Realiza-se neste trabalho um mapeamento de estudos latino-americanos na área da jornalismo e mudanças climáticas (MCs) a fim de apontar as lacunas e achados de tal interface e contribuir com a qualificação dessa discussão. Há muito mais estudos sobre jornalismo e mudanças climáticas no hemisfério Norte do que no hemisfério Sul – e isso fica evidente quando se observam os estudos do continente americano. Isso pode ser constatado pelo próprio investimento em pesquisa, que é desigual, mesmo sendo os países mais dependentes dos recursos naturais aqueles que sofrerão maior impacto e também os menos resilientes (PNUD, 2007).
A cobertura jornalística das MCs começa a crescer nos anos 1980 e as pesquisas sobre seus reflexos desenvolvem-se na década posterior, nos Estados Unidos, Europa, Austrália e Nova Zelândia. Em um primeiro momento, os estudos são, majoritariamente, sobre os conteúdos da cobertura das MCs, mas já sinalizando para a existência de lacunas no papel da mídia como agente mobilizador de ações de enfrentamento das MCs (LOOSE, 2016). Grande parte das pesquisas realizadas, sobre o binômio em questão, foram conduzidas por falantes de língua inglesa e focadas em jornais impressos (SHANAHAN, 2009). Além disso, a cobertura jornalística sobre alterações do clima continua sendo irregular e inconsistente na maioria dos países em desenvolvimento.
A cobertura do assunto costuma ter picos, motivados pelas Conferências das Partes (COPs) ou divulgação dos relatórios do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC). Da mesma forma, muitas pesquisas acompanham esses movimentos, buscando verificar como jornalistas apresentam as questões climáticas ao grande público. Podemos identificar uma variedade grande de publicações que tratam desse aspecto nos Estados Unidos, especialmente discutindo a regra do equilíbrio informativo (BOYKOFF e BOYKOFF 2004; 2007) e a forma de expor a incerteza científica e a controvérsia (ANTILLA, 2010). Esses enfoques midiáticos podem dificultar o entendimento de que as MCs são urgentes.
Na América Latina (ou no Sul Global), as mudanças climáticas ainda são foco de poucos estudos na interface entre comunicação/jornalismo. No Peru, por exemplo, os únicos estudos empíricos que se debruçam sobre a cobertura das mudanças climáticas conduzidos por Takahashi (2011) e Takahashi e Meisner (2013), mostrando que há uma cobertura mais intensa quando há eventos e predomínio de fontes políticas; o estudo de 2013 mostra que ações de mitigação são mais enfatizadas no material produzido por agências internacionais, em vez de adaptação, o que é mais relevante para países vulneráveis e coincide com a visão geral do governo que esta é uma oportunidade de negócio (TAKAHASHI e MARTÍNEZ, 2017).
Na Argentina, há alguns estudos sobre a cobertura das MCs nos principais jornais (quase todos publicados em espanhol) e as ligações entre o trabalho da mídia, a política e as percepções do público ainda não foram objeto de pesquisa acadêmica (MERCADO-SÁEZ e GALARZA, 2017). No Brasil, as investigações também são escassas, publicadas em português e focadas, em sua maioria, na análise da cobertura noticiosa em jornais e revistas (LOOSE, 2016).
Algumas pesquisas, como a de Kitzberger e Pérez (2009), avaliam vários países da América Latina, mas focam especialmente nos ditos jornais de referência. Tais estudos concluíram que a cobertura das MCs não reflete nenhuma discussão profunda, sendo o tema abordado principalmente como uma questão internacional, sem muita relação com a realidade local. Diferentemente dos EUA, no qual o ceticismo era frequente na cobertura midiática, na Argentina, no Peru e no Brasil as MCs são apresentadas como um problema legítimo, atrelado à ação antropogênica. O posicionamento científico do IPCC não é colocado em xeque, sendo adotada, de forma geral, pela mídia latino-americana.
Assim como o Brasil, a Colômbia tem o desmatamento para a ampliação da área agrícola como uma das principais causas de emissões de GEE, que intensificam as MCs. Contudo, ao focar na área da comunicação, há poucos estudos sobre esta relação, que mostram que o governo é a principal fonte da mídia, seguido por especialistas (VÉLEZ et al., 2017). O fato de o governo ser um elemento importante na cobertura sobre o tema dificulta o enfrentamento, pois sua comunicação técnica busca atender às necessidades dos acordos internacionais, ao invés de pensar no seu contexto e estimular ações de adaptação e de mitigação. Semelhante a outros veículos de comunicação na América Latina, na Colômbia, no Peru e no Brasil, a maioria das notícias sobre MCs divulgadas nos portais é originária de agências de notícias, reforçando a falta de conexão com o local (VÉLEZ et, al, 2017; TAKAHASHI e MARTÍNEZ, 2017; LOOSE, 2016). A ênfase no global, identificada na cobertura jornalística de vários países do Sul, deve ser repensada, assim como a apresentação de solução (e não somente riscos).
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