entendimento do projeto como ferramenta de discussão, produção e atuação do cidadão na busca pela cidadania de todos. A cidadania enquanto transitoriedade permanente é posta como alcance enquanto revisão de direitos
Nesta lógica, o trabalho coloca o campo da arquitetura como prática de sonho e construção capaz de dar subsídios às necessidades da comunidade suprindo a falta de direitos mínimos de vivência urbana como ferramenta para barrar a barbárie social na busca por um lugar de construção coletiva enxergando o projeto como uma estratégia de luta tendo como base moradores locais ávidos pelo desejo de serem vistos, ouvidos e sentidos.
Como hipótese temos o lugar do projeto e o lugar do trabalho do arquiteto e do estudante em confronto e coexistência a partir da consideração do território como sujeito em atuação (ato-ação) e não como objeto de estudo. A discussão primeira da arquitetura - a construção do abrigo – deve estar em prol da função social da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo como representação da Universidade como centro motor da sua razão de existir. Conhecimento com propósito de melhoria de vida social.
O trabalho propõe a aliança da metodologia da urgência - ações efetivas e reais como resposta imediata a problemas vividos pelos sujeitos do território - como compreensão do ensino associado à pesquisa permanente cujo compromisso é lidar com o campo de estudo e projeto capaz de enxergar, impulsionar e trabalhar a ideia de vida por trás das métricas abstratas do pensamento.
Como trabalhar com avanços na urgência? é pergunta norteadora do desenvolvimento do projeto. Ações cotidianas como a remoção de moradores além da velocidade de mudanças de pessoas subvertem a ideia de cronograma de projeto. Os passos são guiados por prioridades de demandas na tentativa de barrar os processos desumanos que acontecem a todo momento no território. A nomeada metodologia da urgência nasce não como um entendimento de projeto que dialoga com o problema, mas como um embate direto com a vida cotidiana.
Ao se trabalhar com uma comunidade vulnerável – habitação precária, trabalho informal e dependência química, na escala de saúde pública - e em um local com lógicas de tempo e intervenções no espaço tão imprevisíveis o processo ganha destaque uma vez que a ideia de produto final não existe. A lógica é outra. Visto que o projeto é tratado de maneira inalterável, tanto espacialmente quanto quantitativamente, pelos agentes envolvidos em uma parceria público-privada, as etapas e o desenvolvimento de um trabalho que se constrói de forma conjunta e atenda às demandas territoriais de uma população tão heterogênea não tem como perspectiva a proposta fixa e imutável, mas sim a instrumentalização da comunidade na disputa diária pela permanência nas quadras e pelo direito à moradia digna e central. Dessa forma, a conscientização da população em relação aos seus direitos como cidadãos e o acompanhamento da situação jurídica da área para esclarecimento das medidas que podem ser tomadas em relação às moradias é um aspecto importante que vem sendo realizado no processo do projeto.
O método apresentado, mais do que desenhar o lugar de habitabilidade como direito, promove contestação e luta, no momento em que amplifica e entende as contradições social e econômica como sujeitos que sofrem na pele violências cotidianas constantes. É um trabalho como ato de resistência na medida em que reconhece na arquitetura, parte intrínseca e indissociável da cidade, um instrumento privilegiado de discussão e se constitui como uma hipótese factível de dar forma ao mundo para todo mundo a partir do sujeito-em-diálogo, como ele em si arte-facto do lugar, capaz de iniciar potenciais mudanças no presente provenientes de luta no vislumbre de prováveis conquistas em tempos vindouros, a partir da ideia efetiva do valor da produção do projeto coletivo como artifício - arte-ofício - do pensamento humano. É um ato de reparação na medida que se apresenta como instrumento de construção de paisagem para a vida a partir da proposição e percepção de espaços como lugares de afeto (na medida em que se constrói um lugar de fala para pessoas que não têm voz e de escuta por entendê-las como agentes espaciais, entende-se que o projeto constitui lugares de afeto, por afetar o sujeito na busca da construção de cidadania capaz de propiciar vocações de luta coletiva), na vontade de reparar no outro como pertencimento do todo. A cidade como produto deve dar lugar à cidade como obra coletiva.
Com conhecimento, reconhecimento, envolvimento e proposição, ações humanas temporais, a metodologia apresentada busca o resgate da diversidade como lugar de existência na incansável reparação das desigualdades sociais, entendendo o projeto como instrumento de luta e atuação do constructo efetivo, sonho realizado, ato-em-ação.




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* Fabiano Junior
Universidade Presbiteriana Mackenzie - UPM. SÃO PAULO, Brasil

* Barros
Universidade Presbiteriana Mackenzie - UPM. SÃO PAULO, Brasil

* Rubano
Universidade Presbiteriana Mackenzie - UPM. SÃO PAULO, Brasil