O enfraquecimento do sistema fordista de produção de massa como paradigma dominante da organização industrial e das relações de trabalho nas sociedades mais avançadas economicamente registrou o processo de decadência de áreas de diversas cidades onde se estabeleciam as suas fábricas. Essa desindustrialização intensifica-se com a consequente globalização e a especialização de produção imaterial nas principais áreas urbanizadas, tais como sistema financeiro, informacional, de comunicação, serviços e cultura – impulsionada pela revolução tecnológica decorrente dos avanços na tecnologia digital. Nesse contexto, o espaço urbano é constantemente modificado ao estar relacionado com as interações sociais, as assimetrias de poder, as novas perspectivas de valor de uso e de troca e, portanto, as novas formas de desenvolvimento.
Nesse contexto, a economia criativa surge como nova forma de valor e de produção relacionado à criatividade como um recurso central na atual fase do desenvolvimento capitalista. Assim, abriram-se possibilidades para se repensar o desenvolvimento econômico e a revitalização das cidades, pelo aspecto de inovação e de nova interação no espaço público quando há investimento nesse setor por parte dos agentes públicos e privados. Para ficarem claras as redes que são desenvolvidas nesse escopo, a indústria criativa é dividida conforme dados da FIRJAN (2008) em quatro grandes áreas a fim de facilitar a vocação e a análise de dados por estados e regiões do Brasil: tecnologia (P&D, biotecnologia, TIC), consumo (publicidade, arquitetura, design e moda), mídia (editorial e audiovisual) e cultura (expressões culturais, patrimônio e artes, música e artes cênicas), concentrados no núcleo da indústria criativa.
A partir da articulação dos trabalhadores nessa área e um crescente investimento nesse setor para revitalização de áreas degradadas pelo processo de desindustrialização, o trabalho consiste em fazer um breve ensaio sobre o modo de desenvolvimento territorial atrelado a essa estratégia de economia criativa de exploração das peculiaridades culturais locais em interação com as globais. Para tanto, primeiramente, é discutido a urbanização fundamentada numa relação social “moderna” atrelada ao processo de industrialização brasileiro num contexto de assimetrias de poder global. Abrange-se a ideia do desenvolvimento urbano em um contexto espacial, de participação cidadã em sua relação de apropriação do espaço público com o fim de construção mais democrática. Esse contexto se aplica ao desenvolvimento territorial endógeno relacionado com a multidimensionalidade de poder entre agentes que articulam em rede, inclusive em escopo globalizado.
O trabalho, portanto, analisa a relação de desenvolvimento estratégico do espaço urbano na nova atribuição do conceito que abrange diversas profissões consideradas criativas. A economia criativa está atrelada a concepções de trabalho em produção flexível, diferenciação de produtos, especialização produtiva, atividades em fluxos de rede a serem exploradas e da expressão geográfica desses fenômenos, quais sejam, as aglomerações produtivas nessa nova concepção da produção pós-fordista. Nesse sentido, o objetivo do ensaio é conhecer o modo de desenvolvimento territorial de áreas degradadas atrelado ao incentivo em gerar renda a partir dos recursos culturais juntamente a uma rede de “cluster” criativo correlacionando o processo de industrialização e de urbanização no Brasil.
Este trabalho é o desenvolvimento teórico de construção de uma parte maior da dissertação que relaciona o espaço urbano e planejamento de desenvolvimento da chamada cidade criativa. Para tanto, alguns autores corroboram com essa discussão, tais como Peter Hall (2016), David Harvey (2001), Milton Santos (2008), Saskia Sassen (1998), Rogério Haesbaert (2007), Marcelo Lopes de Souza (2013), Otília Arantes, Ermínia Maricato e Carlos Vainer (2000) que discutam a territorialidade e a construção crítica das estratégias de desenvolvimento urbano atrelada ao controle político do espaço pelo capital econômico. Além do mais, são vinculados com os autores que trazem os conceitos de economia e cidade criativa e que tendem a tensionar a questão entre construção de um novo estilo de vida do profissional criativo num espaço legitimado pelo seu projeto de desenvolvimento, tais como Richard Florida (2000), O’Connor (2015), George Yúdice (2006), Stuart Cunnigham (2010) e Charles Landry (2011).
A ideologia do crescimento e do desenvolvimento para legitimar as cidades corporativas acaba por afetar o modo de vida da população. Ao trazer os temas do processo estratégico de ressignificação territorial identitária pela economia criativa, demonstram-se a estrutura assimétrica global relacionada às cidades latino-americanas, bem como o seu processo de urbanização. Além disso, aliar o debate do planejamento urbano com uma nova mudança de perspectiva de espaço através do dinamismo de iniciativas socioculturais de atores locais com as redes globais leva a compreensão dessa nova transformação. O conceito de economia criativa, a sua aplicabilidade e transformações sociais dentro das cidades ainda é pouco estudado, sobretudo nos países em desenvolvimento, já que é um termo incompreendido e recentemente debatido na área acadêmica. Por isso da relevância do trabalho quanto às modificações que ocorrem na identidade local através dessa dinâmica dialógica entre formalidade e informalidade, globalização e hibridismos, usos e trocas, todas relacionadas à diversidade e dinamismo do espaço urbano e público.
O artigo tem como principais hipóteses, segundo as análises dos autores utilizados a de que a construção de um espaço pelas redes de interações entre os profissionais criativos desenvolvem novas concepções de desenvolvimento, relacionado com o mercadorização da cultura. O debate atribuído a economia criativa como vetor de revitalização pode levar a espaços gentrificados ao atribuir o estilo de vida aos megaempreendimentos e a globalização em aversão a cultura local. Nesse sentido, ao invés de valorizar, há a desconstrução identitária do território com a expulsão dos antigos moradores, em um processo típico da urbanização brasileira “de cima para baixo” sem dar relevância ao direito à cidade. Mesmo assim, as estratégias da economia criativa ainda possuem diversas dificuldades, justamente pelas diversidades de valores entre os agentes locais e iniciativas socioculturais; a falta de participação popular nos debates sobre a cidade e a desigualdades sociais, marcadas pelas assimetrias de poder entre os diferentes atores no Brasil.